26/03/2011

Se o cuco não vier…

Autor: Luis Pardal

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Na aldeia os meses de março e abril são os mais ocupados e de maiores afazeres na lavoura e cuidados dos campos. A vida renasce nas terras prenhas de sementes, plantadas com a esperança de dias melhores e de fartura. Entre março e abril, finalmente, os dias se igualam com as noites e a vida retoma um novo ritmo. Durante o inverno os dias são curtos, as noites longas e frias, tudo está em pausa e flui devagar. A natureza, diferente dos homens, sabe esperar enquanto se prepara para um novo ciclo.

Com o despertar da primavera, os campos chamam com urgência as pessoas da aldeia para as lidas e afazeres. As terras aos poucos vão ficando floridas de amarelo como que para dizer que a primavera esta a chegar e que é preciso impor a nova marca da estação. A forma de brotar da vida é caprichosa, apesar da pujança dos campos a florescer, em algumas manhãs, ainda é possível ver um fino manto de geada deixando claro para as plantas e a todos nós, de que o inverno teima em partir. E ele lá tem suas razões... Ficou por aqui instalado por quatro longos meses, e não se quer ir embora! Mas, já é tempo bastante, logo vai partir, quer ele queira ou não. Digo para mim que ele se vá, mas que volte ano que vem, afinal, ele também faz falta. Se não for por mais nada, que volte para curtir as alheiras.

Aqui no Brasil começa o outono e eu fico a lembrar-me da primavera... Que maluquice esta coisa da inversão de estações entre os hemisférios terrestres, norte e sul. No Brasil outono e em Portugal primavera. Curioso que por vezes ainda dou comigo a pensar que o meu relógio biológico se confunde e sente as estações de maneira equivocada. Talvez porque aqui, deste lado de cá, apesar de estarmos no outono, a natureza floresce com exuberante beleza e cobre as árvores de flores de tons amarelos, roxo e rosa e de tantas outras cores. Apesar das diferenças entre os hemisférios, há uma sincronia indiferente aos solstícios, que faz as plantas se unirem na celebração da vida.

Hoje me lembrei do cuco e do cantar característico dele ao recordar o ditado, “Se o cuco não vier, entre Março e Abril, ou o cuco está morto, ou o fim do mundo para vir!” Não foi o fim do mundo que me fez lembrar dele, embora nos últimos tempos, tudo nos leve a crer que está para acabar. Não creio no fim dos tempos. Creio sim no ciclo da vida e na sucessão histórica de fatos que fazem a evolução da humanidade ter altos e baixos, progressos e retrocessos. Aos tempos difíceis sucedem outros mais promissores, afinal aprendemos na diversidade as maneiras de vencer as dificuldades.

Lembrei-me por curiosidade. Será que o cuco ainda canta nos campos? E o relógio dele, ainda está certo na chegada entre março e abril, ou esta coisa da globalização também atrapalhou a vinda deste turista anual? Digam lá, como anda a chegada do cuco? Ele foi pontual este ano?

Na minha infância havia cucos por todos os lados. Entre os meses de março a junho estavam em todos os lugares e caminhos da aldeia. Eu ainda os escuto a cantar ao longe. Meus ouvidos guardam esta sinfonia com saudade. Um canto compassado e certeiro que embalava os passos e nos acompanhava pelos caminhos até chegarmos nas hortas, e depois por lá ficava o dia inteiro como um compasso para os trabalhos, até voltarmos para casa ao fim do dia, quando a tarde começava a esfriar. Por esta altura, era tempo de plantar as batatas e de preparar as hortas para o plantio as cebolas, tomates, pimentos, ervilhas, feijões e outros vegetais. Uma sucessão de afazeres que garantiria a despensa cheia para o inverno do ano seguinte.

Na natureza o cuco era o precursor e o arauto do renascimento da vida, e por esta função lhe são perdoados os pecados de usurpador de ninhos alheios, afinal, na natureza tudo tem um porque, as coisas não são por acaso. Ele nos avisava que a natureza renasceu e que era preciso renascer também, dar vida nova ao velho. Fazer, inventar, ter esperança por dias melhores.

Nestes dias de desânimo, e de momentos difíceis da economia nacional, peço a Deus que os cucos cantem muito alto em todas as aldeias e cidades de Portugal. Para lembrarem a todos que, apesar de dias difíceis, nosso povo sempre se orgulhou de renascer das adversidades e de as vencer a todas. Somos uma nação valente e imortal.

Lembrem de ter esperança ao ouvir cantar o cuco. E se ele não vier, então é mesmo porque o fim do mundo está pra vir e, portanto, é hora de fazer as malas e navegar para outra galáxia.

Mas navegar é preciso viver não é preciso, não é mesmo?

Digam-me do cuco...

