REVISITANDO CASTELO BRANCO
aldeia de castelo branco mogadouro,
28/05/2026
Entre a terra, o rosto e a memória
Ao olhar para o rosto do meu pai, vejo mais do que a imagem de um homem. Vejo a marca da terra, do trabalho duro, dos dias longos no campo, do sol a desenhar sulcos na pele e da dignidade silenciosa de quem aprendeu cedo que a vida se sustenta com as mãos, com resistência e com palavra.
Castelo Branco, aldeia transmontana do concelho de Mogadouro, aparece no blog Revisitando Castelo Branco não apenas como um lugar geográfico, mas como território de pertença, memória e reencontro.
A aldeia surge como esse lugar situado entre referências concretas e afetivas: a proximidade de Mogadouro, a Serra de Lagoaça, a margem direita do Douro, Vale de Porco, os caminhos antigos e a paisagem que ajudou a moldar gerações.
Mais do que dados, essas referências desenham um mapa interior: o mapa de quem saiu, mas nunca deixou de voltar por dentro.
A memória como território
Nesse território, a memória não é abstrata. Ela tem nomes, caminhos, serões, escolas, santos, ditados, romarias, lareiras e conversas.
O blog preserva esse espírito ao revisitar os serões na aldeia, as castanhas, as chouriças, a alegria simples e a possibilidade de regressar a Castelo Branco para rever pessoas, lugares e o jeito de ser albicastrense.
Essa dimensão é essencial: a aldeia não vive apenas nas casas ou nas ruas, mas no modo como as pessoas se reconhecem umas nas outras.
Meu pai pertenceu a esse mundo. Um mundo em que o corpo amadurecia cedo, não por idade, mas por esforço.
Talvez por isso, ao imaginar uma fotografia minha ao lado dele na mesma idade, seja preciso compreender que a semelhança não está apenas na altura, no rosto ou na proporção do corpo.
Está numa herança mais funda: a de carregar, cada um à sua maneira, o peso e a honra de continuar.
A origem que permanece
O Revisitando Castelo Branco também preserva a lembrança da antiga origem da aldeia, associada à Capela de Nossa Senhora da Vila Velha, ao Cabeço dos Mouros ou Preijal, onde surgem referências a vestígios antigos e à possível transição do povoado para a localização atual.
Essa narrativa de deslocamento diz muito sobre nós: a vida muda de lugar, as famílias atravessam fronteiras, os filhos partem, os netos nascem longe, mas alguma coisa permanece presa à origem.
A devoção a Nossa Senhora da Vila Velha, tão presente no imaginário de Castelo Branco, reforça essa ideia de proteção dos filhos, das mães, dos jovens e dos imigrantes que levam a terra no coração.
A aldeia, nesse sentido, não fica apenas em Portugal. Ela viaja com quem parte. Mora na memória, na fala, nos gestos, no modo de trabalhar, de resistir e de amar.
Uma fotografia possível
Por isso, esta imagem que tento reconstruir — eu ao lado do meu pai, como se o tempo nos permitisse estar juntos na mesma idade — não é apenas uma montagem fotográfica.
É uma tentativa de encontro. Um gesto de reconciliação com a origem. Uma forma de dizer que ele continua comigo, não como ausência, mas como raiz.
No rosto dele, vejo Castelo Branco.
No meu, vejo a travessia.
Entre os dois, há uma história de trabalho, distância, saudade e permanência.
E talvez seja isso que uma fotografia verdadeira precisa guardar: não apenas a aparência dos corpos, mas a dignidade daquilo que nos formou.
20/12/2015
Para matar as saudades
Autor: Isabel Cristina Pardal
Em meio ao inverno de 2010 com frio inimaginável, ações e pensamentos troteiam por imagens que conectam Albicastrenses próximos ou distantes de sua terra natal. Espero que gostem.
Isabel Cristina Pardal
13/04/2015
Nem só do pão, mas dos fornos…
MAIS UMA CRÓNICA DO ULTIMO REGEDOR DE CASTELO BRANCO
23/03/2015
A burra russa
Autor: Albano Solheira
Uma engrideira a pender da albarda, servia de estribo para montar. Era uma figura essa burra... Daquelas com o pelo cheio e espesso que precisava de tosquia como as ovelhas todo o ano no mês de março.
Montaria inseparável, onde o dono ia lá estava ela, companheira certa pra todas as horas. Um animal dócil de olhos meigos, porem teimosa como uma porta. Casmurra fazia o coitado do dono de gato e sapato.
Nos dias em que lhe apetecia, resolvia não trabalhar e não havia quem a fizesse sair do lugar. Nesses dias para a tirar do palheiro era preciso empurrá-la para a rua para a albardar.
Foi comprada dos ciganos na feira de mogadouro quando ainda era nova. Chegou para alegria do dono e auxilio na lida das terras. Espetacular, dava gosto ver como trabalhava pelos caminhos da aldeia, nas hortas a lavrar as batatas com o arado, escondida debaixo dos feixes carregada de ferranha só com a cabeça de fora a abocanhar as espigas, ou então com 5 sacas de trigo ao lombo a caminho da moagem. Não havia par pra ela!
Mas de burra não tinha nada, era sim, um animal muito esperto, que com o tempo começou a decorar os quatro pontos cardeais da aldeia. Anos de trabalho e de canseiras, foram-na fazendo ficar arisca e desconfiada e aos poucos começou a tomar atitudes no mínimo curiosas para um animal. Consoante a época do ano e a direção do caminho que o dono tomava ela saia apressada e prezepeira, ou empacava presa ao chão como se fosse uma estatua.
Por exemplo, quando ia pra devesa sabia que por ali os trabalhos eram poucos, pois só lá ia pra regar a horta, ou então quando subia o caminho da solheira para a ribeira de cavalos sabia que o que lhe tocava era guardar as vacas, ou a cortar o feno, assim toda satisfeita ia sem precisar picá-la, por ali ficava o dia inteiro, no pasto, tranqüila, sem nada para fazer. Mas por outro lado quando virava para vale de cabreiro, indo pelas figueirinhas, a história era outra... Logo ao chegar na praça, ali perto do tanque, ela empacava, bebia sossegada como que para enganar o dono e fazê-lo acreditar em milagres, como se tudo fosse correr bem. Mas logo em seguida, antes mesmo de terminarem os paralelos de cantaria da praça, a esperta empacava e não havia quem a fizesse andar... Fincava as quatro patas e parava. Podiam trazer uma junta de bois valentes para a carregarem que nada a tirava dali. Mas pudera, sabia bem o que a esperava para aqueles lados, era trabalho duro que não acabava mais, puxar a charrua o dia inteiro, lavrar as vinhas...
Mas isto também era só em certas estações, a burra contava o tempo, era só passar a época da lavra e das hortas que a danada levantava o rabo, sacudia as moscas e saia pra onde a quisessem levar.
Na segada gostava de ficar a sombra debaixo dos sobreiros ou carrascos, serena a olhar os donos a trabalhar. Vida boa esta do começo do verão. Trabalho leve. No palheiro pela manhã esperava até a hora perto do almoço, para começar a rotina. Vinham albardá-la para levar a merenda aos segadores. Dois alforges um em cada lado e a filha piquena do dono, montada no meio. A dona ia à frente e guiava a rédea para não correr o risco de derramarem as sopas e deixarem a todos com fome.
