25/02/2012

O saber e o sabor do pão albicastrense

Autor: Isabel Cristina Pereira

Uma tradição que passou de mãe para filha durante tantas gerações e que agora perde a cada dia o saber e o sabor.

De manhazinha levantou-se a Maria, está frio mas o frio já é habitual nesta altura do ano, hoje é dia de cozer, e não há frio que a faça ficar quieta!

“O pão moderno não satisfaz a alma”, então a Maria pelo menos uma vez por mês mete mãos a obra e recua no tempo para fazer o pãozinho de outrora, do qual todos nos temos saudades, e eu se quero tirar as fotos que vos vou mostrar também tenho que madrugar, tenho que apanhar a Maria ainda com as mãos na massa ou estas fotos não teriam piada nenhuma.

É num pequeno forno de lenha, um dos poucos ainda existentes na nossa aldeia que a minha sogra Maria Pomares coze o seu pão. Espero que gostem e matem saudades! Eu por cá sou uma felizarda pois para além de ver como se faz, ainda tenho o privilégio de comer deste “pão caseiro” acabadinho de fazer!

Por :Isabel Cristina Pereira

(passe o mouse em cima das fotos para ler a legenda das imagens)

Acender o forno é tambem uma sabedoria a lenha tem que ser distribuida de forma igual e o forno não pode ser superaquecido ou o pão vai queimar antes de cozer.

na masseira começa a alquimia dos elementos: farinha, sal, fermento e agua se misturam com a sabedoria das mãos para dar liga e textura ao pao albicastrense

a massa fica em repouso e leveda lentamente coberta por lençois e mantas para que o frio que faz lá fora não a impeça de crescer e quadriplicar de tamanho

depois que a massa levedou começa a separação dos paes um a um são amassados e dada a forma final para voltarem a levedar individualmente antes de ir ao forno

depois que a massa levedou é hora de cortar e dar forma aos pães. Em seguida já dividida a massa em paes cresce novamente para levedar antes de ir ao forno.

hora de ver se forno está pronto para assar o pão. Um papel é jogado dentro se ele se incendiar é sinal que a temperatura está no ponto certo, caso não acenda hora de colocar mais lenha apra atingir o ponto. As pedras do fundo do forno tambem dão o sinal de que tudo está ok pela cor e pelo aspecto que assumem depois de aquecidas pela lenha   hora de colocar a massa para cozer no forno.

a massa começa a ficar dourada a medida que os pães vão cozendo no calor certo do forno, são pães de no minimo 1,7kg, é preciso cuidado em dobro nesta hora  Na frente do forno as bolas menores e que portanto assam mais rápido e precisam ser tiradas antes dos paes maiores

hora de saborear e celebrar com a familia mais uma fornada de pão quentinho. É so correr para o abraço

Outros artigos no blog sobre o pão albicastrense:

(clique nos títulos para seguir link)

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Nem só do pão, mas dos ... Ainda a fornada estava quente, a sair do forno, e quase metade dela já estava destinada para devolver os pães que tínhamos pegado emprestado de outras padeiras. Antes mesmos de sair do forno, os pães eram entregues ...

REVISITANDO CASTELO BRANCO: O moinho e o moleiro ... a existência de searas que forneciam o trigo e centeio para fabricar o bom e saboroso pão de Castelo Branco, cozido, em tempos idos, em fornos comunitários, por mãos hábeis de “famosas padeiras albicastrenses”.

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Alheiras as melhores do mundo  A boa qualidade do pão garante a combinação homogênea dos ingredientes e o resultado diferenciado de sabores consistência e aparência externa das alheiras. O pão caseiro de farinha de trigo ou centeio é o detalhe e o ...

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Merendas da Segada. Então ... O pão era confeccionado pela minha avó e pela minha mãe. Pão saboroso e largamente conhecido e afamado. Há que fazer jus a tal confecção, não fosse a minha avó a tão afamada padeira do chamado e conhecido “pão ...