Ele chegou?

 

Luis Pardal

16/03/2011

Comenda de Santa Maria a Velha de Castelo Branco de Mogadouro.

Autor: Luis Pardal

Sempre digo que a internet é uma aldeia grande sem fronteiras ou limites. Uma grande teia de computadores onde é possível encontrar de tudo ou quase tudo o que se quiser. É só procurar, tudo está à distancia de um clic apenas.... Pronto chegamos lá...  Mas também é um lugar de boas e gratificantes surpresas como esta que quero lhes apresentar.

Tudo começou com a indicação pelo, Manuel A. Carlos,  de um artigo sobre a comenda de Santa Maria a Velha de Castelo Branco, publicado no site de Remondes. Ao fazer contato com o autor, Antonio Cordeiro, mais uma grande surpresa no e-mail com a resposta e a autorização de publicação: “...não tem problema algum em publicar o que quiser. Castelo Branco era a terra de meus avôs os Neves Ferreira”

Portanto mais um conterrâneo chega ao site e nos brinda com o resgate de um pedaço importante da história de nossa terra.

Quero expressar em nome de todos nosso agradecimento ao Antonio Cordeiro pela autorização de publicar este artigo aqui no site e blog de Castelo Branco.

Abraço a Todos

Luis Pardal

 

Historias da nossa terra

Artigo publicado no site: www.remondesonline.com

Quarta feira, 09 Março 2011 as 16:04h | Escrito por Antonio Cordeiro

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Subsidios para a história da nossa terra.

Carta enviada pelo príncipe regente, do reino de Portugal e dos Algarves, e do mestrado de cavalaria, ordem de nosso senhor Jesus Cristo. Faço saber, que o pároco e moradores de santa Catarina de Remondes , filial da comenda de Santa Maria a velha de Castelo Branco de Mogadouro, me disseram que a comenda dava ao pároco da dita Igreja de Remondes uma limitadíssima côngrua , com a qual não podia sustentar-se , e muito menos pagar renda de casas e um criado e decima; tendo alem disto, obrigação de dizer as Missas, nos Domingos, e dias santos, propondo: por cujos motivos anteriores em visto tempo obrigar o ordinário a quem a fosse curar.Pedindo-me fosse servido aumentar a côngrua da dita igreja ou Curato.O que visto; informação que procedeu do Provedor da Comarca, respectiva e a resposta que deu o Desembargador procurador Geral das Ordens e que tudo o mais presente em consulta do meu tribunal da mesa da consciência e ordens, dei por bem e me praz fazer mercê de aumentar a côngrua do curato da Igreja de Santa Catarina de Remondes, filial da Comenda de Santa Maria a Velha de Castelo Branco de Mogadouro, com mais 80 milreis cada ano, que serão pagos pelo rendimento da comenda respectiva com vencimento dia 11 de Agosto do ano próximo passado 1803 em diante , os cobrara o cura que mostrar que serviu com efeito o mesmo Curato desde aquele tempo.

Para o que requerera, primeiro, ao meu tribunal de ajuntamento do referido novo aumento conforme as minhas reais ordens, se cumprira sendo passado pelo balancete da Ordem. E seja registado nos livros da Igreja, e do Tombo da Comenda e não paga três quartos por ser Curato amovível.

Lisboa 17 de Fevereiro 1804.

Resposta do Comendador da Ordem.

Alvará porque V. Alteza Real. Hei por bem aumentar a Côngrua do Curato de Santa Catarina de Remondes , filial da Comenda de Santa Maria a Velha de Castelo Branco do Mogadouro, com mais 80 mil reis cada ano, com vencimento no dia 11 de Agosto do próximo ano , como Sua Alteza real pede, cobrara o Cura que mostrar ter servido o Curato , como acima se declara.

Actualizado em (Domingo, 13 Março 2011 22:16)

Antonio Cordeiro

Site de Remondes. www.remondesonline.com

(clique na imagem para seguir o link para o site)

15/03/2011

Terras do Sabor e amendoeiras em flor

Autor: Mário Neto

Olá a todos!

Seguem umas fotos que tirei na viagem de regresso a Felgueiras, no domingo gordo. Não dá para cheirar, mas é sempre bom ver e rever paisagens da nossa terra, de Trás-os-Montes.Terras de suor, mas com encanto e beleza.

Estrada com amendoeiras carregadas de floresAmendoeiras em flor Flores de amendoeiraFlores de amendoeira em detalhe Flores e petalas de amendoeira lindas e perfumadas

As amendoeiras em flor sinal de Primavera, colorindo os montes agrestes da nossa região, o rio Sabor correndo ainda livremente. Rio selvagem por pouco tempo, pois a barragem do Sabor vai retirar-lhe a sua liberdade.

