06/02/2011

Telefone sem fio

Autor: Luis Pardal
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Passei muitas horas a brincar por perto da vinha que tínhamos no alto das figueirinhas. Enquanto meu pai e minha mãe cuidavam da lida das parreiras, lá ficava eu, pelos campos a matar o tempo do jeito que sabia e podia. Dizem na nossa terra que o trabalho do menino é pouco, mas quem o perde é louco. Porem tudo a seu tempo, há uma idade com a qual não se pode contar e em que na verdade a presença da criança só atrapalha nos trabalhos árduos que só exigem força e desenvoltura.
Assim para não complicar e nem dar trabalho, normalmente ou eu fazia artes ou inventava alguma coisa para me entreter. Eram brincadeiras simples de carrinhos com bugalhos, latinhas de sardinhas vazias da merenda eram perfeitos carrinhos e atrelados de tratores, ou então, com a minha navalha palaçoulo, de ponta e garfo, fazia um arado de um gancho de galho de amendoeira e pronto, tinha diversão para muito tempo. O fruto não cai longe da arvore, gostava de imitar o meu pai a lavrar a vinha. Sentado perto do caminho em alguma sombra fazia uma hortinha com a poeira e nela lavrava com meu arado até que me enfadasse.
Mas tinha a brincadeira preferida da qual não me cansava. Ao lado do caminho das figueirinhas passava uma fila de postes, da linha de telefone que ligava nossa aldeia com a rede nacional de telefonia dos CTT.
Impressionante como ainda me lembro do cheiro da madeira tratada dos postes. Gostava de me abraçar e de encostar o ouvido. Ficava assim imóvel e a minha volta tudo parava também. Quase sem respirar para ouvir melhor, me esquecia e perdia a noção do tempo.
Os postes com o rigor das estações ficavam lisos e sem farpas, era bom encostar o ouvido e ficar a escutar. Nesses momentos minha mente de menino passeava para longe, muito longe, a seguir os fios.
Quando o vento soprava o poste e os fios vibravam e começavam a falar. Eram sons que pareciam vozes e que enchiam meus ouvidos atentos de menino curioso. Imaginava que eram as ligações a passar, com muitas pessoas a falar ao mesmo tempo. Por vezes, as palavras ficavam mais altas e parecia que e que estavam a gritar uns com os outros. Outras, eram vozes a falar baixinho, ou ficava tudo mudo, sem vozes, sem sons, apenas o silencio. Mas também, trazia, murmúrios, sibilos, lamentos, gritos, risos. E eu queria escutar tudo sem nada perder. Sempre a tentar entender o que diziam... Sentia o vento vibrar e ficava ali a espera.
Outras vezes era eu a ligar. Falava com meus amigos que estavam na aldeia a brincar nas ruas, ou ligava para minhas irmãs e irmãos que moravam longe. Eram ligações internacionais para o Brasil. - Estou, ta lá? - Olá Gabriela é o Luis. - Sim estamos bem! - Olha nasceu o vitelo da minha vaca castanheira. E assim ligava para cada uma das irmãs que moravam longe. A Amélia o Zé e a Guilhermina em Lisboa, a Dulce no Barreiro, A Ilda na França. Meus telefonemas eram longos em monólogos intermináveis. Contava das coisas simples do viver na aldeia. Das cerejas que amadureceram, dos ninhos que descobri, das canas que peguei nas festas, das aulas, da escola, das varas de amendoeira e marmeleiro da professora.
O poste ouvia tudo o que dizia e as vozes também. Depois sozinho e cansado da espera, eu voltava para os meus pais um tanto desiludido, porque nunca recebia de volta as respostas das pessoas com quem eu falava.

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