Tarefa comprida, ficava presa por uma engrideira amarrada nas arreçanhas perto do restolho, porem longe o suficiente para não chegar perto do molhos de trigo. Por pouco tempo, de tanto forçar as arreçanhas ela dava um jeito de se soltar e á menor distração lá estava ela de boca cheia a comer as espigas gradas dos molhos, um banquete delicioso e farto.
Adorava a época da segada. Mas, à medida que via o trigal sumir diante do restolho e os rilheiros cada vez em maior numero e mais altos, ficava de novo a mesma burra de sempre, arisca e teimosa e antes que desse o tempo da acarreja, a esperta parava de obedecer.
Passaram-se anos e o dono cansou de tanta teimosia. Desistiu comprou uma mais nova para ajudar na lida. Demorou a tomar a decisão, tinhas seus amores pela velha, e no fundo até admirava o caracter do animal, mas teve que aprender um dia de cada vez e com uma novidade depois da outra, que era tarefa perdida. Precisava de substituta para os trabalhos.
Ela por seu lado, enfim descansada, viveu por muitos anos a pastar pelos lameiros e restolhos do chafariz.
21/03/2015
Um lugar no paraiso
Tive que partilhar esta descoberta de hoje, a caminho de uma reunião de trabalho,
no Município de Rodeio, Sc. São quase 11 km de estrada de macadame para chegar na Tirolesa onde seria minha reunião. Um belíssimo passeio que recomendo fazer em dias de sol e sem chuva. A cada curva da estrada um cartão postal nos surpreende. No meio do trajeto encontrei esta marca construída ao longo de muitos anos por um grande homem. Tive que parar para olhar e fotografar e ficar sem palavras e sem folego diante da paz que se sente como se fosse um objeto ou algo físico.
Ao pesquisar no google descobri que este jardim tem um criador, o Sr. Paulo Notari, um hábil e determinado morador que transformou a estrada em um caminho do jardim do Éden. Ele mesmo diz que “em certo momento de sua vida ao olhar tamanha beleza pensou que ali onde morava era o jardim do paraíso”. E no seu olhar simples de apaixonado viu que faltavam apenas as flores para emoldurar este belo quadro. Lembrei do verso de Fernando pessoa: “ Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” . E se pensou melhor fez, pôs mão na enxada e iniciou voluntariamente a missão de plantar 9 km de hortênsias, de um lado e outro da estrada que passa diante de sua casa.Mas ao ver tudo florido novamente pensou, ainda falta algo, de novo pôs mãos a obra: criou um molde e reproduziu 64 anjos brancos, os primeiros são de mármore, e os demais de concreto, e não podia deixar de ser, todos os anjos seguram em suas mão um buquê de hortênsias azuis. Foram nascendo um a um e ele os dispôs espalhados ao longo da estrada e dos morros. Ainda faltava algo pensou e para finalizar segunda parte de sua obra, criou um ponto de encontro, no centro do caminho, bem ao lado de sua casa, com um Cristo Redentor de braços abertos, que nos surpreende depois de passarmos pelos anjos. Este pedacinho do céu fica no Alto Ipiranga, próximo a Rodeio, na transição entre as partes baixa e alta do Circuito Vale Europeu.Este pedacinho do céu fica no Alto Ipiranga, próximo a Rodeio, na transição entre as partes baixa e alta do Circuito Vale Europeu. Se forem por lá podem dar sorte de encontrar o Sr. Paulo...
05/03/2015
01/03/2015
A Promessa a São Bernardino.
Acordou muito cedo, ansiosa e ao contrário das irmãs, que correram na janela para ver a banda passar na volta ao povo, ela ficou no quarto, às voltas com a roupa, sem jeito de se arrumar.
Vestiu a roupa, penteou os cabelos em um lote só, não conseguia dar jeito. Depois de muito brigar, e de muitas tentativas, enrolou-os em rabicó e firmou o penteado com ganchos e fivela. Insatisfeita como resultado, tentou se animar, e dizia para ela mesma, querendo se animar se desculpando, que não queria que o cabelo solto atrapalha-se na procissão. Foi até a porta do armário do quarto para se olhar no espelho e ver como estava. Ajeitou detalhes do vestido e saiu para a sala.
A mãe e as irmãs já a esperavam e tinham chamado algumas vezes para apressá-la. Não queriam chegar tarde nem perder o lugar na igreja. Isto porque nos dias de festa ficava apinhada de tanta gente de fora que vinha para a missa e sempre faltava lugar.
O pai desceu na adega, mediu um alqueire de trigo. Pegou o saco de linho branco tecido em casa, que fora lavado e estava da cor da neve, e derramou o trigo do alqueire lá dentro. Depois subiu com o saco até a porta da rua e ficou lá a esperar a filha. Tambem estava preocupado com o pagamento da promessa, e cansaço da filha, receoso de que ela não tivesse as forças necessárias para levear a cabo esta tarefa. Não que ela nao fosse valente, mas era uma menina delicada, que sempre fora poupada das lidas do campo. Afinal dar a volta ao povo com um alqueire de trigo na cabeça não devia ser nada fácil, exige preparo e força fisica. Ficou a pensar no motivo da promessa, tinha acompanhado o o desespero da filha, e de certa forma estava satisfeito por ter dado certo. Promessa para pagar era sinal de que o pedido feito ao santo e que este honrara com a graça alcançada, agora era hora do fiel pagar o prometido. Um corre corre pela casa e o barulho na escadaria das filhas e mulher descendo apressadas deram fim nos pensamentos. Ficou a olhar o grupo com ar de quem nao entendeu o que está a acontecer.
Ela desceu esbaforida, arreliada com a chamada insistente das irmãs que já a esperavam junto do pai. À porta de casa disse: Vamos! Sozinha e sem querer ajuda de ninguém equilibrou o peso na cabeça, firmou as pernas, balançou o corpo devagar para sentir o equilíbrio e saiu de casa com o alqueire de trigo na cabeça. A mãe e as irmãs saíram ao lado para acompanhar e ajudar nos primeiros passos. Logo chegaram na igreja.
Foi direto à pia de água benta que ficava na parede no lado da porta de entrada da igreja. Enfiou a mão até ao fundo. Sentiu o frio da água, e apertou os dedos como que a querer segurar toda a água da pia, e toda a força que a fé poderia lhe dar. Fechou a mão em punho e pediu: - Meu rico, São Bernardino, dá-me força para levar até ao fim minha promessa, meu rico santinho. Abriu a mão deixou a água escorrer por entre os dedos e tirou-a devagar de dentro da pia. Depois com um gesto firme e decidido fez o sinal da Cruz. Sentiu-se forte!
Os conterrâneos vão chegando aos poucos na Igreja trazendo os convidados para a festa. Vieram os parentes de longe, amigos, compadres, genros, e noras com os respectivos familiares. A festa de São Bernardino é um momento de reencontro e de celebração.