O  rio sabor em uma moldura de amendoeiras em florSabor rio selvagem cheio de encanto e beleza com petalas de flor de amendoeira em tom de despedidaRio Sabor como sempre foi, lindo e selvagem.Rio Sabor que um dia foi livre solto e corria selvagem por entre montes e vales   

Um abraço a todos

Mário Neto

14/03/2011

Memórias de outros entrudos…

Autor: José Pimentel

 

A- “….Ó Sr. António---- d`aú. A sua filha já se quer casar.

Quem l`habemos de dar p´rá sustentar…..”

Pausa

B-“….Há-de ser o ………..que é capaze de a gobernar….”

Pausa

A-“…..É bô rapaze. É bô rapaze….”

Era mais ou menos desta forma que durante várias noites, antes do Entrudo, se torreava, fazendo os casamentos que iriam durar um ano.

Este jogo, se é assim que se pode chamar, era feito por rapazes solteiros, que tinham, ou se calhar pensavam que tinham, alguma influência na rapaziada.

A preparação começava muito cedo e o inicio era sempre num café, á volta de um Ponche quente, um cálice de Aniz ou até de uma Genebra para aqueles que tinham digestões mais difíceis e não gostavam de trabalhar de barriga cheia,

Havia também um instrumento essencial de comunicação. O embude. Quanto maior fosse melhor, pois aumentava o seu poder de alcance. E então aí apareciam eles. Todos velhos, uns mais amolgados que outros, uns ainda a cheirar ao néctar que alguns meses atrás tinham ajudado a envasilhar nos pipos e que agora descansava nas adegas á espera de ver a luz do dia. Mas também havia alguns já sujeitos ao teste da relha…

Como a relha foi ao fundo, o vinho já era…..

Para os mais jovens, o teste da relha consistia em meter um relha no vinho e então se a relha fosse ao fundo, bebia-se mas se não fosse ao fundo, o que era improvável, bebia-se também.

Havia ainda outros embudes engraçados, pintados de azul, verde ou vermelho e com algumas letras, muito mal desenhadas, para identificar o proprietário.

Nesta altura já os estômagos estavam compostos e o corpo já bem quente, se calhar até quente demais. Mas seria desta forma que as palavras se libertavam com mais facilidade…

Então formavam-se 2 grupos. Uns iam para um caminho que vai da escola primária para a Faceira. Os outros ficavam na esquina da Casa Grande, próximo da curva do plátano e que se avista quase a aldeia toda.

Pronto, o palco estava montado, podia começar o espectáculo. E lá começava e ia prolongar-se por algumas horas.

Nesta noite os cafés fechavam sempre mais tarde, pois sabiam que a rapaziada ficava com a garganta seca e era preciso molhá-la.

No dia seguinte era engraçado passear pelas ruas da aldeia. O semblante carregado de certos Pais contestando o par que lhe havia calhado à filha, fazia um contraste perfeito com o da moçoila já meia enfarinhada pelo marujo que lhe calhou na rifa, como que fazendo pairar no ar o principio de uma paixonite, quem sabe talvez aguda.

Não sei se destes “casamentos” algum terá passado para o papel. É bem provável que sim, pois o leque de escolhas não era assim tão grande.

O culminar destes dias de torrear chegava. Era a noite propriamente dita para a cerimónia nupcial, a noite do Entrudo. A rapaziada andava pelas ruas da aldeia, sempre de Embudes em punho, e á porta da noiva, era celebrado o casamento. Então o noivo entrava em casa da noiva e seria recebido com vinho e rosquilhas, selando desta forma um casamento, quem sabe muitos destes não seriam para toda a vida.

Estas cerimónias, iam-se repetindo de casa em casa onde houvesse moças namoradeiras e duravam quase toda a noite

Já no dia de Terça Feira tudo seria, ainda mais, afogado com as “cascas” cozidas, sempre muito bem acompanhadas pela orelha, o focinho do porco, o bulho, as linguiças e o meio escondido chouriço preto. Não faltava o bom pão, o vinho e o bom azeite.

Este dia contribuía imenso para os colesteróis elevados, bem com a dona tensão arterial. E digo isto porque se apertava mais um pouco, porque no dia seguinte, Quarta-Feira de Cinzas não se come carne.

Bom e depois disto tudo, tinha-se de arranjar maneira para desgastar este repasto. Uns iam para o largo das Eiras a jogar o fito e outros iam com as burras buscar uma poucas de nabiças para dar ás vacas que já “berravam” pelas ditas “berças”…

in illo tempore

José Pimentel.

27/03/2008

12/03/2011

Mapa do site

Autor: Luis Pardal

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Inseri na pagina do blog um mapa que mostra a localização das pessoas que a visitam. Confesso que gosto de passar por ali de vez em quanto para olhar e ver de onde chegam os visitantes que são em média 45 diariamente.