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Serões na aldeia O pão que ela mesmo cozeu, as berças que já tantos anos não comia, os chichos da surça assados, milhos para nos lembrar que o Natal que se aproxima e os diospiros, única fruta neste tempo na nossa aldeia. Para mim foi ...

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Ao toque dos sinos Uma grelha aquece no braseiro da lareira enquanto espera as fatias de pão para torrar. Aos poucos os donos da casa vão chegando e, um a um sentam á roda do borralho. Filho vai lavar essa cara diz a mãe para o mais ...

Boa leitura e um forte abraço albicastrense

Luís Pardal

16/02/2012

“O carnaval na nossa aldeia “

Autor: Isabel Cristina Pereira

…Quem não quiser levar com farinha que tranque muito bem portas e janelas e por nada se mostre a rua…

Rosquilhas do entrudo. Casados os rapazes é hora de ir a casa das raparigas comer das rosquilhas e conhecer os sogros de uma noite apenas

Assim começa mais um dia de carnaval na nossa aldeia onde logo pela manha os rapazes com grandes sacos de farinha dão voltas por todas as ruas e casas atrás das raparigas. Nenhuma escapa ilesa se não se proteger, ganha quem mais raparigas conseguir enfarinhar e não só: quem conseguir enfarinhar a mais bem protegida aquela que se julgue melhor que as outras só por achar que talvez tenha melhor modo de vida ou se ache mais bonita, bem estas eram o premio mais cobiçado na nossa aldeia no dia de carnaval!

Depois de almoço eram as compras  no ”soto” do senhor Arnaldo para comprar um piaçaba, um bale ou um penico, chocolate em pó, rascas pés, e bombinhas.

Prepara-se o cortejo: os carros alegóricos são as carroças dos burricos que passaram o ano todo a trabalhar, neste dia não há trabalhos forçados para ninguém apenas brincadeira.

Com um carvão enfarruscam-se as caras daqueles que não se vestem de entrudo, no penico fazem uma mistura de água com chocolate, alguns sobem para os carros outros vão a pé, dão volta a aldeia animando os que ali estão.  Todas as pessoas que se encontram na rua são obrigadas a entrar na brincadeira, com o piaçaba molhado no chocolate borram-se os lábios de toda a gente e o cortejo lá vai. Ouvem-se gritos e risos das anedotas que alguém vai gritando alto e em bom som sempre relacionadas com tudo o que foi noticia durante o ano.

Para finalizar, o baile de fitas vem dar o tom da festa e nele as brincadeiras e a farinha continuam a marcar presença…

À noite quem não se lembra do atorrear no alto das figueirinhas, e dos casamentos de carnaval, da tradição do noivo ir comer as rosquilhas a casa da sua noiva?

De todos os rapazes solteiros da aldeia o mais velho encarregava-se de fazer de padre e do ponto mais alto e do local onde toda a aldeia pudesse ouvir fazia os casamentos, atorreava através de um grande funil ou para aqueles que ainda se lembram do famoso “embude.”

Faziam-se assim os casamentos que era nada mais do que casar todos aqueles que rodeavam o “padre “e sucessivamente iam pedindo a noiva que mais lhes agradava…

_Ôôôsenhor “fulano tal”, a sua filhaaaaaaaaaa já se quer casaaaaaaaaar… quem havemos de lhe dar para a sustentar?

E depois de uma breve pausa ele mesmo respondia a sua pergunta:

_Há-de de ser  ôôô “fulano tal…”que é capaz de a governaaaaaar!... é bom rapaaaaaaaz, é bom rapaaaaaaz…é bom rapaz e é

E assim se passava, até ao último rapaz, que só arredava pé quando finalmente soava o seu nome através do “embude.”

As rosquilhas trazem consigo a tradição das moças solteiras e o cortejo dos rapazes da aldeia em um ritual matrimonial de mentira. Afinal é carnaval ninguem leva a mal e tão pouco a sério o casamento. Maneira simpatica de antecipar os casamentos de verdade e de incentivar os solteiros a buscarem seus respectivos pares.Finalmente desciam todos do alto do monte e cada um se dirigia a casa da sua “mulher de carnaval” para a cumprimentar e comer as rosquilhas!

