13/04/2015

Dia de fazer o folar

Folar feito no forno da Amélia há alguns anos Ó Tia Maria, se ainda não o fez já é hora. Falta pouco para a páscoa e a esta altura, a fila nos fornos da aldeia já deve estar grande! Tem outras mais ligeiras que chegaram primeiro. Afinal quem de trás anda diante se queixa. - É ou não é tia Maria? Mas sempre tem lugar e cabe mais um .
Pegue logo as giestas e escovas secas para esquentar o forno, podem ser galhos de oliveira que também sevem bem pra isso, se a senhora limpou as suas deve ter alguma lenha.
O fogo da lenha para preparar o folar, no forno da AméliaBote também na lista, tudo o que tem que levar para o forno: mantas, lençóis de linho para levedar a massa, farinha de trigo, ovos, azeite, salpicões, lingüiças, presunto. Diga-me se esqueci de alguma coisa? Hoje é dia de por as mãos na massa e fazer o folar. Páscoa sem ele em Castelo Branco não tem vez.
Se não tiver mais lugar, não fique parada, vá lá falar com a Amélia ou a Guilhermina que as duas têm forno e vão gostar de poder dar uma força. E se já esqueceu a receita, peça que elas sabem como se faz um ótimo folar. A receita delas é das boas.
O folar pelas nossas terras é o pão da Pascoa, um alimento ancestral, que combina com maestria o ritual cristão com a alquímica da água , azeite, sal, ovos e farinha de trigo. Representa a saída da quaresma, do jejum e abstinência que o rito católico prescreve.
A tradição do folar tem como base um ritual de partilha, solidariedade e confraternização, bem enraizado na gastronomia popular que se perde no tempo e profundamente carregado de significado simbólico e religioso. Existe neste ato uma ligação muito forte entre o folar e o pão que Jesus repartiu com os discípulos na última ceia e a celebraçlão do renascimento e Ressurreição do dia de Páscoa. Na segunda feira de Pascoa o Padre visita as casas para tirar o folar. A benção das casas, o pagamento do dizimo, podem ser considerados um verdadeiro elo de união entre o Terreno e o Divino pela carga simbólica que representam.
É também a oferenda aos afilhados pelos padrinhos. Não vão esquecer dos seus.
Na nossa terra o dia da Páscoa e da visita pascal são dias de muita alegria e festa que não se esquecem jamais.
Falando em não esquecer. Avisem a malta nova que é tradição tocar o sino de meia noite de sábado aleluia. Vai que já se esqueceram... O padre não liga!
Quero deixar um forte abraço á minha madrinha Dometilia e meu padrinho Luiz.    Uma feliz Pascoa para todos!!!

