20/12/2015

FELIZ NATAL

Revisitando o Natal


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Para matar as saudades

Autor: Isabel Cristina Pardal

Em meio ao inverno de 2010 com frio inimaginável, ações e pensamentos troteiam por imagens que conectam Albicastrenses próximos ou distantes de sua terra natal. Espero que gostem.

Isabel Cristina Pardal

13/04/2015

Nem só do pão, mas dos fornos…

Autor: Arlindo Parreira
MAIS UMA CRÓNICA DO ULTIMO REGEDOR DE CASTELO BRANCO
carta do regedor
Vamos voltar no tempo para Castelo Branco dos anos 60, hoje que quero lhes falar dos fornos de nossa aldeia. Isto para complementar o que o Luis Pardal falava dos moinhos. Nestes tempos havia em Castelo Branco mais ou menos uns 20 fornos de cozer o pão e umas 50 padeiras. Quase todas as famílias coziam o seu, e visto que as famílias eram numerosas, em média de 5 a 7, filhos imaginem a quantidade necessária para alimentar tanta gente.
Chegou um tempo, em que a lenha era um produto raro e difícil de se encontrar, as terras estavam todas cultivadas, e a lenha que se arranjava da limpa das oliveiras, poda das vinhas, etc; não era suficiente para tantas fornadas de pão. As giestas e estevas sempre foram uma alternativa, boa, barata e eficiente para esquentar os fornos. Mas, diferente de hoje, que as há por todo lado, quando se precisava delas tinha que se ir para a serra ou em lugares distantes da aldeia.
Os empregos eram na lavoura, trabalho puxado, que exige do corpo esforço constante e força física, e para aguentar só com uma boa alimentação. O pão, para nós albicastrenses, sempre foi a base. Portanto havia que dar de comer a toda a gente e sem pão até o melhor cabrito assado com o melhor vinho fica sem gosto. Somos grandes apreciadores de pão.
A maioria das nossas padeiras, coziam também para fora para abastecer as aldeias vizinhas e a Vila de Mogadouro. O pão de nossa terra sempre foi famoso e a fama de nossas padeiras maior ainda. Mulheres da pá virada, fenomenais no sentido da palavra , tinham a mão certeira e sabiam fazer o pão como ninguém, autentico pão dos céus. Porem era uma vida sacrificada.
Quase todos os fornos eram alugados, e tinham custo para lá fazer o pão. Por exemplo, cada vez que se fazia uma fornada pagava-se um pão pelo uso do forno. No forno do Dr. Virgilio, por exemplo, ele substituiu o pão pelo pagamento em farelos visto que ele os utilizava para alimentar os animais. Mas pagando em farelos ou em pão, sempre se tinha que pagar pelo uso do forno. E era uma boa maquia... Cada fornada dava em média uns vinte grandes pães, sabem bem como são enormes os pães de nossa terra, nunca vi de tamanho igual em outros lugares.
Ainda me lembro muito bem, dos dias de forno e fornadas de pão da minha mãe e de um fato interessantíssimo da solidariedade do povo de nossa aldeia. Ainda a fornada estava quente, a sair do forno, e quase metade dela já estava destinada para devolver os pães que tínhamos pegado emprestado de outras padeiras. Antes mesmos de sair do forno, os pães eram entregues para as vizinhas e padeiras que tinham emprestado pão para nós. Em poucas horas se acabava! Por outro lado quando cozia uma das famílias a quem tínhamos emprestado era nossa vez de ir ao forno buscar o pão que fora emprestado. Todos unidos era mais fácil, e pensando bem, nosso povo é sábio, desta forma, todos tinham pão quentinho e fresco, em casa, toda a semana.
Um outro detalhe muito interessante das tradições mais bonita que já vi de nossa aldeia e das rotinas das lidas do forno das, era de que a padeira que usava o forno sempre deixava, na masseira, uma medida de massa com fermento para a padeira que vinha a seguir. Isso é que era pensar nos outros, um ciclo virtuoso de boas ações que a todas beneficiava.
Quem tinha filhos pequenos fazia uma bola para os mais novos. Era um presente esperado com muita alegria e entusiasmo. Eram tempos difíceis e muitas vezes não se tinha outra coisa para dar além de uma boa de pão. Mas, como eram maravilhosas as bolas de nossas padeiras. Meu filho Domingos, por exemplo, sempre ganhava a bola da tia Marquinhas, mulher do Sr. Nascimento, um grande alfaiate de nossa terra. Até hoje ele fala disso com muita saudade e consideração.
Do que não sabiam ainda a respeito das andanças do Regedor é antes da carreira de homem público e representante do poder, ele foi um grande e experiente vendedor de pão. Sim, podem crer, e também lhes vou contar como era o oficio e os truques para se vender muito pão.
Eu e a minha irmã íamos a vender pão, a Vale Verde, quase sempre aos Domingos. Era uma aldeia grande, onde não se tinha boa água para fazer o pão e, como tínhamos lá bastante família isso nos ajudava a firmar a clientela.
Como sabem, nos negócios a aparência conta muito. Tínhamos que preparar tudo nos “trinques”. Assim os nossos machos eram escovados e as albardas enfeitadas com tapetes feitos no tear. Mais tarde ainda lhes falo dos teares ou se alguém quiser adiantar o assunto, pode começar já, também é bom ouvir as histórias dos outros, não vá eu a ficar aqui a falar sozinho.
Machos arrumados e albardados a caracter, era hora de nós nos vestirmos também com a melhor roupa. Parecia que íamos para uma feste de tão pimpões que ficávamos. E os preparativos para agradar a clientela não paravam por aí, como lhes falei eu tinha meus segredos de venda. O pão era transportado dentro de uns sacos de linho branco, alvejados e corados nas lameiras da ribeira, relampejavam ao sol de tão alvos. Por sua vez os sacos iam dentro de alforjes muito bonitas, bordadas e com umas franjas. Era tudo muito limpinho para deixar as clientes felizes e garanto que elas adoravam pois sempre nos davam uma merenda. Vender pão era um divertimento, mas a atividade servia para levar noticias e manter as as pessoas informadas sobre as novidades de cada uma das aldeias. A cada casa que íamos vender lá perguntavam por todos: - olha a meu primo já voltou da tropa? E a vaca da minha sogra ainda está com o leite empedrado? Assim de porta em porta repetíamos os assuntos vezes sem fim. - Leva lá um recado prá minha prima: Ve se não esqueces de mandar os cem mil reis que te emprestei nos gorazes. E outra ficava perguntando: Olha, a minha irmã já teve a criança? Como podem ver ser padeiro era uma atividade jornalística e de caracter social.
Na hora de cobrar, era um novo trabalho, porque como sabem não é só vender, tem que se saber cobrar para o negócio dar certo. Mas nessas horas, confesso que não era tão bom cobrador como vendedor. Sim é verdade, e minha mãe que o dizia, nessas horas era sempre o coração que falava e, o coração nem sempre é o melhor negociador. Sinceramente, tempos melhores de se viver, e o que não se ganhava em dinheiro voltava em dobro em amizade e simpatia. E assim uns pagavam em dinheiro outros com cereal e outros com o que podiam, e se calhar nem pagavam nunca. Pronto ficava fiado, e daí?
Assim como minha família outras também fizeram da atividade de padeiro o sustento e iam a vender pão para outras aldeias, quem souber que fale.
Via de regra quase sempre o pão era transportado no lombo dos animais de carga, machos, mulas, e burros. Os burros eram rápidos e seguros, além de que naquele tempo havia por lá muitos.
Falavam no nosso povo que uma padeira que ia para Meirinhos, foi assaltada perto da Corte Grande por dois fugitivos da justiça. Ao verem que ela passava fizeram-na parar e pediram dois pães para matar a fome, mas que iriam pagar. Não lhe fizeram mal só lhe recomendaram e pediram para não dizer nada a ninguém.
Os fornos também eram e ainda servem para os famosos folares, ou para assar uns cabritos.
Neste meu relato faltou dizer que o trabalho das padeiras no forno era quase sempre feito de noite porque de dia tinham que trabalhar no campo. Ou seja as mulheres de nossa terra, faziam na maioria das vezes uma jornada dupla ou tripla de trabalhos se acrescentarmos a isto a lida com os filhos e maridos. Jornada esta que poucas vezes foi reconhecida e valorizada.
Mas sabemos do valor de nossas mulheres albicastrenses. Assim e deste modo, quero deixar um louvor muito especial para todas elas que sem dúvida são: as MULHERES mais especiais do mundo inteiro.
Tantas coisas para contar, e falta tempo, juntem a estas lembranças as vossas. Vamos dizer aos mais novos o que era a vida da nossa aldeia anos atrás e sobretudo mostrar para eles o berço de onde herdaram o que são hoje.
Um forte abraço do Regedor, até breve.