Lembro-me de um ano em que um rapaz ex emigrante que nunca tinha participado de um  dos nossos carnavais depois de casado  foi a casa da ”noiva” e ao ver o prato de rosquilhas que lhe puseram na frente começou a comer e comeu e comeu… que quase passou mal…As tantas quando não aguentava mais, disse a dona da casa:   - Desculpe mas não consigo comer mais…

De farinha com ovos e um pouco de aguardente elas ficam crocantes e saborosas, tem gosto de quero mais, tem gosto de mocidade. Quem as comeu no entrudo e casou nesses dias ficou com o gosto delas pela vida a fora. Fossem de verdade e não seriam tão saborosos os votos de casamento do entrudo. Só nesta altura é que a dona da casa percebeu que ele pensava que tinha que comer todas as rosquilhas que estavam num tabuleiro em cima da mesa. Este facto foi lembrado em tom de brincadeira  durante muitos carnavais. E até hoje relembramos deste rapaz que não vou dizer o nome não vá ele levar a mal…

Novamente se juntam na praça os rapazes, desta vez para enterrar o entrudo, um boneco feito de palhas que dá volta a toda a aldeia num cortejo fúnebre para finalmente ir descasar numa enorme fogueira, e assim se enterra o entrudo até pro ano se Deus quiser!

 

Por: Isabel Cristina Pereira

09/02/2012

O moinho e o moleiro

Autor: Margarida Gonçalves

moagem

A Peça que falta no puzzle

No Blog “Revisitando Castelo Branco, há já textos que referem a existência de searas que forneciam o trigo e centeio para fabricar o bom e saboroso pão de Castelo Branco, cozido, em tempos idos, em fornos comunitários, por mãos hábeis de “famosas padeiras albicastrenses”. Informa-se sobre algumas utilizações do pão na gastronomia trasmontana (alheiras, sopas “xizes”, sopas da segada…)

Refere-se até a existência atual de uma das 2 modernas padarias.

Após ter lido estes textos que me transportaram a saudosos tempos, senti que havia, no entanto, uma lacuna; faltavam peças neste puzzle.

Talvez caiba a mim, filha de quem sou, fornecer então mais uma peça que encaixe e complete a imagem retalhada das lembranças de outrora…

Foi essa a primeira mola que me impulsionou a escrever esta narrativa. A segunda mola, Arlindo Parreira de seu nome, falou-me um dia em que nos encontramos no chat, em escrever sobre o meu pai que era um bom homem (disse ele…e eu concordo totalmente, sem falsa modéstia). Aqui estou então, recordando, enquanto escrevo estas palavras que, não sendo um texto sobre o meu pai, será, inevitável fazer-lhe referência neste tema a que esteve tão intimamente ligado.

Talvez um destes dias, quando vir que mais ninguém o fez, eu escreva mesmo sobre o meu amado progenitor, mas deixo por hora o espaço para alguém que queira antecipar-se a fazê-lo.

Depois do trigo verdejar nas searas, dourar nos campos, ser ceifado por mãos calejadas, debulhado nas eiras ensolaradas e as suas partes (palha e grão) serem recolhidas no palheiro e nas tulhas, respetivamente, vinha a fase intermédia - mas não menos importante que todas as outras, pois sem ela o ciclo não se completaria e não haveria o pão quente saciante dos mais ávidos apetites.

A tal peça de que vos venho falar, tenho a certeza que nenhum de vós esqueceu: Havia em Castelo Branco uma moagem. Podemos ainda ver no local uns vestígios pouco significativos, uma vez que foi descaraterizada, funcionando atualmente como forno da S.ª Maria do moinho.

A moagem, ou moinho, como sempre lhe chamei e gosto de lhe chamar, foi primeiro pertença do Sr Dr. Virgílio Pimentel, meu padrinho, médico residente em Castelo Branco (sim, porque a nossa aldeia já teve médico, hoje é que não tem!)-que, necessitando de um moleiro, acabou por dar essa tarefa ao meu querido pai – Paulo Gonçalves que desempenhou com grande entusiasmo e também muitos sacrifícios, essa função, desde rapaz solteiro, até pouco tempo antes de ir ter com Deus. Penso que Deus precisava de um bom moleiro.