Nem só do pão, mas dos fornos…

Autor: Arlindo Parreira
MAIS UMA CRÓNICA DO ULTIMO REGEDOR DE CASTELO BRANCO
carta do regedor
Vamos voltar no tempo para Castelo Branco dos anos 60, hoje que quero lhes falar dos fornos de nossa aldeia. Isto para complementar o que o Luis Pardal falava dos moinhos. Nestes tempos havia em Castelo Branco mais ou menos uns 20 fornos de cozer o pão e umas 50 padeiras. Quase todas as famílias coziam o seu, e visto que as famílias eram numerosas, em média de 5 a 7, filhos imaginem a quantidade necessária para alimentar tanta gente.
Chegou um tempo, em que a lenha era um produto raro e difícil de se encontrar, as terras estavam todas cultivadas, e a lenha que se arranjava da limpa das oliveiras, poda das vinhas, etc; não era suficiente para tantas fornadas de pão. As giestas e estevas sempre foram uma alternativa, boa, barata e eficiente para esquentar os fornos. Mas, diferente de hoje, que as há por todo lado, quando se precisava delas tinha que se ir para a serra ou em lugares distantes da aldeia.
Os empregos eram na lavoura, trabalho puxado, que exige do corpo esforço constante e força física, e para aguentar só com uma boa alimentação. O pão, para nós albicastrenses, sempre foi a base. Portanto havia que dar de comer a toda a gente e sem pão até o melhor cabrito assado com o melhor vinho fica sem gosto. Somos grandes apreciadores de pão.
A maioria das nossas padeiras, coziam também para fora para abastecer as aldeias vizinhas e a Vila de Mogadouro. O pão de nossa terra sempre foi famoso e a fama de nossas padeiras maior ainda. Mulheres da pá virada, fenomenais no sentido da palavra , tinham a mão certeira e sabiam fazer o pão como ninguém, autentico pão dos céus. Porem era uma vida sacrificada.
Quase todos os fornos eram alugados, e tinham custo para lá fazer o pão. Por exemplo, cada vez que se fazia uma fornada pagava-se um pão pelo uso do forno. No forno do Dr. Virgilio, por exemplo, ele substituiu o pão pelo pagamento em farelos visto que ele os utilizava para alimentar os animais. Mas pagando em farelos ou em pão, sempre se tinha que pagar pelo uso do forno. E era uma boa maquia... Cada fornada dava em média uns vinte grandes pães, sabem bem como são enormes os pães de nossa terra, nunca vi de tamanho igual em outros lugares.
Ainda me lembro muito bem, dos dias de forno e fornadas de pão da minha mãe e de um fato interessantíssimo da solidariedade do povo de nossa aldeia. Ainda a fornada estava quente, a sair do forno, e quase metade dela já estava destinada para devolver os pães que tínhamos pegado emprestado de outras padeiras. Antes mesmos de sair do forno, os pães eram entregues para as vizinhas e padeiras que tinham emprestado pão para nós. Em poucas horas se acabava! Por outro lado quando cozia uma das famílias a quem tínhamos emprestado era nossa vez de ir ao forno buscar o pão que fora emprestado. Todos unidos era mais fácil, e pensando bem, nosso povo é sábio, desta forma, todos tinham pão quentinho e fresco, em casa, toda a semana.
Um outro detalhe muito interessante das tradições mais bonita que já vi de nossa aldeia e das rotinas das lidas do forno das, era de que a padeira que usava o forno sempre deixava, na masseira, uma medida de massa com fermento para a padeira que vinha a seguir. Isso é que era pensar nos outros, um ciclo virtuoso de boas ações que a todas beneficiava.
Quem tinha filhos pequenos fazia uma bola para os mais novos. Era um presente esperado com muita alegria e entusiasmo. Eram tempos difíceis e muitas vezes não se tinha outra coisa para dar além de uma boa de pão. Mas, como eram maravilhosas as bolas de nossas padeiras. Meu filho Domingos, por exemplo, sempre ganhava a bola da tia Marquinhas, mulher do Sr. Nascimento, um grande alfaiate de nossa terra. Até hoje ele fala disso com muita saudade e consideração.
Do que não sabiam ainda a respeito das andanças do Regedor é antes da carreira de homem público e representante do poder, ele foi um grande e experiente vendedor de pão. Sim, podem crer, e também lhes vou contar como era o oficio e os truques para se vender muito pão.
Eu e a minha irmã íamos a vender pão, a Vale Verde, quase sempre aos Domingos. Era uma aldeia grande, onde não se tinha boa água para fazer o pão e, como tínhamos lá bastante família isso nos ajudava a firmar a clientela.
Como sabem, nos negócios a aparência conta muito. Tínhamos que preparar tudo nos “trinques”. Assim os nossos machos eram escovados e as albardas enfeitadas com tapetes feitos no tear. Mais tarde ainda lhes falo dos teares ou se alguém quiser adiantar o assunto, pode começar já, também é bom ouvir as histórias dos outros, não vá eu a ficar aqui a falar sozinho.
Machos arrumados e albardados a caracter, era hora de nós nos vestirmos também com a melhor roupa. Parecia que íamos para uma feste de tão pimpões que ficávamos. E os preparativos para agradar a clientela não paravam por aí, como lhes falei eu tinha meus segredos de venda. O pão era transportado dentro de uns sacos de linho branco, alvejados e corados nas lameiras da ribeira, relampejavam ao sol de tão alvos. Por sua vez os sacos iam dentro de alforjes muito bonitas, bordadas e com umas franjas. Era tudo muito limpinho para deixar as clientes felizes e garanto que elas adoravam pois sempre nos davam uma merenda. Vender pão era um divertimento, mas a atividade servia para levar noticias e manter as as pessoas informadas sobre as novidades de cada uma das aldeias. A cada casa que íamos vender lá perguntavam por todos: - olha a meu primo já voltou da tropa? E a vaca da minha sogra ainda está com o leite empedrado? Assim de porta em porta repetíamos os assuntos vezes sem fim. - Leva lá um recado prá minha prima: Ve se não esqueces de mandar os cem mil reis que te emprestei nos gorazes. E outra ficava perguntando: Olha, a minha irmã já teve a criança? Como podem ver ser padeiro era uma atividade jornalística e de caracter social.
Na hora de cobrar, era um novo trabalho, porque como sabem não é só vender, tem que se saber cobrar para o negócio dar certo. Mas nessas horas, confesso que não era tão bom cobrador como vendedor. Sim é verdade, e minha mãe que o dizia, nessas horas era sempre o coração que falava e, o coração nem sempre é o melhor negociador. Sinceramente, tempos melhores de se viver, e o que não se ganhava em dinheiro voltava em dobro em amizade e simpatia. E assim uns pagavam em dinheiro outros com cereal e outros com o que podiam, e se calhar nem pagavam nunca. Pronto ficava fiado, e daí?
Assim como minha família outras também fizeram da atividade de padeiro o sustento e iam a vender pão para outras aldeias, quem souber que fale.
Via de regra quase sempre o pão era transportado no lombo dos animais de carga, machos, mulas, e burros. Os burros eram rápidos e seguros, além de que naquele tempo havia por lá muitos.
Falavam no nosso povo que uma padeira que ia para Meirinhos, foi assaltada perto da Corte Grande por dois fugitivos da justiça. Ao verem que ela passava fizeram-na parar e pediram dois pães para matar a fome, mas que iriam pagar. Não lhe fizeram mal só lhe recomendaram e pediram para não dizer nada a ninguém.
Os fornos também eram e ainda servem para os famosos folares, ou para assar uns cabritos.
Neste meu relato faltou dizer que o trabalho das padeiras no forno era quase sempre feito de noite porque de dia tinham que trabalhar no campo. Ou seja as mulheres de nossa terra, faziam na maioria das vezes uma jornada dupla ou tripla de trabalhos se acrescentarmos a isto a lida com os filhos e maridos. Jornada esta que poucas vezes foi reconhecida e valorizada.
Mas sabemos do valor de nossas mulheres albicastrenses. Assim e deste modo, quero deixar um louvor muito especial para todas elas que sem dúvida são: as MULHERES mais especiais do mundo inteiro.
Tantas coisas para contar, e falta tempo, juntem a estas lembranças as vossas. Vamos dizer aos mais novos o que era a vida da nossa aldeia anos atrás e sobretudo mostrar para eles o berço de onde herdaram o que são hoje.
Um forte abraço do Regedor, até breve.