Acontece no dia 20 do mês de maio, logo depois do fim do inverno e bem no meio da primavera. É um marco no calendário da aldeia. O começo da época das cerejas. O sinal de que o verão logo, logo vai chegar. Sinais nos campos de fartura deixam nosso povo feliz. Os trigais já vão crescidos e as espigas gradas. As vinhas estão cobertas de folhas e o perfume dos cachos em flor faz previsões de uma boa vindima. As oliveiras floriram e cobriram os galhos de pontos verdes de azeitonas a crescer. Os cerejais com os galhos vergados deixam as bocas cheias d’água a espera das cerejas maduras. As figueiras estão com os galhos cheios de bêberas quase maduras. Enfim são tantos os sinais de fartura e de alegria, que até dá vontade de que seja São Bernardino o ano inteiro.
Depois de se benzer na porta da igreja, foi para o lugar costumeiro. Com a ajuda da mãe baixou o saco de trigo e pousou-o no chão, aos pés, na frente dela. Acenou com o olhar para as amigas e vizinhas que a olhavam na expectativa de ver como ela estava. Fez sinal que sim, está tudo bem.
Abafado pelas grossas paredes da igreja ouve-se ao longe, crescendo aos poucos no ar, o som da banda, o estouro dos foguetes, o barulho dos garotos a correr atrás das canas, o burburinho do povo em algazarra à volta da igreja. latem os caes do gado desesperados com medo dos fogos.
Nisto o sacristão, sai da sacristia e cruza a igreja passando pela coxia no meio do povo até chegar na porta do fundo para tocar no sino o sinal da entrada.
Sao puxadas pelas catequistas e enfileiradas em duas filas uma de cada lado da coxia perto do altar mor.
Ao chegar no lugar da fila esticam os braços para marcar a distância e vão trocando de lugar até ficarem por altura, primeiro os rapazes do menor ao maior, depois as meninas.
Uma faixa branca de tecido com uma cruz bordada em vermelho cruza o peito na diagonal, saindo do ombro direito e presa no lado esquerdo. Olhando de longe parecem um pequeno exército de pestinhas, irrequietos e aprontadores, prontos para saírem em fileiras cerradas pintando e bordando artes.
As catequistas estão nervosas e bravas com as crianças da cruzada. Por mais que tentem não dão fim na confusão que os pivetes aprontam. Perdem a compostura de beatas. Arrumam a fila de um lado e logo do outro eles pintam alguma malandragem.
A banda filarmônica, chega e começa a entrar pela porta dos fundos da Igreja , para complicar mais ainda a vida das catequistas que já estão com a paciência esgotada. Instantaneamente, a garotada da cruzada, como se fosse ligada por um mesmo fio, vira-se para a porta e logo cada um assume um instrumento e começa a tocar em uma sincronia impressionante. Tem maestro, saxofonista, tocador de caixa, pandeiro, clarinete... Em segundos formaram uma segunda banda que as catequistas, a todo o custo, com tapas e puxões de orelha, tentam abafar. Meu São Bernardino, que confusão!
Do lugar dela, ao lado da mãe, acompanha a sorrir as artes das crianças que não param de tocar, apesar das reprimendas e sorri com gosto ao ver que as catequistas finalmente cansam e desistem derrotadas.
Com o percorre a igreja procurando alguem em especial. Se distrai por alguns instantes a olhar as beatas que vão chegando. Lenços na cabeça, olhares falsamente contritos a chegar à pia de água benta com trejeitos esquisitos, todas a porem a mão ao mesmo tampo lá dentro e a fazerem o sinal da cruz com ares de arrepio. Riu ao ver os gestos, e pensou que ainda bem que as moscas não iam à igreja ou já estariam espantadas com tanto arremedo. Mas, inquieta, não conseguiu ficar por mais tempo a ver as beatas na pia, os olhos continuavam a procurar pela igreja, olhando à toda volta sem parar.
Combinavam entre si pares da mesma altura para equilibrar o andor e distribuir o peso de forma igual entre os carregadores.
Mas também não o viu ali.
A procura parou com a entrada dos padres no altar. Saindo da sacristia entrou o pároco, o de Vale de Porco e o pregador que veio de Castro vicente, junto com os dois acólitos também paramentados, um de cada lado. Enquanto eles iam até a frente do altar a igreja encheu-se de vozes. O povo em um só coro começou o cântico de entrada.
O ar festivo das vozes, o desafinado proposital das crianças, o tom beatífico de algumas mulheres, a voz grave dos mais velhos, o canto afinado dos padres, misturaram-se no ar criando um sonoro polifônico colorido e interessante.
A esta parte da festa, uma harmonia impar de vozes e sons, toma forma. Quero crer que até o próprio Deus e São Bernardino, que estavam só a olhar incrédulos e curiosos, lá do céu, começaram a cantar também, felizes, seguidos pelos santos, anjos e arcanjos e demais seres celestiais, pena que não formavam coro com os simples mortais, seria interessante de ouvir. Eu acho...
Apesar de animada pela entrada triunfal da missa e pelo cântico inicial, ela estava inconformada. O coração batia apressado a mil pulsos por minuto. Estava trêmula, suava frio. Gotas geladas escorriam pelas costas, quase sem cor.
A mãe viu que empalidecia, e em voz firme disse: - Comporta-te lá rapariga, põe logo sangue nesse rosto! Anima-te, não é nada impossível o que tu vais fazer, eE sei que vais dar conta do recado, podes crer! Senta-te ai um pouquinho.
Olhando enérgica para a filha do meio disse: - Ó Josefa senta aí também com a tua Irmã e dá apoio caso ela precise.
Sentou. Aos poucos, a calma e as enérgicas palavras da mãe, fizeram o rosto enrubescer. Só os olhos continuavam irrequietos a procurar alguém.
Olhou para o lugar onde ele ficava na igreja nas missas dos domingos, mas também não estava lá, ao lado do pai dele. Tentou encontrá-lo perto dos andores, mas não dava para ver. Sabia que devia estar do outro lado do andor do padroeiro, e que de onde ela estava não poderia vê-lo. Mas queria poder olhar para ele e ver-lhe os olhos.
O rapaz era o motivo da promessa. Se ele voltasse são e salvo da guerra do ultramar pagaria um alqueiree de trigo e o levaria à cabeça durante a procissão em pagamento de promessa a São Bernardino.
Esperou mias de tres anos e meio. Perdeu a conta dos rosários rezados, das promessas, dos sacrifícios, dos dias de solidão, sofrimento e inquietude. Felizmente o moço voltou são e salvo. São Bernardino cumprira com a parte dele. Era hora de pagar a promessa.
Feliz por lembrar de como tudo começou foi se tranquilizando... Tinha dezesseis anos e ele dezessete.
Faziam a vindima na vinha das figueirinhas.
As famílias juntavam-se todos os anos para se ajudar na lida.
Ano apos ano os rapazes desafiavam as moças para ver quem vindimava primeiro o valado de parreiras.
Esta disputa era tradição , e animava o dia, ajudava a fazer a vindima mais interessante .