Desde que nasci e por alguns anos desta minha vida (não tantos como gostaria-pois ainda hoje queria que fosse realidade em vez de terna recordação) me lembro de ser meu pai o único moleiro de Castelo Branco e arredores.

Voltando um pouco atrás nesta narrativa…

Inicialmente a azenha era movida pela força da nossa ribeira, cuja água, correndo por uma agueira, descia abruptamente por uma cuba cilíndrica feita em granito, caindo com toda a força numas pás que, rodando, transmitiam a energia necessária às mós que trituravam os grãos dos vários cereais. Nunca o vi funcionar deste modo, mas sei que assim era porque muitas vezes o meu pai contava essas histórias de ter que estar alerta quando havia água, aproveitando para moer todo o grão que as freguesas lhe haviam confiado. Muitas noites em claro porque nem sempre a água era suficiente para imprimir força de rotação às pedras da mó.

Depois modernizou-se o engenho, aplicando-lhe um motor “Pachancho” a gasóleo que o fazia não depender mais dos caprichos da ribeira, mas somente do fornecimento de diesel – e isso era mais controlado pelo ser humano, o que tornou tudo mais fácil, não significando contudo, que deixasse de haver necessidade de fazer serões trabalhando no moinho.

Muitos avós, pais e mães dos leitores deste texto, fizeram inúmeras viagens, com os burrinhos carregados com trigo, centeio e milho ou com os sacos de linho à cabeça, para que o meu pai fizesse a magia de transformar o dourado grão em alva e fina farinha.

Muitos vinham de fora, de outras terras (Quintas das Quebradas, Figueira, Vale de Porco, Zava, Meirinhos, Vilar do Rei, S. Pedro…).

Enquanto esperavam ser atendidos, abrigavam os burrinhos debaixo do “cabanal” e davam muitos dedos de conversa com o moleiro. O meu pai que sabia ser calado, era também bom conversador e o tempo ia passando mais depressa entre conversas inofensivas e o “tiquetaquear” da máquina.

Tantas vezes traziam o seu farnel para saborearem ao sol, na companhia de meu pai, a quem, com prazer, eu levava o almoço. Não era o relógio que marcava o horário, mas sim o número de sacos de cereal e a distância que tinham que percorrer os clientes. Enquanto as mós rodopiassem, esmagando os grãos, o moleiro tinha que assistir, verificando, corrigindo, acrescentando trigo na tremóia, ou apreciando a maciez da farinha, que todos queriam que desse origem ao melhor e mais branco pão cozido:

- Sr Paulo, veja lá se o meu pão sai branquinho! – Era a frase constantemente repetida pela mulherada. Não sabiam elas que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” neste século XXI, se chegou à conclusão que o pão escuro é o mais saudável…e até mais saboroso, acho eu!

Na moagem não se fazia só farinha de trigo e de centeio. Na época de Natal, surgia um carreiro descontínuo de mulheres, alguns homens e até crianças, de todos os pontos da aldeia (e de fora), rumo ao moinho, com a sua fardela florida, feita de retalhos de chita, algodão ou linho, cheia de verdadeiro ouro em forma de grão, que depois de moído originava a farinha cor de sol, ingrediente primordial da sobremesa “milhos”, ainda hoje tradicional na mesa de Natal albicastrense.

E desta forma se completa o ciclo do pão, sendo para mim um orgulho ser filha de quem contribuiu em grande parte para “saciar a fome” a muitos …e ter ouvido, tantas vezes a cantiga:

Oh Margarida moleira

Dá-me da tua farinha

Ó i ó ai

Que a quero peneirar

Ó i ó ai

Com a minha peneirinha

Texto original de: Margarida Gonçalves (a própria Margarida moleira)