21/03/2015

Um lugar no paraiso

Tive que partilhar esta descoberta de hoje, a caminho de uma reunião de trabalho,
no Município de Rodeio, Sc. São quase 11 km de estrada de macadame para chegar na Tirolesa onde seria minha reunião. Um belíssimo passeio que recomendo fazer em dias de sol e sem chuva. A cada curva da estrada um cartão postal nos surpreende. No meio do trajeto encontrei esta marca construída ao longo de muitos anos por um grande homem. Tive que parar para olhar e fotografar e ficar sem palavras e sem folego diante da paz que se sente como se fosse um objeto ou algo físico.
Ao pesquisar no google descobri que este jardim tem um criador, o Sr. Paulo Notari, um hábil e determinado morador que transformou a estrada em um caminho do jardim do Éden. Ele mesmo diz que “em certo momento de sua vida ao olhar tamanha beleza pensou que ali onde morava era o jardim do paraíso”. E no seu olhar simples de apaixonado viu que faltavam apenas as flores para emoldurar este belo quadro. Lembrei do verso de Fernando pessoa: “ Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” . E se pensou melhor fez, pôs mão na enxada e iniciou voluntariamente a missão de plantar 9 km de hortênsias, de um lado e outro da estrada que passa diante de sua casa.Mas ao ver tudo florido novamente pensou, ainda falta algo, de novo pôs mãos a obra: criou um molde e reproduziu 64 anjos brancos, os primeiros são de mármore, e os demais de concreto, e não podia deixar de ser, todos os anjos seguram em suas mão um buquê de hortênsias azuis. Foram nascendo um a um e ele os dispôs espalhados ao longo da estrada e dos morros. Ainda faltava algo pensou e para finalizar segunda parte de sua obra, criou um ponto de encontro, no centro do caminho, bem ao lado de sua casa, com um Cristo Redentor de braços abertos, que nos surpreende depois de passarmos pelos anjos. Este pedacinho do céu fica no Alto Ipiranga, próximo a Rodeio, na transição entre as partes baixa e alta do Circuito Vale Europeu.Este pedacinho do céu fica no Alto Ipiranga, próximo a Rodeio, na transição entre as partes baixa e alta do Circuito Vale Europeu. Se forem por lá podem dar sorte de encontrar o Sr. Paulo...

Foto de Luis Pardal.

Foto de Luis Pardal.

Foto de Luis Pardal.

Foto de Luis Pardal.

Foto de Luis Pardal.

27/02/2015

O Ti Pauzinho.