A cada artigo que é publicado chega uma nova revoada. Parecem pardais a voar nas eiras por cima das medas de volta dos molhos de espigas, prontos para se fartarem dos grãos de trigo, cevada, ou centeio.

Nesta geografia, alguns ficam fáceis de identificar e de saber quem são pela singularidade da localidade onde residem. Canadá por exemplo, é nosso Grande Regedor, ou de Florianópolis, sou eu o Luis Pardal, mas da grande maioria só posso imaginar quem esta por detrás daquele ponto no mapa.

Não somos tantos, e apesar de estarmos espalhados pelos quatro continentes, deste mundo que parecia tão grande e que cada vez mais parece uma aldeia, temos laços muito fortes que nos unem e que nos fazem únicos. Somos albicastrenses, e nos orgulhamos muito disso. Nosso “povo” é a nossa referência. Partilhar lembranças e memórias é dar vida e reviver momentos felizes e relembrar amigos.

Por isto gosto de olhar com curiosidade as estatísticas do blog. O Google criou uma sistemática fantástica de coleta de dados que anota e traça todos os movimentos. De onde viemos para a página, quanto tempo ficamos a ler os artigos, quantas vezes voltamos para reler ou ler o que ainda não tínhamos lido. Mas apesar destas estatísticas o Google não sabe dizer quem são as pessoas que por aqui passam. Nem tão pouco nos fala a respeito delas.

A pensar nesta falha do Google e na forma de melhorar as informações, resolvi escrever este artigo. Quero fazer um convite, a cada um que passar por aqui. Mande um oi, um olá. Não importa se é natural de Castelo Branco ou, apenas um simpatizante, vamos cadastrar todos os visitantes e fazer um fórum. Será nosso albibook que nos permitirá reencontrar amigos ou refazer contatos.

Se queremos saber de algo fazemos a pesquisa no Google. Se precisamos saber como chegar em algum lugar ou endereço, procuramos no Google Maps. Se queremos encontrar alguém, vamos ao facebook ou a outras redes sociais. Tudo está à distância de um clique apenas! Muito rápido, muito perto!

Sinal dos tempos… Meu Deus, que diriam os antigos?

São mares nunca dantes navegados, mas, que também nos permitem estar mais próximos dos lugares e das pessoas que amamos. Minha mãe sempre me dizia que quem vê seu povo vê o mundo todo, e ela estava muito certa. As coisas não são tão diferentes nos outros lugares se desconsiderarmos as proporções. Partilhem também um pouco da vida e dos lugares onde moram.

Enviem e-mails para: luispardal@castelobrancomogadouro.com Dizendo, quem é, onde mora, e-mail, skype, Etc

Abraços

Luis Pardal

11/03/2011

O Casamento AÚ

Autor: Dulce Pombo

As mães faziam a massa das Rosquilhas para receber o futuro genro de carnaval. A farinha, os ovos, o açúcar e o cheiro da aguardente reinavam na cozinha.

As mães faziam a massa das Rosquilhas para receber o futuro genro de carnaval. A farinha, os ovos, o açúcar e o cheiro da aguardente reinavam na cozinha.

As raparigas ansiavam pelo silêncio da noite enquanto os rapazes se organizavam e concorriam entre si para entrar na casa da tão ansiada Noiva de Carnaval.

Jantava-se cedo e com a lareira acesa a aldeia ia quebrando todos os ruídos do dia. Todos sentiam o seu respirar até que o primeiro chamado se ouvia.

Eles, os rapazes haviam já acertado entre eles quem seria o Noivo de cada Noiva. Elas, em casa, disfarçando a ansiedade sempre esperavam ser escolhidas pelos seus eleitos.

Toda a aldeia estava curiosa, tal momento era não só uma festa de carnaval mas certamente os indícios de namoricos escondidos ou sonhados.

Todos se calavam e ouvia-se o primeiro nome do primeiro pai da primeira noiva:

Ó Sr. (nome do pai da rapariga)

A sua filha (o nome da filha) já se quer casar

Quem lhe havemos de dar para a contentar?

Seguia-se um silêncio de morte em toda a casa e em toda a aldeia. Os rapazes faziam um compasso propositado de forma a criar um suspende que fazia rebentar o coração da noiva de carnaval. E…claro, em todos os lares se ouvia a novidade do pretendente:

- Há-de ser o (fulaninho de tal)

- Que é capaz de a contentar

- É BOM RAPAZ!

- É BOM RAPAZ!

Com certeza que nem sempre se imaginava que o fulaninho era o que havia dado mais no leilão para poder ser o noivo. Mas sendo o imaginado ou não, o desejado ou não, acabava de ganhar o direito a entrar na casa da noiva para beber o copo de vinho, a rosquilha frita há poucas horas.