23/03/2015

A burra russa

Autor: Albano Solheira

Uma engrideira a pender da albarda, servia de estribo para montar. Era uma figura essa burra... Daquelas com o pelo cheio e espesso que precisava de tosquia como as ovelhas todo o ano no mês de março.

Montaria inseparável, onde o dono ia lá estava ela, companheira certa pra todas as horas. Um animal dócil de olhos meigos, porem teimosa como uma porta. Casmurra fazia o coitado do dono de gato e sapato.

Nos dias em que lhe apetecia, resolvia não trabalhar e não havia quem a fizesse sair do lugar. Nesses dias para a tirar do palheiro era preciso empurrá-la para a rua para a albardar.

Foi comprada dos ciganos na feira de mogadouro quando ainda era nova. Chegou para alegria do dono e auxilio na lida das terras. Espetacular, dava gosto ver como trabalhava pelos caminhos da aldeia, nas hortas a lavrar as batatas com o arado, escondida debaixo dos feixes carregada de ferranha só com a cabeça de fora a abocanhar as espigas, ou então com 5 sacas de trigo ao lombo a caminho da moagem. Não havia par pra ela!

Mas de burra não tinha nada, era sim, um animal muito esperto, que com o tempo começou a decorar os quatro pontos cardeais da aldeia. Anos de trabalho e de canseiras, foram-na fazendo ficar arisca e desconfiada e aos poucos começou a tomar atitudes no mínimo curiosas para um animal. Consoante a época do ano e a direção do caminho que o dono tomava ela saia apressada e prezepeira, ou empacava presa ao chão como se fosse uma estatua.

Por exemplo, quando ia pra devesa sabia que por ali os trabalhos eram poucos, pois só lá ia pra regar a horta, ou então quando subia o caminho da solheira para a ribeira de cavalos sabia que o que lhe tocava era guardar as vacas, ou a cortar o feno, assim toda satisfeita ia sem precisar picá-la, por ali ficava o dia inteiro, no pasto, tranqüila, sem nada para fazer. Mas por outro lado quando virava para vale de cabreiro, indo pelas figueirinhas, a história era outra... Logo ao chegar na praça, ali perto do tanque, ela empacava, bebia sossegada como que para enganar o dono e fazê-lo acreditar em milagres, como se tudo fosse correr bem. Mas logo em seguida, antes mesmo de terminarem os paralelos de cantaria da praça, a esperta empacava e não havia quem a fizesse andar... Fincava as quatro patas e parava. Podiam trazer uma junta de bois valentes para a carregarem que nada a tirava dali. Mas pudera, sabia bem o que a esperava para aqueles lados, era trabalho duro que não acabava mais, puxar a charrua o dia inteiro, lavrar as vinhas...

Mas isto também era só em certas estações, a burra contava o tempo, era só passar a época da lavra e das hortas que a danada levantava o rabo, sacudia as moscas e saia pra onde a quisessem levar.

Na segada gostava de ficar a sombra debaixo dos sobreiros ou carrascos, serena a olhar os donos a trabalhar. Vida boa esta do começo do verão. Trabalho leve. No palheiro pela manhã esperava até a hora perto do almoço, para começar a rotina. Vinham albardá-la para levar a merenda aos segadores. Dois alforges um em cada lado e a filha piquena do dono, montada no meio. A dona ia à frente e guiava a rédea para não correr o risco de derramarem as sopas e deixarem a todos com fome.

Tarefa comprida, ficava presa por uma engrideira amarrada nas arreçanhas perto do restolho, porem longe o suficiente para não chegar perto do molhos de trigo. Por pouco tempo, de tanto forçar as arreçanhas ela dava um jeito de se soltar e á menor distração lá estava ela de boca cheia a comer as espigas gradas dos molhos, um banquete delicioso e farto.

Adorava a época da segada. Mas, à medida que via o trigal sumir diante do restolho e os rilheiros cada vez em maior numero e mais altos, ficava de novo a mesma burra de sempre, arisca e teimosa e antes que desse o tempo da acarreja, a esperta parava de obedecer.