 
Talvez sejam poucos os que ainda se lembram dele. Na verdade nem eu me recordo muito bem. Partiu quando em tinha de quatro para cinco anos e, o tempo já apagou da memória as imagens das feições e traços. Restaram as marcas dos feitos e da personalidade, destes sim, eu confesso, que me lembro muito bem.
Impressionavam nele a força, a determinação e a vontade de vencer.
 

Ti Pauzinho.

O apelido veio do aspecto magro e fino, que lembrava um galho seco “pauzinho”.
A fome e necessidades deram-lhe a aparência e o nome, mas fizeram também a têmpera do caráter, da vontade férrea e teimosia.
 

O homem tem a medida do seu sonho.

Não é a origem nem a falta de sorte que traçam o destino, são as ideias ou a falta delas. Assim o objetivo que traçamos para nós mesmos e a força que colocamos na determinação de alcançar a meta, são determinantes para o resultado de toda uma existência.
 

O sonho de um homem

Artigo: Luis Pardal
Ribeira das Pombinhas em Castelo Branco Mogadouro

Até hoje quero crer

que ainda se podem ouvir os estouros de fragas a ecoar por todos os montes e vales das pombinhas. Pelo menos, sempre que vou por lá, ainda sinto a terra tremer e escuto o rugir das explosões repetido pelo eco, como se fosse uma trovoada a chegar.
 
Acredito que isso não ocorre só comigo, mas com todos os que por ali passam e param por alguns instantes com os ouvidos alertas, na escuta. Se lá forem, e eu recomendo que vão! Parem um pouco á espera... Fiquem de ouvidos bem abertos! A qualquer momento, vão ouvir e sentir também.
 

Mas, não, não se assustem,

não é trovoada, tão pouco precisam chamar Sta. Barbara ou São Bernardino, estão seguros! O lugar é de calma e de paz!
Quando lá forem, quero que me contem o que se passou por lá. Fica desde já combinado, trato é trato, quem escutar vai ter que contar aqui.
 

De qualquer modo,

vale a experiência de um passeio maravilhoso para se fazer no fim da primavera, ou no começo do verão. Sair a pé, ribeira abaixo, pelos caminhos e ribeiras até as cardanhas, é imperdível. Passem por lá!
 

Nas fragas ainda se podem ver

alguns dos buracos abertos para rebentar as pedras e que não foram utilizados com pólvora e estopim. Impressiona muito ver tudo isto. Estas marcas fazem olhar e refletir como a natureza humana e a força de caráter são capazes de superar todas as adversidades e limitações. Um exemplo de vida, que incentiva.
 

Por mais que a vida

e natureza teimem em nos colocar dificuldades e desafios, se tivermos fé, força de caráter, vontade e determinação de vencer, não haverá dificuldade grande o suficiente para nos deter ou desestruturar.

Mas entendam porque lhes digo isso...

23/02/2015

Demografia

 

Visão de 1864 a 2011

Castelo Branco é uma freguesia portuguesa do concelho de Mogadouro, com 54,57 km² de área e 449 habitantes (2011). Densidade: 8,2 hab/km². Integrada no concelho fica situada a 12 km para sudoeste da sede concelhia, acesso pela EN 221. Situa-se a Norte da Serra de Lagoaça e perto da margem direita do rio Douro.

Evolução do numero de habitantes

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A população em 2011

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Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_Branco_(Mogadouro)

22/02/2015

A retorta

Capela da vila velha por cima da retorta 

No São Bernardino,

o verão começa a aparecer junto com as cerejas. Quando pintam é o sinal de que a primavera está para sair é o verão a dar sinais. Os trigais ficam pálidos e o verde vivo, vai dando lugar ao dourado, nos tons das espigas a amadurecer e da erva a secar nos montes. Os campos enchem-se, com os sons das cotovias, e dos “chincha-la-raiz” enamorados, ocupados em se acasalar, ou em fazer os ninho. O cuco chegou cheio de vontade, este ano, e anda pelos ares, atendo á vida alheia, para ver se arruma casa e lugar para por os ovos e deixar os filhos para criar com as mães enganadas.

Por todo o lado,

uma sinfonia de sons e de aromas , cigarras, cucos, gaios, rolas, melros, pardais, bandos de pintassilgos. Voam e cantam felizes por cima de quem passa e deixam os campos repletos de uma trilha sonora encantadora e perfeita: uma "sinfonia de pássaros". As perdizes e os perdigotos espalham-se pelos caminhos, e confundem quem passa como se fossem pedras a correr em fila.