 

O pai da noiva o recebia:

- Entra…rapaz…entra….

A noiva de carnaval mantinha a postura que o pai transmontano esperava e assim o noivo podia permissão para dançar no dia seguinte com a Noiva no baile de carnaval.

Tenho a certeza que muitos casamentos se adiantaram na noite de carnaval. Outros ficariam pelos sonhos de adolescência. Mas era assim que se viviam a quadra carnavalesca na minha aldeia.

Outros terão registos diferentes. Estes foram os que eu guardei além das risadas ao ver as minhas amigas enfarinhadas quando tentavam escapar aos rapazes!

Fui à minha aldeia dois dias antes de carnaval deste ano de 2011 e para meu feliz espanto lá andavam uns rapazes com um enorme funil a gritar AÚ pelas ruas da aldeia. Foi então que os registos da minha memória reavivaram e me trouxeram fragmentos de sons, emoções, paladares e saudades.

Muitas saudades!

Dulce Pombo

07/03/2011

Carnaval de minha aldeia

Autor: Marina Craveiro

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Na minha aldeia o entrudo

Ainda é muito festejado.

Ninguém fica em casa, sai tudo.

Depois de bem almoçado,

Fica o povo animado

 

Fazem grandes brincadeiras

No dia de carnaval

“Entrudo passa tudo”

Já é ditado velho e ninguém leva a mal

 

Vai o povo para a rua

Levam sacos de farinha

Da gosto ver os rapazes

Enfarinhar as meninas

E lançarem serpentinas

 

Elas fogem dos rapazes

Para não serem apanhadas

As que não querem farinha

Escondem-se em suas casas

Mesmo assim não escapam

De serem enfarinhadas

 

Depois chegam os mascarados

Que todos gostam de ver

Esquecemos as tristezas

Porque é entrudo a valer

Sabe-se lá se para o ano

Ainda o voltamos a ver

 

Mais tarde ao anoitecer

Os rapazes preparam tudo

E com tochas a arder

Vão pela rua a correr

A enterrar o entrudo

 

Depois de morto e enterrado

Há muita festa pra ver

Vão casar as raparigas

E lhes dão um namorado

Que elas não podem escolher

 

Lá vão os casamenteiros

A casar as raparigas

Só com rapazes solteiros

Mas algumas ficam zangadas

E não há noivo que lhes sirva

 

Se o noivo for de seu agrado

Ela fica bem contente

Se dele ela não gostar

Não há rosquilhas pra dar

E nem abre a porta aquela gente

 

Esta nossa tradição

Nunca havia de acabar

Pois há muita animação

Já chegou a acontecer

De namorados de carnaval

Se transformarem em realidade

 

Marina Craveiro

 

03/03/2011

SANTA MARIA DE CASTELO BRANCO 2 – CASTRO COM CASTRO EDIFICA!

Autor: Manuel Carlos

S. M.ª de Castelo Branco nunca foi objecto de Estudo Monográfico excepcionando um ou outro esboço de semântica evoluída que o reverendíssimo pároco Norberto de Cândido Borges na Revista de Cultura “Brigantia” publicou bem como o digníssimo e laureado Padre Aníbal Varizo, na mesma Revista, à laia de parêntesis e de somenos importância referiu.

Contudo as notícias são encorajadoras: por volta de 1920 depois de uma derrocada de terras surgiu uma 2.ª bifurcação subterrânea, perto do Orago a Santa Maria a Velha de Castelo Branco, onde encontraram moeda romana em ouro bem como variadíssimo espólio e, em consulta aos autos paroquiais (onde estão eles hoje?), tal facto já teria acontecido noutro passado de resto… e as moedas? – Perguntava-me, há uns anos, uma colega apaixonadíssima por arqueologia – Olha… são bem visíveis nas armas ou heráldica (bandeira) da nossa aldeia e dali não fogem te garanto. Mais… na década de 1980 (muitos de vós ainda estais recordados) quando se abriram os caboucos para o muro de suporte na referida capela foi novamente encontrado: moeda variada, cerâmica, telha e rocha cavada com a forma do corpo humano: almofada no lugar da cabeça, alargada nos ombros e estreitada nos pés (sepultura antropomórfica).

Nesses idos anos logo que um lavrador pontapeava um calhau “esquisito” as notícias chegavam, por via dos párocos locais, de imediato a Bragança e o Padre Manuel Alves, conhecido por Abade de Baçal, vinha logo indagar em pessoa, ele que foi e aqui lhe prestamos homenagem uma sumidade sobre a História do Nordeste Transmontano e arqueólogo de renome (ver Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança).