07/02/2012

SONHAR É FÁCIL

Autor: António José Salgado Rodrigues

SE BEM ME LEMBRO, também nos meus tempos de adolescência tive os meus sonhos:- Era Inverno, rigoroso Inverno, Janeiro desabrido e agreste. O dia amanhecera sob uma manta de neve, mas O SOL VAI SUBINDO NO HORIZONTE. Manuel Cancela, como de costume, parte um carolo de pão e um naco de queijo para matar o bicho a que junta dois golos e água – ardente para aquecer o corpo e já com o “sarrão” a tiracolo onde já se encontrava a merenda para todo dia, toma o cajado abre o postigo da porta, espreita para ver os astros e qual não é o seu espanto quando vê tudo vestido de branco e logo diz para sua mulher Teresa:

-Olha que está neve, deixa ficar o garoto mais um pouco na cama mas não tarda que o sol apareça, que eu vou já botar as canhonas e vou caras à “Solheira” que por ali a neve deve impeçar já a demover e o Jorge que me vá a ter lá pela Retorta.

Solta dois assobios pelos cães, o Farrusco e o Nero, e toca andar que se faz tarde. E O SOL VAI SUBINDO NO HORIZONTE. De caras à corriça, trepa pela neve e eu, envolto no meu sonho, vem-me à memória a Balada de Augusto Gil, E VOU OLHAR ATRAVÉS DA VIDRAÇA E VEJO UNS TRAÇOS MINIATURAIS DE UNS PÈZITOS DE CRIANÇA. - MAS AS CRIANÇAS, SENHOR, PORQUE LHES DAIS TANTAS DORES, PORQUE PADECEM ASSIM !Chegado à corriça, ainda ali se encontra o Fiel, que nem por nada larga as ovelhas e à sua chegada, dá duas abanadelas de orelhas e estremece o corpo para sacudir alguns vestígios de neve e lança-lhe as patas ao peito como que a desejar-lhe as boas vindas e chamar-lhe preguiçoso por já passar da hora.

Ó Fiel, já sei que tens fome, quita do “sarrão ”uma côdea bem untada e atira-lha para se desenjoar. E O SOL VAI SUBINDO NO HORIZONTE.

Porta aberta, ó melguinha, ó morena e tu carriça, vamos lá, ao mesmo tempo que as afaga com um nico de pão e todos partem “Solheira” adiante caras ao “Preijal ou Cabeço dos Mouros” e Capela da Senhora da Vila Velha. A pastagem não era grande coisa, era o que a natureza dava, dadas as condições e circunstâncias. O frio apertava um pouco e Manuel Cancela, de manta estendida pelas costas, traça-a para melhor se agasalhar e eu ainda envolto no meu sonho, lembrava uma lição que aprendi no meu livro escolar da 3ª.classe e que rezava assim:

“CAI A NEVE, COBRINDO COM O SEU MANTO A TERRA DESPIDA DE FOLHAGEM.

OS POBRES PASSARINHOS PIAM TRISTEMENTE.

QUANTOS SERES HUMANOS, TRANSIDOS DE FRIO, NÃO TÊM UMA VELHA MANTA PARA SE COBRIR, UMA CÔDEA DE PÃO PARA ENGANAR A FOME!

JUNTO AO LAR, NAS ALDEIAS OU EM APOSENTOS CONFORTÀVELMENTE AQUECIDOS NAS CASAS DA CIDADE, MUITA GENTE NÃO SE LEMBRA DE QUE OS DESGRAÇADOS CASEBRES, ONDE NÃO ARDE UMA BRASA NEM BRILHA UMA LUZ, SOFREM OS RIGORES DO FRIO E OS TORMENTOS DA FOME.

QUANDO GOZARMOS A ABUNDÂNCIA DA NOSSA MESA E O CONFORTO DA NOSSA CASA, LEMBREMO-NOS DOS INFELIZES QUE TRAZEM O CORPO MAL COBERTO DE FARRAPOS E NÃO TÊM UM BOCADINHO DE PÃO.

AO ALIVIARMOS A MISÉRIA, SENTIREMOS UMA INEFÁFEL ALEGRIA NA ALMA.

PARECER-NOS-Á MAIS BRILHANTE O LUME DO NOSSO LAR, MAIS DELICIOSO O ACONCHEGO DA NOSSA CASA”.

