18/01/2010

O sonho de um homem

Artigo: Luis Pardal
Ribeira das Pombinhas em Castelo Branco Mogadouro
Até hoje quero crer que ainda se podem ouvir os estouros de fragas a ecoar por todos os montes e vales das pombinhas. Pelo menos, sempre que vou por lá, ainda sinto a terra tremer e escuto o rugir das explosões repetido pelo eco, como se fosse uma trovoada a chegar.
Acredito que isso não ocorre só comigo, mas com todos os que por ali passam e param por alguns instantes com os ouvidos alertas, na escuta. Se lá forem, e eu recomendo que vão! Parem um pouco á espera... Fiquem de ouvidos bem abertos! A qualquer momento, vão ouvir e sentir também.
Mas, não, não se assustem, não é trovoada, tão pouco precisam chamar Sta. Barbara ou São Bernardino, estão seguros! O lugar é de calma e de paz!
Quando lá forem, quero que me contem o que se passou por lá. Fica desde já combinado, trato é trato, quem escutar vai ter que contar aqui.
De qualquer modo, vale a experiência de um passeio maravilhoso para se fazer no fim da primavera, ou no começo do verão. Sair a pé, ribeira abaixo, pelos caminhos e ribeiras até as cardanhas, é imperdível. Passem por lá!
Nas fragas ainda se podem ver alguns dos buracos abertos para rebentar as pedras e que não foram utilizados com pólvora e estopim. Impressiona muito ver tudo isto. Estas marcas fazem olhar e refletir como a natureza humana e a força de caráter são capazes de superar todas as adversidades e limitações. Um exemplo de vida, que incentiva. Por mais que a vida e natureza teimem em nos colocar dificuldades e desafios, se tivermos fé, força de caráter, vontade e determinação de vencer, não haverá dificuldade grande o suficiente para nos deter ou desestruturar.
Mas entendam porque lhes digo isso...
Talvez sejam poucos os que ainda se lembram dele. Na verdade nem eu me recordo muito bem. Partiu quando em tinha de quatro para cinco anos e, o tempo já apagou da memória as imagens das feições e traços. Restaram as marcas dos feitos e da personalidade, destes sim, eu confesso, que me lembro muito bem. Impressionavam nele a força, a determinação e a vontade de vencer.
O Ti Pauzinho.
O apelido veio do aspecto magro e fino, que lembrava um galho seco “pauzinho”. A fome e necessidades deram-lhe a aparência e o nome, mas fizeram também a têmpera do caráter, da vontade férrea e teimosia.
O homem tem a medida do seu sonho. Não é a origem nem a falta de sorte que traçam o destino, são as idéias ou a falta delas. Assim o objetivo que traçamos para nós mesmos e a força que colocamos na determinação de alcançar a meta, são determinantes para o resultado de toda uma existência.
Nasceu em Vale Verde, de família muito pobre. Mudou para Castelo Branco para procurar trabalho e sustento. Foi empregado da “Casa Grande”. Serviu como pastor, podador, lavrador e tantos outros afazeres da vida na aldeia.
Do trabalho braçal e das economias de uma vida de sacrifícios conseguiu juntar um patrimônio razoável. Deixou de herança algumas vinhas, olivais e hortas, todas conquistadas, pelas economias e apertos de vida inteira de trabalhos lutas e canseiras. Ficou presente em todos estes lugares a marca do grande homem que foi. As várias vinhas que plantou com a ajuda dos dois filhos e filha, destacavam-se pela variedade e qualidade da casta de uvas. O vinho que produzia, sempre foi um vinho apreciado. Quem teve a sorte de passar perto da adega e de tomar uns canecos, teve a oportunidade única de provar um dos melhores vinhos que Castelo Branco já produziu. Em todas as vinhas, olivais e hortas, construiu uma casa e um poço. Plantou cerejais, macieiras, pessegueiros e amendoeiras. Um legado que passou dele para a filha Arminda e desta para as filhas Amélia e Guilhermina.
Mas teve um lugar que realmente foi a marca maior desta existência lutadora e para quem o conheceu diria comigo que foi o “estopim” de toda uma vida. Um sonho materializado debaixo de suor, dor e lágrimas.
Este lugar de que quero lhes falar é da horta das pombinhas.