Dito isto, por que razão nada se fez? Obviamente que só uma intervenção arqueológica permitiria datar e compreender melhor as fases de ocupação do lugar! Vamos, então, acender a candeia e vislumbrar um pouco do nosso passado com o material disponível e fiável (toponímia).

Frei Henrique Floréz, cronista ibérico muito rigoroso a assinalar datas e locais, escreve o seguinte: “…Juliabriga estava a meia légua de Reynosa e ao seu meio dia do Elro abaixo, num alto chamado RETORTILHO onde ainda perseveravam ruínas de construções…” Em Santa Maria a Velha de C. B., junto à ribeira (da Freixeda) há também o sítio chamado de Retorta e lá no alto ainda temos as ruínas de um muito antiquíssimo castro. “Retorta” – do arcaico, é um topónimo localizado em território de povoamento em época pré-romana – relativo a um acidente de direcção de um curso de água.

Mais… as cartas militares assim descreviam o sítio em questão: “Senhora das Vilas Velhas”. Quais eram essas vilas?

-Preijal / Castelinho / Castêlo / Sr.ª da Freixeda/ Lameirões / Deveza ou Rodela. Em todos estes lugares há vestígios de um ou outro vilar muito antigo.

“Santa Maria” bem como “S. Salvador” são os cultos mais antigos da península e da cristandade que recebem os povos das civilizações pós-castrejas, indícios comprovativos de povoamento e de agricultura.

Assim, de uma assentada, temos vestígios desde o neolítico até castreja fortificação mais tarde romanizada. Isto não é difícil de deduzir pois todo o nordeste transmontano está semeado de Castros. Uns mais importantes que outros. No nosso caso, podemos afirmar que o lugar de S. M.ª a Velha de Castelo Branco serviu de “cabeça” a povos das redondezas que aqui se concentravam (…por permitir na sua topografia local as condições naturais defensivas e de abastecimento requeridos pelos castros pré-romanos e aumentando posteriormente a sua fortificação). Mais tarde criaram-se os “Vilares Novos” distinguindo-se dos vilares velhos por motivos vários e óbvias razões. O período que se segue e o que mais importância dá ao lugar é a romanização que vai permitir o desenvolvimento do antigo Castro como “Fortificação Principal” e todo o aproveitamento dos recursos naturais envolventes, introduzindo e permitindo o conceito de “Direito Privado”, logo, a criação de “novas residências ou vilares”.

É neste contexto (com os romanos) que nasce o topónimo Castelo Branco. Eu sei que os Filólogos não se entendem com a origem de Mogadouro, Zava e… mas no nosso caso é diferente. O topónimo é próprio e acusa na origem o Castro / Roque / Castelo ou fortificação. Podemos discutir <Branco> por uma questão de cortesia à volta de uns tremoços ou amendoins como aperitivo, mas num topónimo composto, em que um étimo por sujeito denota acusativo logo se justifica o adjectivo/substantivo. É minha opinião que <Branco> vem da importância do Castro em relação aos demais existentes nas proximidades e que lhe estavam ligados por pertença. Ou seja, havia que distingui-lo! Reforço mesmo que até o tipo de pedra aplicado na fortificação do castro (pedra quartzito) contribuísse ao nome. Reitero… temos sorte sendo um topónimo próprio e evidente, mais tarde, com a reconquista cristã e aproveitando todos os cultos pagãos, uma vez que eram importantes locais de peregrinação (…aproveitamento para converter estes fluxos de povos à cristandade) houve invocação a Santa Maria, daí S. M. de Castelo Branco (todas invocações a S. M.ª substituem cultos pagãos).

Muita coisa sabemos sobre os romanos mas uma razão da sua permanência na nossa terra, bem como noutros lugares da Península, se deve ao seguinte que passo a fundamentar – devido ao avanço da ciência sabemos hoje que na fundição do ferro diminuindo os óxidos logo aumenta-se o carbono e daí resulta a perfeição do aço, isto é teoricamente, na prática, os romanos sabiam que na fundição do ferro adicionando outros minerais eliminavam as impurezas (óxidos). E só com prospecção de minério e experiências poderiam confirmar qual o melhor resultado e que eles obtiveram com a mistura de Volfrâmio, minerais abundantes e riquíssimos na nossa terra. Assim poderiam obter material bélico que não enferrujava entre batalhas, mais resistente e o orgulho na sua “espada”. Castelo Branco beneficiou com os romanos bem como outras terras. Mais tarde os caminhos foram utilizados, mesmo recentemente se construíram estradas nas antigas vias romanas. Outros antigos traçados desaparecerem por circunstância de despovoamento ou outro factor. Mas foi na idade média que melhor se aproveitou, quer no traçado quer nos seus alicerces… que o digam os rendeiros dos senhores comendadores do Mogadouro que muito imposto pagaram para reaproveitar e reconstruir pontes (não de raiz) e caminhos para que os patronos fizessem “o bonito” na corte em Lisboa.