Passaram-se anos e o dono cansou de tanta teimosia. Desistiu comprou uma mais nova para ajudar na lida. Demorou a tomar a decisão, tinhas seus amores pela velha, e no fundo até admirava o caracter do animal, mas teve que aprender um dia de cada vez e com uma novidade depois da outra, que era tarefa perdida. Precisava de substituta para os trabalhos.

Ela por seu lado, enfim descansada,  viveu por muitos anos a pastar pelos lameiros e restolhos do chafariz.

21/03/2015

Um lugar no paraiso

Tive que partilhar esta descoberta de hoje, a caminho de uma reunião de trabalho,
no Município de Rodeio, Sc. São quase 11 km de estrada de macadame para chegar na Tirolesa onde seria minha reunião. Um belíssimo passeio que recomendo fazer em dias de sol e sem chuva. A cada curva da estrada um cartão postal nos surpreende. No meio do trajeto encontrei esta marca construída ao longo de muitos anos por um grande homem. Tive que parar para olhar e fotografar e ficar sem palavras e sem folego diante da paz que se sente como se fosse um objeto ou algo físico.
Ao pesquisar no google descobri que este jardim tem um criador, o Sr. Paulo Notari, um hábil e determinado morador que transformou a estrada em um caminho do jardim do Éden. Ele mesmo diz que “em certo momento de sua vida ao olhar tamanha beleza pensou que ali onde morava era o jardim do paraíso”. E no seu olhar simples de apaixonado viu que faltavam apenas as flores para emoldurar este belo quadro. Lembrei do verso de Fernando pessoa: “ Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” . E se pensou melhor fez, pôs mão na enxada e iniciou voluntariamente a missão de plantar 9 km de hortênsias, de um lado e outro da estrada que passa diante de sua casa.Mas ao ver tudo florido novamente pensou, ainda falta algo, de novo pôs mãos a obra: criou um molde e reproduziu 64 anjos brancos, os primeiros são de mármore, e os demais de concreto, e não podia deixar de ser, todos os anjos seguram em suas mão um buquê de hortênsias azuis. Foram nascendo um a um e ele os dispôs espalhados ao longo da estrada e dos morros. Ainda faltava algo pensou e para finalizar segunda parte de sua obra, criou um ponto de encontro, no centro do caminho, bem ao lado de sua casa, com um Cristo Redentor de braços abertos, que nos surpreende depois de passarmos pelos anjos. Este pedacinho do céu fica no Alto Ipiranga, próximo a Rodeio, na transição entre as partes baixa e alta do Circuito Vale Europeu.Este pedacinho do céu fica no Alto Ipiranga, próximo a Rodeio, na transição entre as partes baixa e alta do Circuito Vale Europeu. Se forem por lá podem dar sorte de encontrar o Sr. Paulo...

Foto de Luis Pardal.

Foto de Luis Pardal.

Foto de Luis Pardal.

Foto de Luis Pardal.

Foto de Luis Pardal.

01/03/2015

A Promessa a São Bernardino.




Um saco de linho branco com um alqueire de trigo posto à          cabeça. Um   lenço enrolado de suporte e base do pesado fardo.
Uma moça da aldeia, bonita, como o são as filhas de Castelo Branco, andando em passos firmes no meio da procissão. Final feliz de uma história de amor celebrado. Uma promessa a São Bernardino pronta para ser paga pela graça alcançada. Uma aldeia em festa, cheia de vida e de luz.
Estava, desde o raiar do dia, com o coração em sobressalto acordada e irrequieta. Nem tinham tocado as trindades e já era longa a espera na cama de olhos bem abertos na luz pálida do romper da aurora. Contava os minutos, apesar de a missa ser às 11:00 horas com medo de se atrasar. Nervosa e distraida com os pensamentos quase morreu de susto com o estouro dos primeiros morteiros que os mordomos soltaram ao chegar a banda, para despertar a aldeia inteira para o dia de festa do padroeiro.
Acordou muito cedo, ansiosa e ao contrário das irmãs, que correram na janela para ver a banda passar na volta ao povo, ela ficou no quarto, às voltas com a roupa, sem jeito de se arrumar.
Vestiu a roupa, penteou os cabelos em um lote só, não conseguia dar jeito. Depois de muito brigar, e de muitas tentativas, enrolou-os em rabicó e firmou o penteado com ganchos e fivela.  Insatisfeita como resultado, tentou se animar, e dizia para ela mesma, querendo se animar se desculpando, que não queria que o cabelo solto atrapalha-se na procissão. Foi até a porta do armário do quarto para se olhar no espelho e ver como estava. Ajeitou detalhes do vestido e saiu para a sala.
A mãe e as irmãs já a esperavam e tinham chamado algumas vezes para apressá-la. Não queriam chegar tarde nem perder o lugar na igreja. Isto porque nos dias de festa  ficava apinhada de tanta gente de fora que vinha para a missa e sempre faltava lugar.
O pai desceu na adega, mediu um alqueire de trigo. Pegou o saco de linho branco tecido em casa, que fora lavado e estava da cor da neve, e derramou o trigo do alqueire lá dentro. Depois subiu com o saco até a porta da rua e ficou lá a esperar a filha. Tambem estava preocupado com  o pagamento da promessa, e  cansaço da filha, receoso de que ela não tivesse as forças necessárias para levear a cabo esta tarefa. Não que ela nao fosse valente, mas era uma menina delicada, que sempre fora poupada das lidas do campo. Afinal dar a volta ao povo com um alqueire de trigo na cabeça não devia ser nada fácil, exige preparo e força fisica. Ficou a pensar no motivo da promessa, tinha acompanhado o o desespero da filha, e de certa forma estava satisfeito por ter dado certo. Promessa para pagar era sinal de que o pedido feito ao santo e que este honrara com a graça alcançada,  agora era hora do fiel pagar o prometido. Um corre corre pela casa e o barulho na escadaria das filhas e mulher descendo apressadas deram fim nos pensamentos. Ficou a olhar o grupo com ar de quem nao entendeu o que está a acontecer.
Ela desceu esbaforida, arreliada com a chamada insistente das irmãs que já a esperavam junto do pai. À porta de casa disse: Vamos! Sozinha e sem querer ajuda de ninguém equilibrou o peso na cabeça, firmou as pernas, balançou o corpo devagar para sentir o equilíbrio e saiu de casa com o alqueire de trigo na cabeça. A mãe e as irmãs saíram ao lado para acompanhar e ajudar nos primeiros passos. Logo chegaram na igreja.