Depois de muitos anos de trabalhos, conseguiu comprar as terras. Eram distantes do povo em um lugar de acesso difícil e com a agravante de que em boa parte do ano a ribeira crescia e não se podia passar para o outro lado facilmente. Mas isso talvez tenha sido um argumento a mais pra negociar e firmar o negócio da compra das terras.
Comprou uma encosta de fragas, piçarras e pedras. Quem conhece o lugar sabe o que digo. O terreno é íngreme, quase a pique, mas tem uma faixa estreita de terra arável fértil e promissora. Esta faixa na época era apenas uma promessa, onde ele antevia grandes colheitas de batatas e verduras, e a garantia da alimentação e futuro da família. Era um homem visionário e de muitos planos, um empreendedor nato, de muita garra e determinação. Mas os dias de fartura só vieram depois de muitos anos de trabalhos e luta contra os revezes que a natureza.
Um dos lados da horta fica paralelo á ribeira que nas grandes trovoadas cresce e leva tudo na frente com a enxurrada. Foram sucessivas reconstruções e perdas de tudo o que plantara. Este fato faria qualquer um desistir. Mas para o Ti Pauzinho não passaram de desafios diante da teimosia e determinação dele. O mais forte ou o mais teimoso há de vencer. Registrem: Foi ele que venceu!
Não teve dúvidas e formulou um plano. Construir uma parede ao longo da propriedade capaz vencer as águas da ribeira mesmo quando viessem as maiores trovoadas. Pedra não faltava nas fragas da encosta. Mas tinha que ser solta para poder ser usada.
Assim pensou e melhor o fez. Comprou pólvora e estopim e deitou mãos á obra. Com a experiência do trabalho nas minas onde aprendeu sobre explosões e dinamite, fez e aconteceu. Este conhecimento foi o seu maior aliado no desafio de vencer as fragas e a ribeira. Os dias de trabalho e as explosões de fragas foram muitos e duraram alguns anos. Mas o resultado é visível até hoje. Se forem lá olhem a parede que ladeia a ribeira e protege toda a propriedade. Ficarão impressionados...
São toneladas de fraga e pedras carregadas e arrastadas com a ajuda de uma junta de bois. De onde ele tirou a força não sei, as pedras arrastadas são enormes e pesadas. Mesmo nos dias de hoje com as maquinas que dispomos, seria difícil de colocar, assentar, alinhar e fazer parede devido ao formato e tamanho.
A parede não foi o único marco. Construiu lá uma casa, uma corte. Escavou dois poços na fraga, uma cisterna de onde nasce uma fotaela de água fresca e pura. Construiu e montou uma nória junto da ribeira com todos os aparatos e engrenagens. E fez uma ponte para poder atravessar a ribeira nos tempos em que ia cheia. Mas não se pode vencer sempre e, a ribeira levou a melhor nesta partida, a ponte anos depois de ter sido construída foi totalmente destruída em uma trovoada fortíssima.
Tempos atrás na ultima ida a Portugal quis ir ás pombinhas. Quando garoto passei muitos dias e horas por lá a guardar as vacas no lameiro enquanto meu pai e minha mãe lidavam na horta. É um lugar que guardo no peito como um lugar encantado e que visito nos meus sonhos vezes sem conta.
Confesso que fiquei muito impressionado. Apesar de a paisagem ter mudado muito nos ultimo anos, visto que plantaram eucaliptos em todas as encostas que ladeiam a ribeira da Veiga até lá, o que me impressionou foi o carinho e o restauro que minha irmã Guilhermina o Ernesto e os filhos deram a este lugar. No ano passado o meu sobrinho Abilio mandou algumas fotografias para me avivar a memória.
Vejam nas fotos o que lhes conto. E quem sabe vão lá visitar as pombinhas também. Falem com a Guilhermina e o Ernesto. Acredito que terão orgulho e será um prazer receber os amigos por lá.
Depois da visita contem se ainda se escutam os estouros das fragas. Vou gostar de saber!
Ribeira das Pombinhas, em castelo Branco Mogadouro Oliveira e trator perto da horta das pombinhas em Castelo Branco Mogadouro Corte do Ernesto e da Guilhermina na horta das pombinhas Vista da Casa e horta das pombinhas Ribeira das Pombinhas perto da horta do Ti Pauzinho Vista da casa e Curralada Vista da ribeira ao longo da propriedade e da parede vista lateral Vista do poço e das paredes Vista das fragas Amendoeira em Flor. Esta ainda foi o Ti Pauzinho que plantou
Vista do termo de Castelo Branco ao fim da tarde

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