Quanto às minas que os romanos exploraram… olhem nem sei que vos diga. Mais tarde serviram de deslumbramento a meia dúzia de famílias cuja riqueza extraída lhes permitiu “comprar” um eléctrico na cidade do Porto. Hoje são os veículos todo-o-terreno antes eram os eléctricos “amarillos” que estavam na moda (humor só para albicastrenses seniores e maduros…).

Vejamos outro exemplo de romanização em S. M.ª de Castelo Branco invocando a toponímia, aliás, muito importante em arqueologia:

Vale da Cã – (lat. Canale; arcaico “cãale”; conduta de irrigações, os romanos eram exímios nas irrigações, banhos e termas, assim temos “cãal” – canal ou canalização tosca que levava água à fonte (bastante abundante no local) e depois ao chafariz da MOTRETA. Já não há quem não se lembra (?) no local haver duas condutas no terreno contíguo ao chafariz que depois de descobertas foram mais tarde arranjadas e tinham todo o aspecto das condutas que os romanos usavam nas suas estâncias ou vilas (é caso para o albicastrense dizer: em vale da cã… água sã).

Ao lermos “As Religiões da Lusitânia” de Leite Vasconcelos verificamos que antes dos romanos, já por cá eram adorados vários Deuses, por ex: Endovélico! Nas primeiras escavações arqueológicas nesse primitivo lugar e que foi a estreia para o neófito arqueólogo (no concelho do Alandroal) descobriram-se estátuas romanas em mármore de uma beleza enorme, muito raras e, mais de oitenta inscrições latinas, quem diria, num local tão ermo como S. Miguel da Mota – o que poderíamos nós encontrar em Santa Maria a Velha de Castelo Branco se tal fosse possível?

Vale de Cambra, 28 de Fevereiro de 2011.

Manuel Carlos

02/03/2011

Carros de bois

Autor: Arlindo Parreira

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Quero lhes falar de como eram construídos os carros de bois e como eram úteis nas lidas, e afazeres da agricultura e do dia a dia da nossa terra.  Puxados por bois, vacas, machos, burros, etc.  estavam sempre presentes em todos os momentos da vida na aldeia.

Eram usados no transporte de tudo, no acarretamento de cereais nas vindimas, em todas as colheitas. É até difícil de acreditar nos dias de hoje, que eles foram os responsáveis pelo transporte dos materiais utilizados na construção das casas mais antigas feitas de pedra solta. Ao olharmos as propriedades de nossa terra, que na sua maioria, são rodeados por muros e paredes de pedra a delimitar os terrenos, também podemos ver a importância e  utilidade que eles tinham.  Naqueles tempos eram Indispensáveis na nossa vida.

Mas, não quero nomear tudo, com risco de ser cansativo, os mais velhos sabem bem do que estou a falar.

Ainda andava na escola com 11 anos e eu já tinha o bicho da madeira. Assim que saia da escola eu ia para a oficina do meu tio apanhar umas pontas de tábuas e caibros que sobravam para eu também fazer os meus projectos. Com a ajuda do meu primo e com as ferramentas do meu pai cortava pregava e, assim fazia os meus brinquedos em madeira, que até eram admirados pelos meus companheiros de escola

Moto de MadeiraCopiar O meu tio dava-me as rodas que eram peças que saiam das  dos carros e com elas fazia as motos como nós lhe chamávamos. Depois de pronta subíamos com ela ás costas até a Escola metíamos óleo ou azeite nos eixos para deslizar mais rápido e chegar mais longe possível. Depois era só mandar ver pela encosta abaixo. Quem chegasse mais longe ficava feliz por ter ganho a corrida. Sempre aconteciam uns  tombos mas isso era normal e dava alegria.

Como eu gostava de trabalhos em madeira o meu tio António Bernardino da silva e o meu primo Ernesto Silva convidaram-me par ir aprender com eles. Era o meu sonho e logo aceitei o convite,  pois meu pai também era do oficio mas já não trabalhava.  Com eles aprendi a fazer de tudo, carros, arados, jugos, charruas, barris para o vinho, cubas, portas, janelas, escadas. Tantas e tantas coisas uteis para os afazeres da terra como por exemplo os  teares onde eram feitas colchas de linho, tapetes, colchas. Prometo que ainda lhes falo dos teares e do linho mais tarde em outro artigo. São muitas lembranças.

Este inicio foi para recordar como tudo começou, porem que quero falar e como tudo isto era feito. Não esqueci  os nomes das peças e as medidas . Os jugos para os bois eram feitos de forma muito diferente pois que eles puxavam com a cabeça o carro e a charrua arado etc.. Além de especiais eram mais pesados e fortes diferentes dos dos machos por exemplo que eram mais leves que neste caso eram diferentes porque nos machos se usavam melei-as e os jugos tinham cavilhas.