As aulas na escola,

depois da festa, começam a ficar pesadas e as horas intermináveis. Mas apesar disso e para compensar, os dias já são mais longos, e sobra mais tempo para os jogos na praça. Ao fim do dia ouve-se os gritos dos rapazes a correr á volta das casas a brincar ao tiro-liro ou a voltar de jogar á bola nos lameiros do chafariz, ou das eiras.

 

Naquela época

eu guardava vacas. Sim vacas. Eram três, a Mimosa, a Castanheira e a Picolina. Outro dia falo da origem dos nomes, isto porque é muito interessante saber desta origem, tem seus motivos, e podem crer vale bem a pena escrever uma crónica para lhes contar.

O ferrador

umas no cravo e outras na ferradura. Considerada por muitas pessoas um amuleto ligado à sorte e felicidade, acredita-se que a ferradura protege contra mau-olhado e desgraças. Ela está ligada a uma crença que vem desde a Grécia Antiga: os gregos tinham o ferro como um elemento que afastava o mal e acreditavam que a Lua Crescente afugentava a infertilidade e a má sorte.

Ti Zé ferrador era um homem de hábitos certos e seguros. A cada domingo depois da lua nova chegava  na aldeia cedo, antes de aurora, a cavalo em um macho amarelo, tão velho e desbotado pelo sol, que seu aspecto descolorido e pálido contrastava com os arreios, a albarda e as alforjas vistosas, sempre limpos e impecáveis como o dono que vestia  uma jaqueta riscada e camisa branca.  Uma figura de respeito este Ti Zé.

13/02/2015

Jarra de vinho

Castelo Branco, Mogadouro: jarra de vinho

Não tenho a medida certa nem o valor da sede. Com quantas jarras se seca o pipo…

Era noite de entrudo, e os cepos ao lume a apagar na cinza, encostados ao murilho de cantaria, com remelas das brasas cansadas, reluziam sem força, amedrontados por estarem a chegar ao fim.

Na tremula e pálida luz da candeia, o Alcides, arregalava os olhos na escuridão, como que para ver melhor os pensamentos.

De tempos em tempos, em cadencia incerta, levava na boca o caneco de barro, e engolia em seco o vinho com apressada sofreguidão a tentar afogar as magoas.

Casaram a Maria, com o Joaquim da fonte! Arre conho…

12/02/2015

Vila Velha

 

Ha muito tempo por ordem Del Rei, Dom Dinis, três frades da ordem Beneditina, chegaram a estes lados para pastorear o rebanho, das almas dos cristãos, que ocupavam as terras reconquistada dos sarracenos.

01/02/2015

Mais um “sitio.com” albicastrense

 

As crônicas e registros fotográficos do olhar atento do conterrâneo, Isaias Cordeiro, enriquecem desde o dia 10/07/2012 as paginas de mais um blog com DNA albicastrense. Uma iniciativa que sem dúvida vai contribuir com as demais já existentes, na missão de manter acesa a chama das tradições e cultura, valorizar a história, e  registrar as mudanças nas paisagens, gentes e geografia albicastrense.

Parabéns pela iniciativa.

Clique aqui para seguir link de mais um blog albicastrense

31/01/2015

Imagine voltar pra casa depois de 60 anos

Imagine voltar pra casa depois de 60 anos. Conheça a linda história do sr. Antônio, um imigrante português que morou no Brasil a vida toda. 

31/12/2014

E viva o novo!

Já pra lá vão alguns anos que por aqui não venho...

Andei ocupado e com afazeres que me tomavam o tempo que tinha disponível. Nasceu minha piquena e foi necessário olhar pra cá em vez de lá. Senti que também era hora, de parar um pouco,  para descansar e, repensar o propósito deste blog.

Volto com a convicção de que esta lavoura é singular e pessoal. Por estas linhas farei meus sulcos na terra das minhas lembranças para avivar meu respeito e saudases por minha terra e suas gentes.

Forte abraço.

Feliz 2015!

01/11/2014

Luz do dia


Luz do dia a nascer. A geada ainda branca nas cortinhas, brilha com os raios de sol ralampejando no ar fagulhas de aurora.

Perfume de insenso no ar das giestas acesas no lume das lareiras .

Nasce o dia..

 

Ditados antigos mas sempre atuais.