Foi direto à pia de água benta que ficava na parede no lado da porta de entrada da igreja. Enfiou a mão até ao fundo. Sentiu o frio da água, e apertou os dedos como que a querer segurar toda a água da pia, e toda a força que a fé poderia lhe dar. Fechou a mão em punho e pediu: - Meu rico, São Bernardino, dá-me força para levar até ao fim minha promessa, meu rico santinho. Abriu a mão deixou a água escorrer por entre os dedos e tirou-a devagar de dentro da pia. Depois com um gesto firme e decidido fez o sinal da Cruz. Sentiu-se forte!
Os conterrâneos vão chegando aos poucos na Igreja trazendo  os convidados para a festa. Vieram os parentes de longe, amigos, compadres, genros, e noras com os respectivos familiares.  A festa de São Bernardino é um momento de reencontro e de celebração.
Acontece no dia 20 do mês de maio, logo depois do fim do inverno e bem no meio da primavera. É um marco no calendário da aldeia. O começo da época das cerejas. O sinal de que o verão logo, logo vai chegar. Sinais nos campos de fartura deixam nosso povo feliz. Os trigais já vão crescidos e as espigas gradas. As vinhas estão cobertas de folhas e o perfume dos cachos em flor faz previsões de uma boa vindima. As oliveiras floriram e cobriram os galhos de pontos verdes de azeitonas a crescer. Os cerejais com os galhos vergados deixam as bocas cheias d’água a espera das cerejas maduras. As figueiras estão com os galhos cheios de bêberas quase maduras. Enfim são tantos os sinais de fartura e de alegria, que até dá vontade de que seja São Bernardino o ano inteiro.
Depois de se benzer na porta da igreja, foi para o lugar costumeiro. Com a ajuda da mãe baixou o saco de trigo e pousou-o no chão, aos pés, na frente dela. Acenou com o olhar para as amigas e vizinhas que a olhavam na expectativa de ver como ela estava. Fez sinal que sim, está tudo bem.
Abafado pelas grossas paredes da igreja ouve-se ao longe, crescendo aos poucos no ar, o som da banda, o estouro dos foguetes, o barulho dos garotos a correr atrás das canas, o burburinho do povo em algazarra à volta da igreja. latem os caes do gado desesperados com medo dos fogos.
Nisto o sacristão, sai da sacristia e cruza a igreja passando pela coxia  no meio do povo até chegar na porta do fundo para tocar no sino o sinal da entrada.
Atrás dele as crianças da cruzada saiem da sacristia .
Sao puxadas pelas catequistas e  enfileiradas em duas filas  uma de cada lado da coxia perto do altar  mor. 
Ao chegar no lugar da fila esticam os braços para marcar a distância e vão trocando de lugar até ficarem por altura, primeiro os rapazes do menor ao maior, depois as meninas.
Uma faixa branca de tecido com uma cruz bordada em vermelho cruza o peito na diagonal, saindo do ombro direito e presa no lado esquerdo. Olhando de longe parecem um pequeno exército de pestinhas, irrequietos e aprontadores, prontos para saírem em fileiras cerradas pintando e bordando artes.
As catequistas estão nervosas e bravas com as crianças da cruzada. Por mais que tentem não dão fim na confusão que os pivetes aprontam. Perdem a compostura de beatas. Arrumam a fila de um lado e logo do outro eles pintam alguma malandragem.
A banda filarmônica, chega e começa a entrar pela porta dos fundos da Igreja , para complicar mais ainda a vida das catequistas que já estão com a paciência esgotada. Instantaneamente, a garotada da cruzada, como se fosse ligada por um mesmo fio, vira-se para a porta e logo cada um assume um instrumento e começa a tocar em uma sincronia impressionante. Tem maestro, saxofonista, tocador de caixa, pandeiro, clarinete... Em segundos formaram uma segunda banda que as catequistas, a todo o custo, com tapas e puxões de orelha, tentam abafar. Meu São Bernardino, que confusão!
Do lugar dela, ao lado da mãe, acompanha a sorrir as artes das crianças que não param de tocar, apesar das reprimendas e sorri com gosto ao ver que as catequistas finalmente  cansam e desistem derrotadas.
Com o percorre a igreja procurando alguem em especial. Se distrai por alguns instantes a olhar as beatas que vão chegando. Lenços na cabeça, olhares falsamente contritos a chegar à pia de água benta com trejeitos esquisitos, todas a porem a mão ao mesmo tampo lá dentro e a fazerem o sinal da cruz com ares de arrepio. Riu ao ver os gestos, e pensou que ainda bem que as moscas não iam à igreja ou já estariam espantadas com tanto arremedo. Mas, inquieta, não conseguiu ficar por mais tempo a ver as beatas na pia, os olhos continuavam a procurar pela igreja, olhando à toda volta sem parar.
DSC01587Olhou para os andores e à volta deles. Viu os rapazes que já  combinavam qual santo iam carregar na procissão enquanto marcavam com os lenços os lugares nos suportes dos andores.
Combinavam entre si pares da mesma altura para equilibrar o andor e distribuir o peso de forma igual entre os carregadores.
Mas também não o viu ali.
A procura parou com a entrada dos padres no altar. Saindo da sacristia entrou o pároco, o de Vale de Porco e o pregador que veio de Castro vicente,  junto com os dois acólitos também paramentados, um de cada lado. Enquanto eles iam até a frente do altar a igreja encheu-se de vozes. O povo em um só coro começou o cântico de entrada.
O ar festivo das vozes, o desafinado proposital das crianças, o tom beatífico de algumas mulheres, a voz grave dos mais velhos,  o canto afinado dos padres, misturaram-se no ar criando um sonoro polifônico colorido e interessante.
A esta parte da festa, uma harmonia impar de vozes e sons, toma forma. Quero crer que  até o próprio Deus e São Bernardino, que estavam só a olhar incrédulos e curiosos, lá do céu, começaram a cantar também, felizes, seguidos pelos santos, anjos e arcanjos e demais seres celestiais, pena que não formavam coro com os simples mortais, seria interessante de ouvir. Eu acho...
Apesar de animada pela entrada triunfal da missa e pelo cântico inicial, ela estava inconformada. O coração batia apressado a mil pulsos por minuto. Estava trêmula, suava frio. Gotas geladas escorriam pelas costas, quase sem cor.
A mãe viu que empalidecia, e em voz firme disse: - Comporta-te lá rapariga, põe logo sangue nesse rosto! Anima-te, não é nada impossível o que tu vais fazer, eE sei que vais dar conta do recado, podes crer! Senta-te ai um pouquinho.
Olhando enérgica para a filha do meio disse: - Ó Josefa senta aí também com a tua Irmã e dá apoio caso ela precise.
Sentou. Aos poucos, a calma e as enérgicas palavras da mãe, fizeram o rosto enrubescer. Só os olhos continuavam irrequietos a procurar alguém.
Olhou para o lugar onde ele ficava na igreja nas missas dos domingos, mas também não estava lá, ao lado do pai dele. Tentou encontrá-lo perto dos andores, mas não dava para ver. Sabia que devia estar do outro lado do andor do padroeiro, e que de onde ela estava não poderia vê-lo. Mas queria poder olhar para ele e ver-lhe os olhos.
O rapaz era o motivo da promessa. Se ele voltasse são e salvo da guerra do ultramar pagaria um alqueiree de trigo e o levaria à cabeça durante a procissão  em pagamento de promessa a São Bernardino.
Esperou mias de tres anos e meio. Perdeu a conta dos rosários rezados, das promessas,  dos sacrifícios, dos dias de solidão, sofrimento e inquietude. Felizmente o moço voltou são e salvo. São Bernardino cumprira com a parte dele. Era hora de pagar a promessa.
Feliz por  lembrar de como tudo começou foi se tranquilizando... Tinha dezesseis anos e ele dezessete.