Era cedo, ainda, quando chegaram à vinha. As parreiras umedecidas do orvalho do fim da noite curvavam as folhas, e derramavam lágrimas de tristeza pelos frutos que lhes tiravam ao serem tocadas pelos vindimadores. O sol saía aos poucos e ia aquecendo o ar enquanto espalhava pela encosta uma manta quente de luz e de vida.
A vinha enchia-se de mil abelhas e vespas, zumbindo acordadas, pelo romper da aurora e do calor nas asas. Sabedoras do fim do verão corriam na vinha, para tirar o sustento final, antes do inverno nesta missão de alimentar os corpos e a colméia com o néctar doce das uvas maduras.
Uma sinfonia de zumbidos enche o silêncio dos campos e avisa aos vindimadores para tomarem cuidado. Afinal, elas chegaram primeiro e defendem às ferroadas os ladrões que teimam tirar-lhes os cachos das parreiras. Sempre acontece de alguém se queixar de uma ferroada. Mas, que logo é resolvida na aplicação da lamina de aço da palaçoulo sobre o local, para evitar que inche.
Os rapazes e as raparigas animados pela disputa fazem uma algazarra enorme a correr por entre as parreiras. Espantam os melros que voam assustados a esbarrar nas folhas chilreiam bravos a reclamar da malta. Com uma velocidade impressionante de navalhas palaçoulo nas mãos vão cortando os cachos com uma precisão de cirurgião, tão firmes que quem olha se impressionaria se não soubesse da prática de anos.
De quando em quando, os pais olham e gritam para não deixarem as uvas para trás. E sem se importarem muito, com a algazarra dão risada e incentivam a disputa, a brincadeira sempre ajuda a manter a malta motivada no trabalho duro. E pelo sim e pelo não, sempre revisam os valados para validar a suspeita de que algumas parreiras ficam por vindimar. Mas divina providencia, e apesar disso sempre acontece de algumas parreiras ficarem sem vindima. Salvação de quem anda ao rebusco, dos pássaros no inverno e também dos pastores que ganham a volta da rama da vinha e que ao guardar as ovelhas acabam por encontrar parreiras com os cachos inteiros e felizes voltam para casa com o sarrão cheio.
Na correria dos valados os dois esbarram. A batida forte derrubou-lhes as cestas das mãos e espalhou as uvas no chão.
Olharam-se esbaforidos, com a respiração ofegante e o ânimo exaltado pela disputa. Os olhares cruzam-se faiscando com ares de disputa. Mas, por frações de segundo, os olhos param uns nos outros, profundamente.
A expressão do rosto mudou, e o sorriso foi substituído por uma expressão de surpresa e de novidade.O olhar deles tinha a mesma intensidade e sentimento, com que a fonte olha o rio e a chuva olha a nuvem de onde partiu. Os olhos deles brilharam como gotas de orvalho atingidas pelo sol, faiscando ao primeiro raio. Ficaram mudos… O silêncio calou as respirações ofegantes da corrida e da vindima. Estão presos no olhar, um do outro, em silêncio, surpresos com a descoberta. Em segundos e quase que instintivamente, riram como crianças, um riso solto, inocente, e genuíno. Atordoados, ficaram sem saber o que fazer. Tentavam encher de novo o peito de ar sem conseguir.
Sem entender o que aconteceu realmente, e disfarçando o ocorrido e a surpresa, voltaram a disputar a vindima, como se tudo não passasse de uma distração fugidia, um incidente.
Voltaram para o desafio, ele juntos dos rapazes e ela com as raparigas. Corriam cada vez mais rápido para ver quem ia mais depressa e vindimava mais valados. A disputa estava acirrada.
As abelhas enfadadas tentavam voar,mas não conseguiam mais embebedadas pelo fermentar dos bagosdos cachos de malvasia, verdelho, moscatel e touriga.
O dia ia chegando ao fim, a vinha estava quase vindimada, os cestos nos carros de bois estavam cheios.
Mas algo mudou dentro dos dois. Enquanto corriam, e disputavam os valados, os olhos ficavam à procura uns dos outros por entre as folhas das parreiras e das cestas cheias de uvas. Não paravam de se olhar.
Um aroma de terra e de uvas enchia ao ar de doçura, combinando com o sentimento que surgia no peito dos dois. Tudo parecia distante e alheio. Os corações batiam fortes e em disparada, em uma só sintonia. Uma alegria indescritível, um suave êxtase, deleite, enchia as veias percorrendo todos os poros dos seus corpos. A vindima passou correndo, com os pares de olhos e os corações cada vez mais presos um ao outro. A cada valado vindimado um crescente de emoções e de suspiros deixava no peito um rastro de paixão e encantamento. Estavam felizes, e embriagados. O coração batia assustado, com a descoberta do primeiro amor.
Desse dia em diante, uma grande mudança aconteceu. Os dois passavam o dia a procurar-se, e dedicavam todos os momentos que podiam, a buscar um ao outro, na lida da aldeia. Todo o fim de tarde ele ficava sentado nas escadas da casa da esquina praça à espera que ela fosse ao marco, para poder vê-la e encontrar seus olhos. Os dias passaram a ficar longos e a passar muito devagar. Contava as horas para o fim do dia e aqueles minutos da ída ao marco eram uma eternidade.
Um dia ele escreveu uma carta .
“Em alguns dias, paro e fico quieto, em silencio, á espera do som que antecede a tua chegada. Conheço teu andar e a cadencia de teus movimentos. O som dos teus passos no caminho, me dá a noticia de que te aproximas, e que vais chegar.
É assim todo o fim do dia.
Sento-me, nas escadas da casa, perto do marco, para te esperar.
Mesmo cansado dos trabalhos do dia, fico ali quieto e sem pressa a contar os minutos que me separam de te ver sair de casa e descer a rua com a cantara nas mãos para buscar a água.
Meus dias são, esta continua espera, do fim da tarde chegar...
As mulheres mais velhas que vêem á fonte com suas cantaras esbouçadas, chegam a riem de mim, e ficam prá li a dizer: - não tarde já lá vem, já lá vem... Eu olho e rio, elas riem e olham. Sabem e eu sei, que é a ti que eu espero. Meus finais de tarde são inteiros para te ver e me encantar com teus olhos.
Lembro de ti, no adro da Igreja. Ao lado das crianças organizavas as filas da cruzada para a primeira comunhão. Teu sorriso meigo teu olhar desafiador ficam parados no meu. Desvia o olhar depois, para disfarçar o vermelho do teu rosto e o desconforto por me encarar. Fico sem fôlego e revejo esta imagem vezes sem parar, nos meus momentos em que não te tenho perto. Teus cabelos da cor dos trigais balançavam soltos ao vento e brincavam de esconder e revelar teus olhos. Sabes que eu te olho e ficas com o olhar fixo em lugar nenhum com uma expressão feliz de ternura e felicidade, no rosto.