Participação especial: Ricardo Pereira

'Quando a besta é reles quem lhe vale são os arreios`
'Raposa vestida de chita raposa é, raposa fica´
DITADOS SOBRE VINHO E VINHA:
'À mulher e à vinha o homem dá alegria.'
'Antes de casar, arranja casa para mo¬rar, terras para lavrar e vinhas para podar.'
'Ao pé da silveira padece a videira.'
'A quem tem mulher formosa, castelo na fronteira e vinha na carreira, nunca lhe fal¬ta canseira.'
'A seu tempo vêm as uvas e as maçãs maduras.'
'Com o tempo maduram as uvas.'
'De boa cepa a vinha e de boa mãe a fïlha.'
'Muita parra, pouca uva.'
'Mais guarda a vinha o medo que o vinhateiro.'
'Dia de S. Tiago [25 de Julho] vai à vinha e acharás bago.'
'Em Fevereiro chuva, em Agosto uva.'
'Em dia de S. Lourenço [10 de Agosto] vai à vinha e enche o lenço.'
'Nem mulher casada, nem vinha vindimada.'
'Uvas, pão e queijo sabem a beijo!'
'Quando a raposa se zanga com a vinha, muitas uvas se poupam.'
'Poda tardio, semeia temporão, terás vinho e pão.'
'Podar em Março, é ser madraço! '
'Oliveira do meu avô, figueira a de meu pai, vinha a que eu puser.'
'No S. Tiago [25 de Julho] pinta o bago.'
'No S. Mateus [21 de Setembro] vindimam os sisudos e semeiam os sandeus.'
'Nem por casa nem por vinha cases com mulher mesquinha (parida)'
'Com pão e vinho anda-se caminho.'
'Agosto madura, Setembro vindima.'
'Ainda que entres na vinha e voltes o gibão, se não trabalhares, não te darão pão.'
'Chuva no S. João talha o vinho e não dá pão.'
'Chuva de S. João tira o vinho e o azeite e não dá pão.'
'Carne que baste, vinho que farte e pão que sobre.'
'Cada cuba cheira ao vinho que tem.'
'Bom vinho, má cabeça!'
'Bebe vinho, mas não bebas o siso!'
'Azeite, vinho e amigo, o mais antigo.'
'Ao que vai à adega, por vez se lhe conta, beba ou não beba!'
'Ao menino e ao borracho, põe-lhes Deus a mão por baixo!'
'Ao bom comer ou ao mau comer, três ve¬zes beber!'
'Amor de rameira e vinho de frasco, pela manhã é bom, e à noite gasto.'
'A mulher, o estudo, a experiência e o vinho mudam a natureza do homem.'
'A mulher e o vinho tiram o homem de seu juízo!'
'Afoga-se mais gente em vinho do que em água.'
'Mais vale pão e água com amor que vi¬nho bom e galinha com dor.'
'Maio frio, Junho quente, bom pão, vinho valente.'
'Homem atrevido, odre de bom vinho e vaso de vidro duram pouco.'
'Em Agosto sardinha e mosto.'
'Foge [livra-te] do mau vizinho e do excesso de vinho.'
'Do vinho e da mulher, livre-se o homem se puder.'
'Conselho de vinho é falso caminho.'
'De bom vinho bom vinagre.'
'Dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho.'
'Pão que veja, vinho que salte, queijo que chore.'
'Pão, carne e vinho andam caminho que não moço garrido.'
'Ovo de uma hora, pão de um dia, vinho de um ano, mulher de vinte, amigo de trinta e deitarás boa conta.'
'O tonel nunca perde o cheiro a vinho. Ouro velho, vinho velho, amigo velho; casa nova, navio novo, vestido novo.'
'O pródigo e o bebedor de vinho nunca têm casa nem moinho.'
'Mel novo, vinho velho.'
'O tonel não pode dar senão do vinho que tem.'
'0 pão pela cor, o vinho pelo sabor.'
'Onde todos pagam não é o vinho caro.'
'Onde entre o beber sai o saber.'
'Neste mundo mesquinho quando há para pão não há para vinho.'
'No dia de S. Martinho mata o porco e prova o teu vinho.'
'No S. Martinho fura o teu pipinho.'
'Pão com olhos, queijo sem olhos e vinho que salte aos olhos.'
'Ninguém se embebeda com o vinho da sua adega.'
'Numa porta se põe o ramo e noutra se vende o vinho.'
'Nada escapa aos homens senão o vinho que as mulheres bebem.'
'Por cima de pêras vinho bebas e tanto que nadem as pêras.'
'Valentes e vinho bom duram pouco.'
' Vinho de Março nem vai ao cabaço.'
'Sobre figos água; sobre pêras vinho.'
'Se queres o velho menino, em cima de doce dá-lhe vinho.'
'Se queres ser bem disposto, bebe vinho, nanja mosto.'
'Se bêbado te vires sentir, foge à companhia e vai dormir.'
'Sábados a chover e bêbados a beber, nunca ninguém os pode vencer.'
'Quem vive na taberna, morre no hospital.'
'Quem tem bom vinho tem bom amigo.'
'Quem se lava com vinho torna-se menino.'
'Porco fresco e vinho novo, cristão morto.'
'Quem compra pão na praça e vinho na taberna, filhos alheios governa.'
'Quando o vinho desce, as palavras sobem.'
'Por S. Simão e S. Judas [28 de Outubro] colhidas são as uvas.'
'Por S. Lucas [12 de Outubro] mata teus porcos e tapa tuas cubas.'
'Por cima de melão, vinho de tostão.'
'Por S. Lucas sabem as uvas.'
'Vinho do meio, mel do fundo, azeite de riba.'
'Vinho turvo, madeira verde e pão quente são três inimigos da gente.'
'Vinho sobre melancia faz pneumonia. '
'Vinho que nasce em Maio é para o Gaio; o que nasce em Abril vai ao funil; o que nasce em Março fica no regaço.'
'Vinho, mulheres e tabaco põem o homem fraco.'
'Vinho e medo descobrem segredo. '