A vindima.cacho_jpg
Faziam a vindima na vinha das  figueirinhas.
As famílias juntavam-se todos os anos para se ajudar na lida.
Ano apos  ano os rapazes desafiavam as moças para ver quem vindimava primeiro o valado de parreiras.
Esta disputa era tradição , e animava o dia, ajudava a fazer a vindima mais interessante .
cacho 2  As parreiras carregadas curvavam-se até ao chão, férteis de cachos maduros, fêmeas prenhas a pedir para parir as crias. As folhas nas cores do outono deixavam a paisagem melancólica e paletas coloridas, absurdamente ricas, em tons quentes de uma gama de cores e nuances indescritíveis fazia crer que o verão nao iria embora.. Um quadro maravilhoso, rico de perfumes sabores e sons.
Era cedo, ainda, quando chegaram à vinha. As parreiras umedecidas do orvalho do fim da noite curvavam as folhas, e derramavam lágrimas de tristeza pelos frutos que lhes tiravam ao serem tocadas pelos vindimadores. O sol saía aos poucos e ia aquecendo o ar enquanto espalhava pela encosta uma manta quente de luz e de vida.
A vinha enchia-se de mil abelhas e vespas, zumbindo acordadas, pelo romper da aurora e do calor nas asas. Sabedoras do fim do verão corriam na vinha, para tirar o sustento final, antes do inverno nesta missão de alimentar os corpos e a colméia com o néctar doce das uvas maduras.
Uma sinfonia de zumbidos enche o silêncio dos campos e avisa aos vindimadores para tomarem cuidado. Afinal, elas chegaram primeiro e defendem às ferroadas os ladrões que teimam tirar-lhes os cachos das parreiras. Sempre acontece de alguém se queixar de uma ferroada. Mas, que logo é resolvida na aplicação da lamina de aço da palaçoulo sobre o local, para evitar que inche.
Os rapazes e as raparigas animados pela disputa fazem uma algazarra enorme a correr por entre as parreiras. Espantam os melros que voam assustados a esbarrar nas folhas chilreiam bravos a reclamar da malta. Com uma velocidade impressionante de navalhas palaçoulo nas mãos vão cortando os cachos com uma precisão de cirurgião, tão firmes que quem olha se impressionaria se não soubesse da prática de anos.
De quando em quando, os pais olham e gritam para não deixarem as uvas para trás. E sem se importarem muito, com a algazarra dão risada e incentivam a disputa, a brincadeira sempre ajuda a manter a malta motivada no trabalho duro. E pelo sim e pelo não, sempre revisam os valados para validar a suspeita de que algumas parreiras ficam por vindimar. Mas divina providencia, e apesar disso sempre acontece de algumas parreiras ficarem sem vindima. Salvação de quem anda ao rebusco, dos pássaros no inverno e também dos pastores que ganham a volta da rama da vinha e que ao guardar as ovelhas acabam por encontrar parreiras com os cachos inteiros e felizes voltam para casa com o sarrão cheio.
Na correria dos valados os dois esbarram. A batida forte derrubou-lhes as cestas das mãos e espalhou as uvas no chão.
Olharam-se esbaforidos, com a respiração ofegante e o ânimo exaltado pela disputa. Os olhares cruzam-se faiscando com ares de disputa. Mas, por frações de segundo, os olhos param uns nos outros,  profundamente.
A expressão do rosto mudou, e o sorriso foi substituído por uma expressão de surpresa e de novidade.O olhar deles tinha a mesma intensidade e sentimento, com que a fonte olha o rio e a chuva olha a nuvem de onde partiu. Os olhos deles brilharam como gotas de orvalho atingidas pelo sol, faiscando ao primeiro raio. Ficaram mudos… O silêncio calou as respirações ofegantes da corrida e da vindima. Estão presos no olhar, um do outro, em silêncio, surpresos com a descoberta. Em segundos e quase que instintivamente, riram como crianças, um riso solto, inocente, e genuíno. Atordoados, ficaram sem saber o que fazer. Tentavam encher de novo o peito de ar sem conseguir.
Sem entender o que aconteceu realmente, e disfarçando o ocorrido e a surpresa, voltaram a disputar a vindima, como se tudo não passasse de uma distração fugidia, um incidente.
Voltaram para o desafio, ele juntos dos rapazes e ela com as raparigas. Corriam cada vez mais rápido para ver quem ia mais depressa e vindimava mais valados. A disputa estava acirrada.
As abelhas enfadadas tentavam voar,mas não conseguiam mais embebedadas pelo fermentar dos bagosdos cachos de malvasia, verdelho, moscatel e touriga.
O dia ia chegando ao fim, a vinha estava quase vindimada, os cestos nos carros de bois estavam cheios.
Mas algo mudou dentro dos dois. Enquanto corriam, e disputavam os valados, os olhos ficavam à procura uns dos outros por entre as folhas das parreiras e das cestas cheias de uvas. Não paravam de se olhar.
Um aroma de terra e de uvas enchia ao ar de doçura, combinando com o sentimento que surgia no peito dos dois. Tudo parecia distante e alheio. Os corações batiam fortes e em disparada, em uma só sintonia. Uma alegria indescritível, um suave êxtase, deleite, enchia as veias percorrendo todos os poros dos seus corpos. A vindima passou correndo, com os  pares de olhos e os corações  cada vez mais presos um ao outro. A cada valado vindimado um crescente de emoções e de suspiros deixava no peito um rastro de paixão e encantamento. Estavam felizes, e embriagados. O coração batia assustado, com a descoberta do primeiro amor.