Lembro do dia de vindima especado sem e saber o que fazer, desde aquele momento te amei com todo a minha alma. Daquele dia em diante tudo mudou. Os dias á tua procura pelas ruas da aldeia. Apaixonei-me por um sorriso que nunca vira antes. Conheço-te desde menina, puxei teus cabelos milhares de vezes no recreio da escola. Cansaste de correr atrás de mim para me pegar e retribuir o puxão. Mas aquele momento, naquele instante, teu olhar foi arrebatador. Descoberta de que o mundo é diferente, meus dias mudaram completamente. "
O amor dos dois nasceu assim, e como um vinho novo, foi fermentando, ao longo do inverno, nas missas de domingo, depurando à volta da fogueira do galo, até amadurecer finalmente, no dia primeiro do ano, quando saíram para cantar as janeiras.
As Janeiras.
Era primeiro de janeiro.
No meio da tarde formaram-se dois grupos para cantar as janeiras, de porta em porta, um só dos rapazes e outro com as raparigas. Só lá andavam os solteiros.
Começaram separados, cada grupo seguiu por um lado do povo, mas lá pelas tantas, por artes aqui não descritas e por estratégias estudadas friamente para não deixar os pais em alvoroço, os dois grupos encontraram-se na praça e, a partir dali, por todo o povo, seguiram em um grupo só.
De casa em casa paravam a todas as portas e cantavam as quadras:
Ainda agora aqui cheguei
Já pus o pé nesta escada
Logo o meu coração disse
Que aqui mora gente honrada
Senhora que está lá dentro,
Sentada no seu banquinho,
Venha nos dar as janeiras,
Em louvor do Deus Menino.
Os olhos dos dois não paravam de se procurar, sempre que os olhares se cruzavam, tentavam esconder o amor que crescia às escondidas, desde a vindima. Durante a cantoria, enquanto andavam de porta em porta, ou a subir as escadas das casas, buscavam ficar juntos o quanto podiam.
O coração batia forte, a voz saía muda, a letra das quadras faltava. Apesar do frio da noite de inverno que já começava a se fazer sentir, o rosto dos dois estava vermelho quase ao rubro tão brilhante como o aço das relhas deixado na forja.
Ao entrar em uma casa com escadas sem luz, ficaram para trás e deixaram que todos subissem. As mãos entrelaçaram-se e os dedos encontraram-se pela primeira vez. Desajeitados pela pressa prenderam as mãos um do outro. Ficaram assustados com medo que alguém os tivesse visto.
O grupo subiu e continuava a cantar.
A mesa estava posta com rabanadas, castanhas, figos, amêndoas, umas chouriças cortadas em rodelas, uma malga de azeitonas curtidas, pão, alguns copos e um garrafão de vinho tinto, “do nacional”.
Os visitantes aquecidos pelo fogo da lareira, o tilintar dos brindes, e a cantoria sempre a crescer em tom e altura, faziam daquele momento das janeiras um acontecimento muito especial. Cantavam cada vez mais animados. O vinho a encher os copos na mesa combinava acordes com o refrão das músicas.
O riso na voz dos donos da casa demonstrava a satisfação da visita e a alegria que lhes traziam. Serviram a primeira rodada de vinho e sentaram-se junto da lareira, rodeados pelos filhos pequenos. Os pirralhos olhavam os visitantes e riam de boca cheia. Na cara os olhos esbugalhados mostravam que acordaram às pressas com o barulho e algazarra e vieram a correr para a cozinha, para participarem da novidade e não perderem nada.
Os cachorros debaixo da mesa rosnaram para os cantores sem jeito de entenderem que ali não havia lobos, mas tinham lá suas razões, afinal alguns dos rapazes, eram mais ladinos que as raposas.
- Boa pinga ó ti Alberto, o vinho deste ano está melhor que o do ano passado.
- Boa cor ele tem, sim senhor! - respondeu o ti Alberto. E ficou-se a rir do abuso dos rapazes.
- Viva lá o Deus menino!
-De hoje em um ano! E que corra pelo mesmo cano! - Falaram as vozes em desatino.
Voltaram a cantar ...
Boas noites meus senhores,
Boas noites vimos dar,
Vimos pedir as janeiras,
Se no-las quiserem dar.
Como é lei de cada ano
Se no-las houverdes de dar
Somos romeiros de longe
Não podemos cá voltar
Viva lá, senhor Alberto
Na folhinha do loureiro,
Viva lá o senhor da casa
Que é um grande cavalheiro.
Fizeram uma pausa...
As raparigas aproveitaram a parada e começaram a pedir à tia Josefa, por uma jerupiga, que vinho elas não tomavam, era coisa de rapazes. Ela riu e lembrou dos tempos de moça, sabia bem destas desculpas das raparigas, a jerupiga sempre era mais docinha.
Foi ao armário e tirou de lá uma bandeja de vidro, com uma garrafa trabalhada, rodeada por uns copitos com os mesmos detalhes. Ao verem a garrafa as moças gritaram de alegria. Correram para ela e encheram-na de beijos. Ela pôs-se a reclamar, enquanto ria toda contente e dava de beber da jerupiga às moças.
Elas em sinal de agradecimento desataram a cantar com mais vontade...
Senhora que está lá dentro
Assentada na cortiça,
Venha-nos abrir a porta
Ou dê-nos uma lingüiça.
Levante-se de lá, senhora,
Do seu banquinho de prata,
Venha dar-nos as janeiras
Que está um frio que mata.
A tia Josefa foi ao fumeiro, cortou uma lingüiça e duas alheiras. Depois encheu um saco de figos e castanhas. Abraçou uma das moças dizendo que tinham que cantar mais uma moda antes de saírem
E o grupo entoou...
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras
Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais à dentro vamos
Às raparigas solteiras
Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas, pão e vinho novo
Matavam a fome à pobreza
Os dois ficaram parados na penumbra, ao fundo do vão das escadas. Ouviam o canto e algazarra dos outros que vinha lá do alto da cozinha. Estavam ofegantes como ficaram da primeira vez em que se olharam na vinha. A pouca luz que descia da porta entreaberta no cimo das escadas, iluminava os rostos com tons dourados, cintilantes.
Os olhos brilhavam extasiados de alegria e de paixão. Sem dizer palavras, puxou-a suavemente para si e ela rodeou-lhe o pescoço com os braços. Os dois corpos ofegantes entregaram-se em um beijo leve, suave, tímido e hesitante. Pela primeira vez, próximos um do outro, estreitaram no olhar e nos lábios a intensidade de tantos momentos em que ficaram a olhar-se ao longe.
O segundo beijo foi diferente, um crescente de emoções tomou os dois. A espera dos longos meses destilou a vontade e o desejo na explosão do beijo. As duas bocas colaram e soltaram-se uma da outra várias vezes e percorriam os rostos cobrindo-se de beijos. Os rostos gelados pelo sereno da noite ferviam ao toque dos lábios ardentes.
Afagou-lhe os cabelos, afastou o rosto e voltou para perto para beijar-lhe os olhos. Dizia o nome dela em sussurros a cada beijo sem parar. Beijou-a na testa, aspirou o ar com toda a força para sentir o perfume do corpo e dos cabelos úmidos.
Foram instantes apenas... Minutos breves, mas tão longos, que pareceram uma eternidade.
O serenar da cantoria fez com que caíssem do céu à terra instantaneamente. Ficaram atordoados... - E se nos viram! Sussurrou ela.