24/12/2013

Revisitando o Natal


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25/10/2013

Lavrar a alma.

 

Lavrar a alma com relhas de aço

Vi um lavrador  lavrar a alma com palavras fortes como o aço, lamentando a vida, as estações, a sorte. Vi que lhe rompiam o peito e rasgavam as fibras do coração, as ideias de vencer a sina de quebrar o fado, a realidade de comer o pão com o suor do rosto e a gana de matar a fome que lhe toma os dias.

Pensamentos que iam e voltavam como sulcos de uma lavra continua do chão do ser onde teimava em semear os sonhos de dias melhores de terras férteis fartura e prosperidade.

Ao rasgar a terra, rasgava a alma, virava a vida, eterna lavoura.

17/10/2013

Perguntas…

 

Capela da Sra. da Vila Velha em Castelo Branco Mogadouro

Ao fundo a capela da Vila Velha, na frente os choupos e freixos da ribeira, no meio os pensamentos e as visões de outros tempos doutras emoções. E o outono a moldar os sentimentos desta paisagem, tão querida tão distante.

Melancolia de tantas saudades de tantos rostos, momentos vividos, pessoas.

Tudo neste contexto, é vida. A minha a de meus pais, irmãos e de todos que ali nascemos, que neste cenário tomou forma e dele partiu para o mundo e para outras dimensões.

Quem vem a vila velha leva no peito a presença de tudo isto.

E por isso é bela. Por isto é impar e sem igual. Como a padroeira, que a todos recheia a vida com a fé. A intimidade deste lugar exige os olhos abertos para o divino, para o não material.

Sempre me questionei porque a capela fica de costas para o caminho que sai da aldeia e termina nela? Para onde aponta a porta? Que sentido tem esta escolha da orientação oposta ao caminho?

16/10/2013

Perguntas…

 

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Ao fundo a capela da Vila Velha, na frente os choupos e freixos da ribeira, no meio os pensamentos e as visões de outros tempos doutras emoções. E o outono a moldar os sentimentos desta paisagem, tão querida tão distante.

Melancolia de tantas saudades de tantos rostos, momentos vividos, pessoas.

Tudo neste contexto, é vida. A minha a de meus pais, irmãos e de todos que ali nascemos, que neste cenário tomou forma e dele partiu para o mundo e para outras dimensões.

Quem vem a vila velha leva no peito a presença de tudo isto.

E por isso é bela. Por isto é impar e sem igual. Como a padroeira, que a todos recheia a vida com a fé. A intimidade deste lugar exige os olhos abertos para o divino, para o não material.

Sempre me questionei porque a capela fica de costas para o caminho que sai da aldeia e termina nela? Para onde aponta a porta? Que sentido tem esta escolha da orientação oposta ao caminho? Há sentido nesta posição?

26/09/2013

Lavrador de versos



Vivo como um lavrador de versos,
A arar, o papel, com mil palavras.
A cada dia vinco mais dispersos,
Sulcos, das minhas idéias e lavras.

Soltam-se da minha folha mensagens,
Sonhos longos, eternos, profundos
Palavras novas, vontades, miragens,
Rodas vivas, visões de novos mundos.

Com a profundidade de estar perdido
Entre a vontade de conhecer saborear,
Tudo o que tiver maior valor sentido
O amor, viver, ou um simples pensar.