Desse dia em diante, uma grande mudança aconteceu. Os dois passavam o dia a procurar-se, e dedicavam todos os momentos que podiam, a buscar um ao outro, na lida da aldeia. Todo o fim de tarde ele ficava sentado nas escadas da casa da esquina praça à espera que ela fosse ao marco, para poder vê-la e encontrar seus olhos. Os dias passaram a ficar longos e a passar muito devagar. Contava as horas para o fim do dia e aqueles minutos da ída ao marco eram uma eternidade.
Um dia ele escreveu uma carta .
“Em alguns dias, paro e fico quieto, em silencio, á espera do som que antecede a tua chegada. Conheço teu andar e a cadencia de teus movimentos. O som dos teus passos no caminho, me dá a noticia de que te aproximas, e que vais chegar.
É assim todo o fim do dia.
Sento-me, nas escadas da casa, perto do marco, para te esperar.
Mesmo cansado dos trabalhos do dia, fico ali quieto e sem pressa a contar os minutos que me separam de te ver sair de casa e descer a rua com a cantara nas mãos para buscar a água.
Meus dias são, esta continua espera, do fim da tarde chegar...
As mulheres mais velhas que vêem á fonte com suas cantaras esbouçadas, chegam a riem de mim, e ficam prá li a dizer: - não tarde já lá vem, já lá vem... Eu olho e rio, elas riem e olham. Sabem e eu sei, que é a ti que eu espero. Meus finais de tarde são inteiros para te ver e me encantar com teus olhos.
Lembro de ti, no adro da Igreja. Ao lado das crianças organizavas as filas da cruzada para a primeira comunhão. Teu sorriso meigo teu olhar desafiador ficam parados no meu. Desvia o olhar depois, para disfarçar o vermelho do teu rosto e o desconforto por me encarar. Fico sem fôlego e revejo esta imagem vezes sem parar, nos meus momentos em que não te tenho perto. Teus cabelos da cor dos trigais balançavam soltos ao vento e brincavam de esconder e revelar teus olhos.  Sabes que eu te olho e ficas com o olhar fixo em lugar nenhum com uma expressão feliz de ternura e felicidade, no rosto.
Lembro do dia de vindima especado sem e saber o que fazer, desde aquele  momento te amei com todo a minha alma. Daquele dia em diante tudo mudou. Os dias á tua procura pelas ruas da aldeia. Apaixonei-me por um sorriso que nunca vira antes. Conheço-te desde menina, puxei teus cabelos milhares de vezes no recreio da escola. Cansaste de correr atrás de mim para me pegar e retribuir o puxão. Mas aquele momento, naquele instante, teu olhar foi arrebatador. Descoberta de que o mundo é diferente, meus dias mudaram completamente. "
O amor dos dois nasceu assim, e como um vinho novo, foi fermentando, ao longo do inverno, nas missas de domingo, depurando à volta da fogueira do galo, até amadurecer finalmente, no dia primeiro do ano, quando saíram para cantar as janeiras.
As Janeiras.
Era primeiro de janeiro.
No meio da tarde formaram-se dois grupos para cantar as janeiras, de porta em porta, um só dos rapazes e outro com as raparigas. Só lá andavam os solteiros.
Começaram separados, cada grupo seguiu por um lado do povo, mas lá pelas tantas, por artes aqui não descritas e por estratégias estudadas friamente para não deixar os pais em alvoroço, os dois grupos encontraram-se na praça e, a partir dali, por todo o povo, seguiram em um grupo só.
De casa em casa paravam a todas as portas e cantavam as quadras:
Ainda agora aqui cheguei
Já pus o pé nesta escada
Logo o meu coração disse
Que aqui mora gente honrada
Senhora que está lá dentro,
Sentada no seu banquinho,
Venha nos dar as janeiras,
Em louvor do Deus Menino.
Os olhos dos dois não paravam de se procurar, sempre que os olhares se cruzavam, tentavam esconder o amor que crescia às escondidas, desde a vindima. Durante a cantoria, enquanto andavam de porta em porta, ou a subir as escadas das casas, buscavam ficar juntos o quanto podiam.
O coração batia forte, a voz saía muda, a letra das quadras faltava. Apesar do frio da noite de inverno que já começava a se fazer sentir, o rosto dos dois estava vermelho quase ao rubro tão brilhante como o aço das relhas deixado na forja.
Ao entrar em uma casa com escadas sem luz, ficaram para trás e deixaram que todos subissem. As mãos entrelaçaram-se e os dedos encontraram-se pela primeira vez. Desajeitados pela pressa prenderam as mãos um do outro. Ficaram assustados com medo que alguém os tivesse visto.
O grupo subiu e continuava a cantar.
A mesa estava posta com rabanadas, castanhas, figos, amêndoas, umas chouriças cortadas em rodelas, uma malga de azeitonas curtidas, pão, alguns copos e um garrafão de vinho tinto, “do nacional”.
Os visitantes aquecidos pelo fogo da lareira, o tilintar dos brindes, e a cantoria sempre a crescer em tom e altura, faziam daquele momento das janeiras um acontecimento muito especial. Cantavam cada vez mais animados. O vinho a encher os copos na mesa combinava acordes com o refrão das músicas.