Ele fez que não com a cabeça e disse: - Vamos esperá-los aqui, vou dizer que escorreguei no escuro do curral e que tu me ajudaste a levantar.
O grupo não tardou a descer.
Para surpresa e sossego dos dois a malta desceu alegre e cantando glórias pela farta oferta que ganharam das janeiras. Como se fosse combinado, saíram dizendo como que para tranqüilizá-los. Vocês não sabem do que perderam! Do vinho, da boa jeropiga que a tia Josefa nos deu...Quem de trás anda, diante se queixa... Ainda brincaram.
Já no meio da rua, desataram todos a correr para chegar logo na casa seguinte e recomeçaram a cantar. Os dois correram também de mãos dadas. Estavam nervosos e inseguros. De repente começaram a rir deles mesmos às gargalhadas pela cara que fizeram e pelo medo que passaram agora à pouco. Os outros não entenderam nada.
Até ao fim da noite cantaram as janeiras com o grupo. Mas o cantar das janeiras agora tinha um novo sabor.
Os pensamentos a fizeram voltar para a Igreja.
Os olhos percorriam todos os lugares possíveis.
Ao olhar o andor de São Bernardino viu que ele estava lá.
Tranqüilizou-se... Ele também a viu e fez sinal para ela que estava tudo bem e que ficasse calma, já estava com o lugar marcado no andor.
27/02/2015
O Ti Pauzinho.
Ti Pauzinho.
O homem tem a medida do seu sonho.
O sonho de um homem
Até hoje quero crer
Mas, não, não se assustem,
De qualquer modo,
Nas fragas ainda se podem ver
Por mais que a vida
Mas entendam porque lhes digo isso...
22/02/2015
A retorta
No São Bernardino,
o verão começa a aparecer junto com as cerejas. Quando pintam é o sinal de que a primavera está para sair é o verão a dar sinais. Os trigais ficam pálidos e o verde vivo, vai dando lugar ao dourado, nos tons das espigas a amadurecer e da erva a secar nos montes. Os campos enchem-se, com os sons das cotovias, e dos “chincha-la-raiz” enamorados, ocupados em se acasalar, ou em fazer os ninho. O cuco chegou cheio de vontade, este ano, e anda pelos ares, atendo á vida alheia, para ver se arruma casa e lugar para por os ovos e deixar os filhos para criar com as mães enganadas.
Por todo o lado,
uma sinfonia de sons e de aromas , cigarras, cucos, gaios, rolas, melros, pardais, bandos de pintassilgos. Voam e cantam felizes por cima de quem passa e deixam os campos repletos de uma trilha sonora encantadora e perfeita: uma "sinfonia de pássaros". As perdizes e os perdigotos espalham-se pelos caminhos, e confundem quem passa como se fossem pedras a correr em fila.
As aulas na escola,
depois da festa, começam a ficar pesadas e as horas intermináveis. Mas apesar disso e para compensar, os dias já são mais longos, e sobra mais tempo para os jogos na praça. Ao fim do dia ouve-se os gritos dos rapazes a correr á volta das casas a brincar ao tiro-liro ou a voltar de jogar á bola nos lameiros do chafariz, ou das eiras.
Naquela época
eu guardava vacas. Sim vacas. Eram três, a Mimosa, a Castanheira e a Picolina. Outro dia falo da origem dos nomes, isto porque é muito interessante saber desta origem, tem seus motivos, e podem crer vale bem a pena escrever uma crónica para lhes contar.
O ferrador
Ti Zé ferrador era um homem de hábitos certos e seguros. A cada domingo depois da lua nova chegava na aldeia cedo, antes de aurora, a cavalo em um macho amarelo, tão velho e desbotado pelo sol, que seu aspecto descolorido e pálido contrastava com os arreios, a albarda e as alforjas vistosas, sempre limpos e impecáveis como o dono que vestia uma jaqueta riscada e camisa branca. Uma figura de respeito este Ti Zé.
13/02/2015
Jarra de vinho
Não tenho a medida certa nem o valor da sede. Com quantas jarras se seca o pipo…
Era noite de entrudo, e os cepos ao lume a apagar na cinza, encostados ao murilho de cantaria, com remelas das brasas cansadas, reluziam sem força, amedrontados por estarem a chegar ao fim.
Na tremula e pálida luz da candeia, o Alcides, arregalava os olhos na escuridão, como que para ver melhor os pensamentos.
De tempos em tempos, em cadencia incerta, levava na boca o caneco de barro, e engolia em seco o vinho com apressada sofreguidão a tentar afogar as magoas.
Casaram a Maria, com o Joaquim da fonte! Arre conho…
12/02/2015
Vila Velha
Ha muito tempo por ordem Del Rei, Dom Dinis, três frades da ordem Beneditina, chegaram a estes lados para pastorear o rebanho, das almas dos cristãos, que ocupavam as terras reconquistada dos sarracenos.
31/12/2014
E viva o novo!
Já pra lá vão alguns anos que por aqui não venho...
Andei ocupado e com afazeres que me tomavam o tempo que tinha disponível. Nasceu minha piquena e foi necessário olhar pra cá em vez de lá. Senti que também era hora, de parar um pouco, para descansar e, repensar o propósito deste blog.
Volto com a convicção de que esta lavoura é singular e pessoal. Por estas linhas farei meus sulcos na terra das minhas lembranças para avivar meu respeito e saudases por minha terra e suas gentes.
Forte abraço.
Feliz 2015!
01/12/2014
Dia de fazer o folar
01/11/2014
Luz do dia
Luz do dia a nascer. A geada ainda branca nas cortinhas, brilha com os raios de sol ralampejando no ar fagulhas de aurora.
Perfume de insenso no ar das giestas acesas no lume das lareiras .
Nasce o dia..
Ditados antigos mas sempre atuais.
Participação especial: Ricardo Pereira
'Quando a besta é reles quem lhe vale são os arreios`
'Raposa vestida de chita raposa é, raposa fica´
DITADOS SOBRE VINHO E VINHA:
'À mulher e à vinha o homem dá alegria.'
'Antes de casar, arranja casa para mo¬rar, terras para lavrar e vinhas para podar.'
'Ao pé da silveira padece a videira.'
'A quem tem mulher formosa, castelo na fronteira e vinha na carreira, nunca lhe fal¬ta canseira.'
'A seu tempo vêm as uvas e as maçãs maduras.'
'Com o tempo maduram as uvas.'
'De boa cepa a vinha e de boa mãe a fïlha.'
'Muita parra, pouca uva.'
'Mais guarda a vinha o medo que o vinhateiro.'
'Dia de S. Tiago [25 de Julho] vai à vinha e acharás bago.'
'Em Fevereiro chuva, em Agosto uva.'
'Em dia de S. Lourenço [10 de Agosto] vai à vinha e enche o lenço.'
'Nem mulher casada, nem vinha vindimada.'
'Uvas, pão e queijo sabem a beijo!'
'Quando a raposa se zanga com a vinha, muitas uvas se poupam.'
'Poda tardio, semeia temporão, terás vinho e pão.'
'Podar em Março, é ser madraço! '
'Oliveira do meu avô, figueira a de meu pai, vinha a que eu puser.'