E O SOL VAI SUBINDO NO HORIZONTE.E o Jorge já caminhava caras às Pombinhas, sempre que podia pela margem edénica da ribeira, cantarolando canções inebriantes, apreciando aqui e ali o murmúrio da corrente, as gradações da paisagem naquele boculismo campestre e dizendo lá para si: Ai se fosse Verão, que rica banhoca…e eu, envolto no meu sonho, lembrava:

É UM REGALO NA VIDA

Á BEIRA DE ÁGUA

QUEM TEM SEDE VAI BEBER,

QUEM TEM CALMA VAI NADAR.

E o Jorge ouvia já os sons onomatopaicos de chocalhos presos a pescoços de lã do ganau. Dá dois assobios para que o pai desse pela sua posição já próxima e o pai diz-lhe alto e bom som para que fosse ter ao lameiro do Pomar do senhor Professor para aí comerem a bucha.Toca as canhonas monte abaixo caras às hortas do” Pintelho” e umas, mais atrevidas, querem invadir terreno proibido e ao mesmo tempo que ordena ao Fiel, vira lá, atira uma pedra para as fazer voltar, e eu ainda no meu sonho, lembro:

PALAVRA FORA DA BOCA,

È PEDRA FORA DA MÃO

PALAVRAS, …PENSA PRIMEIRO,

TIRAS-AS DO TEU CORAÇÃO.

E O SOL VAI SUBINDO NO HORIZONTE.A neve já tinha demovido completamente e atravessaram a ribeira para a outra margem e foram encontrar-se no lameiro. Todos reunidos, as canhonas vão satisfazendo o apetite, enquanto Jorge e pai escolhem um lugar abrigado do vento e solarengo para comerem a bucha, enquanto os cães também aguardam a sua refeição mais para enganar do que satisfazer a fome, mas Manuel Cancela atira-lhe umas boas côdeas bem untadas, e de seguida serve o Jorge com um bom pedaço de pão e chouriça e para ele uma côdea com bom naco de toucinho e às tantas pergunta ao filho como se tinha visto com a neve, ao que ele respondeu: Nada mal, vinha é com receio que vocemecê tropeçasse nalguma pedra escondida debaixo da neve e caísse e eu cá longe sem o poder socorrer.

Sentados cada um em seu calhau ajeitados à maneira, toca de comer que a barriga já estava a dar horas. E O SOL JÁ VAI DESCENDO NO HORIZONTE. Comida a merenda, ali ficaram um pouco e o Manuel, bem aconchegado, começa a “passar pelas brasas”, pelo que o Jorge,

sem que o pai desse por tal, levanta-se sorrateiramente e vai à drede ver como o gado anda e se os cães estavam de atalaia não surgisse algum lobo fazer-lhe uma visita indesejável. Dirigiu-se para junto do ribeiro que vem das” Chousas” e dá acesso ao monte do “Gil”, e ao aproximar-se de uma densa carrasqueira, fica hirto e estarrecido ao lobrigar já perto um corpulento lobo que descia o monte. Toca de gritar pelos cães, Fiel, Farrusco, Nero (que afitam as orelhas), olha lobo, ataca Farrusco…as canhonas apercebem-se do perigo e fogem desordenadas, os gritos do Jorge e o latido dos cães fazem que o Manuel acorde sobressaltado e clama pelo Jorge a saber o que se passa. Ó Pai, aplaque-se que os cães já o afugentaram amanhe lá as canhonas e vamos indo. E O SOL VAI DESCENDO NO HORIZONTE. Ó Jorge, para a próxima vez teremos que nos precatar melhor. E Jorge, chasqueando para o pai, que era afamado de bom pastor, “pois é, cria fama e deita-te a dormir”, eu e o Farrusco ainda fomos perscrutar-lhe o rasto mas nada conseguimos, vocemecê tem sorte é ter estes cães.Vá Jorge, vamos então pela borda da ribeira acima para que as canhonas se vão acabando de enfartar, E O SOL VAI DESCENDO NO HORIZONTE, que já quase toca o cume do cabeço do “Gil”. O Jorge à frente acompanhado do Farrusco, com as suas cucuias próprias da sua idade, ia à cata do melhor pasto, enquanto o Fiel e Nero acompanhavam o Manuel que ia também lobrigando as melhores pastagens para futuro pastoreio, ia cabisbaixo e dolentemente com o que lhe poderia ter sucedido. A tarde impeçava a surgir a passos largos. E O SOL VAI DESCENDO NO HORIZONTE, e a sombra já banha todo o caminho. Toca de apressar o passo. O povo aproxima-se e já se houvem os galos anunciando o anoitecer. A luz crepuscular esmorece e os fumos das lareiras começam a subir. Seguem já pelo Carrascal E O SOL ACABOU DE DESCER NO HORIZONTE. O sino toca às Trindades, anunciando a hora sacrossanta do Sol-pôr e o Jorge olha para trás e vê o pai tirar o chapéu por momentos e benzer-se; tira o boné e faz também o mesmo, com a convicção de afugentar rostos patibulares que parecem embaraçar-lhe o espírito, e como criança ainda inocente vai pensando no futuro que lhe estará reservado e como que com uma magia a iluminar-lhe o subconsciente, pergunta lá para o seu EGO, o que precisaria para ser uma criança feliz? E eu, ainda envolto no meu sonho, pareceu-me ouvir uma voz que dizia:

AMAR COMO JESUS AMOU,

SONHAR COMO JESUS SONHOU.

PENSAR COMO JESUS PENSOU.

VIVER COMO JESUS VIVEU.

E foi com um sorriso de Jesus que acordei e foi uma das poucas vezes que acordei FELIZ.

E ainda meio sonâmbulo vieram-me à memória, SE BEM ME LEMBRO, alguns pensamentos:

“AQUELE QUE VIVE CONTENTE COM A SUA SORTE PODE JULGAR-SE UM HOMEM FELIZ”.

“O VERDADEIRO SOL PARA UMA CRIANÇA É O SORRISO DE SUA MÃE”.

“A TRISTEZA FAZ-NOS VELHOS ANTES DA VELHICE”.

“SE QUEREIS EVITAR O REMORSO, PRATICAI CONSTANTEMENTE A VIRTUDE”.

“UM CORAÇÃO DE CRIANÇA DEVE SER TÃO PURO COMO O LÍRIO, TÃO CLARO COMO O ORVALHO, TÃO VERDADEIRO COMO O ESPELHO, TÃO FRESCO COMO A FONTE, TÃO ALEGRE COMO AS AVEZINHAS DO BOSQUE”.

“NÃO TOMES DECISÕES QUANDO ESTIVERES ZANGADO”.

“NÃO ACREDITES EM TUDO O QUE OUVES E NÃO DIGAS TUDO O QUE PENSAS”.

“HÁ COISAS NA VIDA QUE NUNCA PODERÃO SER RECUPERADAS: A PALAVRA FALADA – O TEMPO QUE PASSOU E AS OPORTUNIDADES”.

“NÃO TE ENVAIDEÇAS DO QUE SABES; - MAS REPARA SEMPRE NO QUE DIZES”.

(Os personagens e locais referidos são pura coincidência com a realidade)

(Forte abraço do António José Salgado Rodrigues)

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Matança

Autor: Isabel Cristina

Uma das tradições que ainda continua viva em nossas aldeias é a matança do porco no inverno.  Atividade que reúne amigos, familiares e  que permite saborear os pratos típicos e exclusivos da ocasião.

 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 01Matança do porco, em castelo branco mogadouroMatança do porco, em castelo branco mogadouro 02 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 03 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 04 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 05 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 06 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 07 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 08 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 09 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 10 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 11 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 12 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 13 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 14 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 15 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 16 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 17 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 18Matança do porco, em castelo branco mogadouro 30Matança do porco, em castelo branco mogadouro 20 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 21 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 22 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 23 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 24 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 25 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 26 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 27 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 28 Matança do porco, em castelo branco mogadouro 29

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