O riso na voz dos donos da casa demonstrava a satisfação da visita e a alegria que lhes traziam. Serviram a primeira rodada de vinho e sentaram-se junto da lareira, rodeados pelos filhos pequenos. Os pirralhos olhavam os visitantes e riam de boca cheia. Na cara os olhos esbugalhados mostravam que acordaram às pressas com o barulho e algazarra e vieram a correr para a cozinha, para participarem da novidade e não perderem nada.
Os cachorros debaixo da mesa rosnaram para os cantores sem jeito de entenderem que ali não havia lobos, mas tinham lá suas razões, afinal alguns dos rapazes, eram mais ladinos que as raposas.
- Boa pinga ó ti Alberto, o vinho deste ano está melhor que o do ano passado.
- Boa cor ele tem, sim senhor! - respondeu o ti Alberto. E ficou-se a rir do abuso dos rapazes.
- Viva lá o Deus menino!
-De hoje em um ano! E que corra pelo mesmo cano! - Falaram as vozes em desatino.
Voltaram a cantar ...
Boas noites meus senhores,
Boas noites vimos dar,
Vimos pedir as janeiras,
Se no-las quiserem dar.
Como é lei de cada ano
Se no-las houverdes de dar
Somos romeiros de longe
Não podemos cá voltar
Viva lá, senhor Alberto
Na folhinha do loureiro,
Viva lá o senhor da casa
Que é um grande cavalheiro.
Fizeram uma pausa...
As raparigas aproveitaram a parada e começaram a pedir à tia Josefa, por uma jerupiga, que vinho elas não tomavam, era coisa de rapazes. Ela riu e lembrou dos tempos de moça, sabia bem destas desculpas das raparigas, a jerupiga sempre era mais docinha.
Foi ao armário e tirou de lá uma bandeja de vidro, com uma garrafa trabalhada, rodeada por uns copitos com os mesmos detalhes. Ao verem a garrafa as moças gritaram de alegria. Correram para ela e encheram-na de beijos. Ela pôs-se a reclamar, enquanto ria toda contente e dava de beber da jerupiga às moças.
Elas em sinal de agradecimento desataram a cantar com mais vontade...
Senhora que está lá dentro
Assentada na cortiça,
Venha-nos abrir a porta
Ou dê-nos uma lingüiça.
Levante-se de lá, senhora,
Do seu banquinho de prata,
Venha dar-nos as janeiras
Que está um frio que mata.
A tia Josefa foi ao fumeiro, cortou uma lingüiça e duas alheiras. Depois encheu um saco de figos e castanhas. Abraçou uma das moças dizendo que tinham que cantar mais uma moda antes de saírem
E o grupo entoou...
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras
Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais à dentro vamos
Às raparigas solteiras
Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas, pão e vinho novo
Matavam a fome à pobreza
Os dois ficaram parados na penumbra, ao fundo do vão das escadas. Ouviam o canto e algazarra dos outros que vinha lá do alto da cozinha. Estavam ofegantes como ficaram da primeira vez em que se olharam na vinha. A pouca luz que descia da porta entreaberta no cimo das escadas, iluminava os rostos com tons dourados, cintilantes.
Os olhos brilhavam extasiados de alegria e de paixão. Sem dizer palavras, puxou-a suavemente para si e ela rodeou-lhe o pescoço com os braços. Os dois corpos ofegantes entregaram-se em um beijo leve, suave, tímido e hesitante. Pela primeira vez, próximos um do outro, estreitaram no olhar e nos lábios a intensidade de tantos momentos em que ficaram a olhar-se ao longe.
O segundo beijo foi diferente, um crescente de emoções tomou os dois. A espera dos longos meses destilou a vontade e o desejo na explosão do beijo. As duas bocas colaram e soltaram-se uma da outra várias vezes e percorriam os rostos cobrindo-se de beijos. Os rostos gelados pelo sereno da noite ferviam ao toque dos lábios ardentes.
Afagou-lhe os cabelos, afastou o rosto e voltou para perto para beijar-lhe os olhos. Dizia o nome dela em sussurros a cada beijo sem parar. Beijou-a na testa, aspirou o ar com toda a força para sentir o perfume do corpo e dos cabelos úmidos.
Foram instantes apenas... Minutos breves, mas tão longos, que pareceram uma eternidade.
O serenar da cantoria fez com que caíssem do céu à terra instantaneamente. Ficaram atordoados... - E se nos viram! Sussurrou ela.
Ele fez que não com a cabeça e disse: - Vamos esperá-los aqui, vou dizer que escorreguei no escuro do curral e que tu me ajudaste a levantar.
O grupo não tardou a descer.
Para surpresa e sossego dos dois a malta desceu alegre e cantando glórias pela farta oferta que ganharam das janeiras. Como se fosse combinado, saíram dizendo como que para tranqüilizá-los. Vocês não sabem do que perderam! Do vinho, da boa jeropiga que a tia Josefa nos deu...Quem de trás anda, diante se queixa... Ainda brincaram.
Já no meio da rua, desataram todos a correr para chegar logo na casa seguinte e recomeçaram a cantar. Os dois correram também de mãos dadas. Estavam nervosos e inseguros. De repente começaram a rir deles mesmos às gargalhadas pela cara que fizeram e pelo medo que passaram agora à pouco. Os outros não entenderam nada.
Até ao fim da noite cantaram as janeiras com o grupo. Mas o cantar das janeiras agora tinha um novo sabor.
Os pensamentos a fizeram voltar para a Igreja.
Os olhos percorriam todos os lugares possíveis.
Ao olhar o andor de São Bernardino viu que ele estava lá.
Tranqüilizou-se... Ele também a viu e fez sinal para ela que estava tudo bem e que ficasse calma, já estava com o lugar marcado no andor.