'No S. Tiago [25 de Julho] pinta o bago.'
'No S. Mateus [21 de Setembro] vindimam os sisudos e semeiam os sandeus.'
'Nem por casa nem por vinha cases com mulher mesquinha (parida)'
'Com pão e vinho anda-se caminho.'
'Agosto madura, Setembro vindima.'
'Ainda que entres na vinha e voltes o gibão, se não trabalhares, não te darão pão.'
'Chuva no S. João talha o vinho e não dá pão.'
'Chuva de S. João tira o vinho e o azeite e não dá pão.'
'Carne que baste, vinho que farte e pão que sobre.'
'Cada cuba cheira ao vinho que tem.'
'Bom vinho, má cabeça!'
'Bebe vinho, mas não bebas o siso!'
'Azeite, vinho e amigo, o mais antigo.'
'Ao que vai à adega, por vez se lhe conta, beba ou não beba!'
'Ao menino e ao borracho, põe-lhes Deus a mão por baixo!'
'Ao bom comer ou ao mau comer, três ve¬zes beber!'
'Amor de rameira e vinho de frasco, pela manhã é bom, e à noite gasto.'
'A mulher, o estudo, a experiência e o vinho mudam a natureza do homem.'
'A mulher e o vinho tiram o homem de seu juízo!'
'Afoga-se mais gente em vinho do que em água.'
'Mais vale pão e água com amor que vi¬nho bom e galinha com dor.'
'Maio frio, Junho quente, bom pão, vinho valente.'
'Homem atrevido, odre de bom vinho e vaso de vidro duram pouco.'
'Em Agosto sardinha e mosto.'
'Foge [livra-te] do mau vizinho e do excesso de vinho.'
'Do vinho e da mulher, livre-se o homem se puder.'
'Conselho de vinho é falso caminho.'
'De bom vinho bom vinagre.'
'Dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho.'
'Pão que veja, vinho que salte, queijo que chore.'
'Pão, carne e vinho andam caminho que não moço garrido.'
'Ovo de uma hora, pão de um dia, vinho de um ano, mulher de vinte, amigo de trinta e deitarás boa conta.'
'O tonel nunca perde o cheiro a vinho. Ouro velho, vinho velho, amigo velho; casa nova, navio novo, vestido novo.'
'O pródigo e o bebedor de vinho nunca têm casa nem moinho.'
'Mel novo, vinho velho.'
'O tonel não pode dar senão do vinho que tem.'
'0 pão pela cor, o vinho pelo sabor.'
'Onde todos pagam não é o vinho caro.'
'Onde entre o beber sai o saber.'
'Neste mundo mesquinho quando há para pão não há para vinho.'
'No dia de S. Martinho mata o porco e prova o teu vinho.'
'No S. Martinho fura o teu pipinho.'
'Pão com olhos, queijo sem olhos e vinho que salte aos olhos.'
'Ninguém se embebeda com o vinho da sua adega.'
'Numa porta se põe o ramo e noutra se vende o vinho.'
'Nada escapa aos homens senão o vinho que as mulheres bebem.'
'Por cima de pêras vinho bebas e tanto que nadem as pêras.'
'Valentes e vinho bom duram pouco.'
' Vinho de Março nem vai ao cabaço.'
'Sobre figos água; sobre pêras vinho.'
'Se queres o velho menino, em cima de doce dá-lhe vinho.'
'Se queres ser bem disposto, bebe vinho, nanja mosto.'
'Se bêbado te vires sentir, foge à companhia e vai dormir.'
'Sábados a chover e bêbados a beber, nunca ninguém os pode vencer.'
'Quem vive na taberna, morre no hospital.'
'Quem tem bom vinho tem bom amigo.'
'Quem se lava com vinho torna-se menino.'
'Porco fresco e vinho novo, cristão morto.'
'Quem compra pão na praça e vinho na taberna, filhos alheios governa.'
'Quando o vinho desce, as palavras sobem.'
'Por S. Simão e S. Judas [28 de Outubro] colhidas são as uvas.'
'Por S. Lucas [12 de Outubro] mata teus porcos e tapa tuas cubas.'
'Por cima de melão, vinho de tostão.'
'Por S. Lucas sabem as uvas.'
'Vinho do meio, mel do fundo, azeite de riba.'
'Vinho turvo, madeira verde e pão quente são três inimigos da gente.'
'Vinho sobre melancia faz pneumonia. '
'Vinho que nasce em Maio é para o Gaio; o que nasce em Abril vai ao funil; o que nasce em Março fica no regaço.'
'Vinho, mulheres e tabaco põem o homem fraco.'
'Vinho e medo descobrem segredo. '
09/07/2014
26/05/2014
FARRAPOS DE MEMÓRIA: O solar com 365 portas e janelas,por Tiago Patríci...
27/10/2013
25/10/2013
Lavrar a alma.
Vi um lavrador lavrar a alma com palavras fortes como o aço, lamentando a vida, as estações, a sorte. Vi que lhe rompiam o peito e rasgavam as fibras do coração, as ideias de vencer a sina de quebrar o fado, a realidade de comer o pão com o suor do rosto e a gana de matar a fome que lhe toma os dias.
Pensamentos que iam e voltavam como sulcos de uma lavra continua do chão do ser onde teimava em semear os sonhos de dias melhores de terras férteis fartura e prosperidade.
Ao rasgar a terra, rasgava a alma, virava a vida, eterna lavoura.
17/10/2013
Perguntas…
Ao fundo a capela da Vila Velha, na frente os choupos e freixos da ribeira, no meio os pensamentos e as visões de outros tempos doutras emoções. E o outono a moldar os sentimentos desta paisagem, tão querida tão distante.
Melancolia de tantas saudades de tantos rostos, momentos vividos, pessoas.
Tudo neste contexto, é vida. A minha a de meus pais, irmãos e de todos que ali nascemos, que neste cenário tomou forma e dele partiu para o mundo e para outras dimensões.
Quem vem a vila velha leva no peito a presença de tudo isto.
E por isso é bela. Por isto é impar e sem igual. Como a padroeira, que a todos recheia a vida com a fé. A intimidade deste lugar exige os olhos abertos para o divino, para o não material.
Sempre me questionei porque a capela fica de costas para o caminho que sai da aldeia e termina nela? Para onde aponta a porta? Que sentido tem esta escolha da orientação oposta ao caminho?
16/10/2013
Perguntas…
Ao fundo a capela da Vila Velha, na frente os choupos e freixos da ribeira, no meio os pensamentos e as visões de outros tempos doutras emoções. E o outono a moldar os sentimentos desta paisagem, tão querida tão distante.
Melancolia de tantas saudades de tantos rostos, momentos vividos, pessoas.
Tudo neste contexto, é vida. A minha a de meus pais, irmãos e de todos que ali nascemos, que neste cenário tomou forma e dele partiu para o mundo e para outras dimensões.
Quem vem a vila velha leva no peito a presença de tudo isto.
E por isso é bela. Por isto é impar e sem igual. Como a padroeira, que a todos recheia a vida com a fé. A intimidade deste lugar exige os olhos abertos para o divino, para o não material.