Mas o carpinteiro não trabalhava apenas a madeira. Ele tinha que fazer as próprias ferramentas, como o compasso, arco de pua, enxós, graminho, plaina, machado, serrote, formão, e tantas outras. As peças de ferro das ferramentas de  corte eram feitas na frágua, ou na forja sobre indicação do carpinteiro.

A carpintaria era uma pequena indústria artesanal que desapareceu com o andar dos tempos, mas que merece todo o nosso respeito, primeiro por ser uma arte, e segundo pelo seu papel no desenvolvimento das nossas aldeias, vilas e cidades.

Os carros de bois que são o tema deste meu artigo muito usados em seus tempos áureos,  e sejam nos dias de hoje uma figura lendária, infelizmente hoje em dia só são vistos nos jardins das casas como decoração. Triste sina para algo que até muito pouco tempo atrás era quem punha Portugal em movimento. E  não podia parar, pois era sem nenhuma dúvida, o principal factor de desenvolvimento.

Diferentemente do que muitos possam repensar, o carro de bois que se apresenta como uma peça bastante rústica, pode ser considerada, como uma verdadeira obra de arte onde os cálculos são perfeitamente observados com muito rigor e precisão.

O carro de bois é composto de três partes. O par de rodas o eixo e a mesa. A matéria-prima para a construção do carro eram a madeira e ferro.

A madeira utilizada na construção das rodas era de freixo, que precisava estar bem seca e ficava anos armazenada no palheiro até curtir e secar completamente. No restante do carro utilizávamos a madeira é o olmo.

Na construção das rodas são utilizadas cinco peças em cada uma, que são: o meão, duas cambotas e duas arreias. O meão é a peça central da roda. A produção desta peça era a parte  mais importante. É ela que recebe o furo quadrado onde e fixado o eixo, por intermédio das respigas e demais parte das rodas. As cambotas que se apresentam como duas meias luas, são fixadas ao meão por intermédio das arreias que se unem, por intermédio dos furos abertos no meão e nas meias luas. As arreias constituem peças internas, não sendo visíveis depois da roda montada.

Cada roda completa-se com a aplicação do aro de ferro, que e fixado mediante a aplicação de pregos grandes chamados cravos de cabeça grande. O ferra das rodas garante maior resistência e reveste completamente a roda. Esta operação de colocar o ferro nas rodas a que chamávamos de engulhamento era feita na forja. O ferreiro aquecia as barras na forja bem ao rubro para facilitar a dobragem em circulo a medida das rodas, este dia era de muito trabalho era preciso malhar o ferro enquanto bem quente, os donos dos carros já encomendados este dia davam muita e  boa comida e muito vinho para ter força .

O eixo que une as duas rodas é constituído de uma única peça, que vai encaixar nas respigas do meão, levando uma cavilha por fora para não se soltar das rodas

A mesa é a parte mais complexa do carro a que mais exige simetria. São peças básicas da mesa. O cabeçalho é a maior parte da mesa, é construída de uma única peça em madeira de olmo sem nós, vai ser rasgada e dobrada no fogo para facilitar a dobragem, á medida que se vai dobrando são aplicadas as travessas onde vai ser aplicado o soalho, e as engarelas, os estadulhos e outros componentes, depende do trabalho que pretendem fazer.

As medidas variam de acordo com as encomendas: 

Mesa: comprimento 3 metros por 1,30 de largura.

Cabeçalho: 4,5 a 5 metros

Eixo: 1,65 de comprimento e 22 cent. De espessura

Roda: 1,20 de altura.

Pronto e acabado o carro pode transportar cerca de mil quilos, quando bem carregado ele canta pode ouvir-se a léguas de distância. Dá uma saudade do tempo em que os lavradores se uniam  no acarretamento dos cereais e ao chegar as eiras vinha aquela fila de carros cada um cantando de maneira diferente. Era a coisa mais linda, os carros chegavam a chorar, e os donos todos vaidosos por chegarem com as grandes carradas.

Os carros de bois costumavam trazer 30 pousadas, os dos machos 20 pousadas. Cada pousada tinha quatro molhos. O lavrador usava uma vara para guia dos animais, chamada de aguilhada, com um ferrão na ponta que era usada quando a marcha era lenta ou queria mudar de direção. Todos os animais tinham um nome, a maravilha a boneca a castanheira, o granjo o bandido, e até nomes  feios quando o animal era matreiro.

Entre as palavras mais utilizadas para os animais era Oooaaa! Que significa parar

Saudade e recordação, porem quando vejo um carro  abandonado é uma imagem que me  corta o coração

Arlindo Parreira

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