27/02/2015

O Ti Pauzinho.

 
Talvez sejam poucos os que ainda se lembram dele. Na verdade nem eu me recordo muito bem. Partiu quando em tinha de quatro para cinco anos e, o tempo já apagou da memória as imagens das feições e traços. Restaram as marcas dos feitos e da personalidade, destes sim, eu confesso, que me lembro muito bem.
Impressionavam nele a força, a determinação e a vontade de vencer.
 

Ti Pauzinho.

O apelido veio do aspecto magro e fino, que lembrava um galho seco “pauzinho”.
A fome e necessidades deram-lhe a aparência e o nome, mas fizeram também a têmpera do caráter, da vontade férrea e teimosia.
 

O homem tem a medida do seu sonho.

Não é a origem nem a falta de sorte que traçam o destino, são as ideias ou a falta delas. Assim o objetivo que traçamos para nós mesmos e a força que colocamos na determinação de alcançar a meta, são determinantes para o resultado de toda uma existência.
 

O sonho de um homem

Artigo: Luis Pardal
Ribeira das Pombinhas em Castelo Branco Mogadouro

Até hoje quero crer

que ainda se podem ouvir os estouros de fragas a ecoar por todos os montes e vales das pombinhas. Pelo menos, sempre que vou por lá, ainda sinto a terra tremer e escuto o rugir das explosões repetido pelo eco, como se fosse uma trovoada a chegar.
 
Acredito que isso não ocorre só comigo, mas com todos os que por ali passam e param por alguns instantes com os ouvidos alertas, na escuta. Se lá forem, e eu recomendo que vão! Parem um pouco á espera... Fiquem de ouvidos bem abertos! A qualquer momento, vão ouvir e sentir também.
 

Mas, não, não se assustem,

não é trovoada, tão pouco precisam chamar Sta. Barbara ou São Bernardino, estão seguros! O lugar é de calma e de paz!
Quando lá forem, quero que me contem o que se passou por lá. Fica desde já combinado, trato é trato, quem escutar vai ter que contar aqui.
 

De qualquer modo,

vale a experiência de um passeio maravilhoso para se fazer no fim da primavera, ou no começo do verão. Sair a pé, ribeira abaixo, pelos caminhos e ribeiras até as cardanhas, é imperdível. Passem por lá!
 

Nas fragas ainda se podem ver

alguns dos buracos abertos para rebentar as pedras e que não foram utilizados com pólvora e estopim. Impressiona muito ver tudo isto. Estas marcas fazem olhar e refletir como a natureza humana e a força de caráter são capazes de superar todas as adversidades e limitações. Um exemplo de vida, que incentiva.
 

Por mais que a vida

e natureza teimem em nos colocar dificuldades e desafios, se tivermos fé, força de caráter, vontade e determinação de vencer, não haverá dificuldade grande o suficiente para nos deter ou desestruturar.

Mas entendam porque lhes digo isso...

23/02/2015

Demografia

 

Visão de 1864 a 2011

Castelo Branco é uma freguesia portuguesa do concelho de Mogadouro, com 54,57 km² de área e 449 habitantes (2011). Densidade: 8,2 hab/km². Integrada no concelho fica situada a 12 km para sudoeste da sede concelhia, acesso pela EN 221. Situa-se a Norte da Serra de Lagoaça e perto da margem direita do rio Douro.

Evolução do numero de habitantes

Bragança_853

A população em 2011

Bragança_856

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_Branco_(Mogadouro)

22/02/2015

A retorta

Capela da vila velha por cima da retorta 

No São Bernardino,

o verão começa a aparecer junto com as cerejas. Quando pintam é o sinal de que a primavera está para sair é o verão a dar sinais. Os trigais ficam pálidos e o verde vivo, vai dando lugar ao dourado, nos tons das espigas a amadurecer e da erva a secar nos montes. Os campos enchem-se, com os sons das cotovias, e dos “chincha-la-raiz” enamorados, ocupados em se acasalar, ou em fazer os ninho. O cuco chegou cheio de vontade, este ano, e anda pelos ares, atendo á vida alheia, para ver se arruma casa e lugar para por os ovos e deixar os filhos para criar com as mães enganadas.

Por todo o lado,

uma sinfonia de sons e de aromas , cigarras, cucos, gaios, rolas, melros, pardais, bandos de pintassilgos. Voam e cantam felizes por cima de quem passa e deixam os campos repletos de uma trilha sonora encantadora e perfeita: uma "sinfonia de pássaros". As perdizes e os perdigotos espalham-se pelos caminhos, e confundem quem passa como se fossem pedras a correr em fila.

As aulas na escola,

depois da festa, começam a ficar pesadas e as horas intermináveis. Mas apesar disso e para compensar, os dias já são mais longos, e sobra mais tempo para os jogos na praça. Ao fim do dia ouve-se os gritos dos rapazes a correr á volta das casas a brincar ao tiro-liro ou a voltar de jogar á bola nos lameiros do chafariz, ou das eiras.

 

Naquela época

eu guardava vacas. Sim vacas. Eram três, a Mimosa, a Castanheira e a Picolina. Outro dia falo da origem dos nomes, isto porque é muito interessante saber desta origem, tem seus motivos, e podem crer vale bem a pena escrever uma crónica para lhes contar.

O ferrador

umas no cravo e outras na ferradura. Considerada por muitas pessoas um amuleto ligado à sorte e felicidade, acredita-se que a ferradura protege contra mau-olhado e desgraças. Ela está ligada a uma crença que vem desde a Grécia Antiga: os gregos tinham o ferro como um elemento que afastava o mal e acreditavam que a Lua Crescente afugentava a infertilidade e a má sorte.

Ti Zé ferrador era um homem de hábitos certos e seguros. A cada domingo depois da lua nova chegava  na aldeia cedo, antes de aurora, a cavalo em um macho amarelo, tão velho e desbotado pelo sol, que seu aspecto descolorido e pálido contrastava com os arreios, a albarda e as alforjas vistosas, sempre limpos e impecáveis como o dono que vestia  uma jaqueta riscada e camisa branca.  Uma figura de respeito este Ti Zé.

13/02/2015

Jarra de vinho

Castelo Branco, Mogadouro: jarra de vinho

Não tenho a medida certa nem o valor da sede. Com quantas jarras se seca o pipo…

Era noite de entrudo, e os cepos ao lume a apagar na cinza, encostados ao murilho de cantaria, com remelas das brasas cansadas, reluziam sem força, amedrontados por estarem a chegar ao fim.

Na tremula e pálida luz da candeia, o Alcides, arregalava os olhos na escuridão, como que para ver melhor os pensamentos.

De tempos em tempos, em cadencia incerta, levava na boca o caneco de barro, e engolia em seco o vinho com apressada sofreguidão a tentar afogar as magoas.

Casaram a Maria, com o Joaquim da fonte! Arre conho…

12/02/2015

Vila Velha

 

Ha muito tempo por ordem Del Rei, Dom Dinis, três frades da ordem Beneditina, chegaram a estes lados para pastorear o rebanho, das almas dos cristãos, que ocupavam as terras reconquistada dos sarracenos.

31/01/2015

Imagine voltar pra casa depois de 60 anos

Imagine voltar pra casa depois de 60 anos. Conheça a linda história do sr. Antônio, um imigrante português que morou no Brasil a vida toda. 

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