Sempre me questionei porque a capela fica de costas para o caminho que sai da aldeia e termina nela? Para onde aponta a porta? Que sentido tem esta escolha da orientação oposta ao caminho? Há sentido nesta posição?
26/09/2013
Lavrador de versos
Vivo como um lavrador de versos,
A arar, o papel, com mil palavras.
A cada dia vinco mais dispersos,
Sulcos, das minhas idéias e lavras.
Soltam-se da minha folha mensagens,
Sonhos longos, eternos, profundos
Palavras novas, vontades, miragens,
Rodas vivas, visões de novos mundos.
Com a profundidade de estar perdido
Entre a vontade de conhecer saborear,
Tudo o que tiver maior valor sentido
O amor, viver, ou um simples pensar.
Procuro, o renascer, o constante chegar
Nesta lavoura, da vida, eterno advir.
Busco uma forma de sempre germinar
E com novo jeito ser, viver e sentir.
Albano Solheira
25/09/2013
Minha aldeia
Tudo é tão lindo visto daqui
As ruas, casas, telhados, muros
Homens, mulheres, animais.
Aquarela viva, cenário, presépio.
Tudo tem seu lugar e proposito
E parece tão certo, eterno e presente.
Só os que sabem disso,
Tem nos olhos o encanto de ver, que
A vista mais bela é a da minha aldeia,
Pois o mundo não é tão grande Nem maior que a minha aldeia,
Porque não cabe dentro nem passa por ela.
O Mundo tem grandes cidades
E se revive, existe, nelas somente.
Como tantos que buscam em tudo o que lá não está,
Pois que a memória das gentes é vaga.
Minha aldeia esta ali, onde sempre esteve,
Poucos sabem disso,
E sequer me importo com isso.
O mundo ficou pequeno
Toda a gente sabe.
Mas poucos reconhecem onde estão
Vão e de onde veem
E por isso ele pertence a tanta gente…
É mais livre e maior o povo da minha aldeia. Chegar na minha aldeia é sair do mundo,
Para entrar em outro mundo.
Para além do qual há outros lugares.
Ninguém nunca pensou no que lá há antes.
E depois que importância isso tem?
Minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está nela, está apenas nela.
No mundo ninguém sabe nunca onde esta.
E vive com pressa de ir, de chegar, de partir.
Aqui vive-se um dia depois do outro.
E viver e estar são a mesma coisa.
No fim ou no começo,
Tudo é, e isso basta.
24/09/2013
Purgatório
Quando criança acreditava que o purgatório ficava atrás do altar da igreja e que por lá estavam todas as almas que tinham que pagar os pecados antes de seguirem para o céu. Confesso que fiquei muitas missas a olhar para o altar e a imaginar como por lá estariam e que tormentas teriam que purgar para passar para a etapa seguinte.
Intrigado como podiam caber tantas almas em um lugar tão apertado. Uma matemática e geometria muito intrigante para quem tinha quatro para cinco anos. Metafisica prática e simples. Tudo tinha lugar e motivo, mesmo não entendendo ao certo o que seriam, o céu e o inferno, criava o cenário para os poder entender.
Mas os anos passam e as coisas mudam de lugar.
21/09/2013
Santa Barbara
Acordei com o estrondo dos trovões. A virada do tempo, começou dias atrás e foi anunciada pela meteorologia, mas somente hoje ela chegou com força total.
Os clarões anunciavam desde o inicio da noite a tempestade que chegou de madrugada com chuva, trovões fortes e clarões que iluminam o céu continuamente. A energia elétrica falhou. A cortina do quarto estava aberta e deixava entrar pela janela relâmpagos que iluminavam sem parar as paredes, o chão e o teto, projetando a sombra dos armários para todas as direções.
Levantei para fechar as cortinas. A Julia acordou assustada e a Karina levantou para acalma-lá, graças a Deus voltou a dormir.
Meus dois cachorros estavam desesperados e apavorados gemendo e arranhando a porta do banheiro onde onde estavam recolhidos. Consegui acalma-los com ração e umas velas acesas.
Perdi o sono. Felizmente o ipad esta com bateria cheia mas sem internet faltou o que fazer para esperar o sono.
O som das sirenes dos alarmes das casas de temporada, completa a sonoplastia e preenche o silencio e a escuridão da madrugada. Aos poucos a tempestade começa a acalmar e os relâmpagos ficam mais dispersos.
Esta época é sempre de apreensão em Santa Catarina. As chuvas e as enxurradas deixaram os meses de setembro e outubro marcados pelas tragédias. Foram muitas as perdas ao longo dos anos. Vidas e bens, projetos e sonhos, varridos pelas calamidades que inundaram cidades.
Ainda sem sono comecei a lembrar do medo que tinha quando criança dos trovões. E as memórias foram surgindo, como relâmpagos de outros tempos inundando minha mente de imagens e sensações distantes e para minha surpresa ainda muito fortes.
Voltei no tempo...
A Capela de Sto. Antonio fica perto da minha casa. Uma capela bonita, pequena e aconchegante, com um altar central onde o Santo Lisboeta e casamenteiro, tem seu altar em destaque rodeado de outras imagens de santos e sanas. Normalmente a capela ficava fechada. Naquele dia porem, foi aberta, pelas mulheres que ali acorreram para invocar Sta. Barbara e pedir proteção preocupadas com a forte trovoada que estava a chegar. O dia escureceu e apesar de serem umas duas da tarde, e estarmos o inicio do mês de junho parecia ser o anoitecer.
A maioria das searas ainda estavam nos campos a espera de serem segadas. As famílias trabalhavam de sol para colher o pão. A ameaça de temporal punha em risco as vidas e os trabalhos de muitos dias, canseiras, e esperanças.
Nesta escuridão os relâmpagos faiscavam e riscavam o céu rompendo as nuvens. O vento soprava forte e passeava feroz pelas ruas montado em redemoinhos de poeira. Era o fim do mundo, ou parecia ser pelo menos.
As mulheres tiravam os brincos das orelhas e cobriam as cabeças com os lenços. ficavam a ajeitar os cabelos continuamente para acalmar.
- Ave Maria, Santa Maria...
- Ai meu Deus, gritavam
- Oh valha-nos Santa Barba, São Bernardino...
Esconjuravam a trovoada...
- Vai pra serra do marão onde não ha vinha nem pão.
A imagem da Santa foi colocada na porta da capela em um altar improvisado, virada para a rua.
E começaram o responso da Santa.
Santa barbara,
que sois mais forte que as torres das fortalezas
e a violência dos trovões,
Fazei que os raios
Não nos atinjam...
Os trovões não nos assustem
Nem abalem a coragem e a bravura.
Ficai sempre ao nosso lado,
Para enfrentarmos de fronte erguida
E rosto sereno todas as tempestades
E batalhas da nossa vida...
As nuvens baixas em cima da aldeia, relâmpagos e trovões ecoavam pelo céu e dentro da capela cheia de mulheres e crianças. As orações estremeciam com a violência da tempestade e as vozes vacilavam temerosas da falta de fé. Mas pelo menos daquela vez a tempestade passou e foi para a serra do Marão.