Procuro, o renascer, o constante chegar
Nesta lavoura, da vida, eterno advir.
Busco uma forma de sempre germinar
E com novo jeito ser, viver e sentir.

Albano Solheira

25/09/2013

Minha aldeia

 

Tudo é tão lindo visto daqui
As ruas, casas, telhados, muros
Homens, mulheres, animais.
Aquarela viva, cenário, presépio.
Tudo tem seu lugar e proposito
E parece tão certo, eterno e presente.

Só os que sabem disso,
Tem nos olhos o encanto de ver, que
A vista mais bela é a da minha aldeia,
Pois o mundo não é tão grande                                            Nem maior que a minha aldeia,
Porque não cabe dentro nem passa por ela.

O Mundo tem grandes cidades
E se revive, existe, nelas somente.
Como tantos que buscam em tudo o que lá não está,
Pois que a memória das gentes é vaga.

Minha aldeia esta ali, onde sempre esteve,
Poucos sabem disso,
E sequer me importo com isso.

O mundo ficou pequeno
Toda a gente sabe.
Mas poucos reconhecem onde estão
Vão e de onde veem
E por isso ele pertence a tanta gente…

 
É mais livre e maior o povo da minha aldeia.                          Chegar na minha aldeia é sair do mundo,
Para entrar em outro mundo.
Para além do qual há outros lugares.
Ninguém nunca pensou no que lá há antes.
E depois que importância isso tem?

Minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está nela, está apenas nela.
No mundo ninguém sabe nunca onde esta.
E vive com pressa de ir, de chegar, de partir.

Aqui vive-se um dia depois do outro.
E viver e estar são a mesma coisa.
No fim ou no começo,
Tudo é, e isso basta.

24/09/2013

Purgatório

Toto da igreja matriz de Castelo Branco Mogadouro, imagem da padroeira, pintura a oleo de autor desconhecido

Quando criança acreditava que o purgatório ficava atrás do altar da igreja e que por lá estavam todas as almas que tinham que pagar os pecados antes de seguirem para o céu.  Confesso que fiquei muitas missas a olhar para o altar e a imaginar como por lá estariam e que tormentas teriam que purgar para passar para a etapa seguinte.

Intrigado como podiam caber tantas almas em um lugar tão apertado. Uma matemática e geometria muito intrigante para quem tinha quatro para cinco anos. Metafisica prática e simples. Tudo tinha lugar e motivo, mesmo não entendendo ao certo o que seriam, o céu e o inferno, criava o cenário para os poder entender.

Mas os anos passam e as coisas mudam de lugar.

21/09/2013

Santa Barbara


Acordei com o estrondo dos trovões. A virada do tempo, começou dias atrás e foi anunciada pela meteorologia, mas somente hoje ela chegou com força total.

Os clarões anunciavam desde o inicio da noite a tempestade que chegou de madrugada com chuva, trovões fortes e clarões que iluminam o céu continuamente. A energia elétrica falhou. A cortina do quarto estava aberta e deixava entrar pela janela relâmpagos que iluminavam sem parar as paredes, o chão e o teto, projetando a sombra dos armários para todas as direções.

Levantei para fechar as cortinas. A Julia acordou assustada e a Karina levantou para acalma-lá, graças a Deus voltou a dormir.

Meus dois cachorros estavam desesperados e apavorados gemendo e arranhando a porta do banheiro onde onde estavam recolhidos. Consegui acalma-los com ração e umas velas acesas.

Perdi o sono. Felizmente o ipad esta com bateria cheia mas sem internet faltou o que fazer para esperar o sono.

O som das sirenes dos alarmes das casas de temporada, completa a sonoplastia e preenche o silencio e a escuridão da madrugada. Aos poucos a tempestade começa a acalmar e os relâmpagos ficam mais dispersos.

Esta época é sempre de apreensão em Santa Catarina. As chuvas e as enxurradas deixaram os meses de setembro e outubro marcados pelas tragédias. Foram muitas as perdas ao longo dos anos. Vidas e bens, projetos e sonhos, varridos pelas calamidades que inundaram cidades.

Ainda sem sono comecei a lembrar do medo que tinha quando criança dos trovões. E as memórias foram surgindo, como relâmpagos de outros tempos inundando minha mente de imagens e sensações distantes e para minha surpresa ainda muito fortes.

Voltei no tempo...

A Capela de Sto. Antonio fica perto da minha casa. Uma capela bonita, pequena e aconchegante, com um altar central onde o Santo Lisboeta e casamenteiro, tem seu altar em destaque rodeado de outras imagens de santos e sanas. Normalmente a capela ficava fechada. Naquele dia porem, foi aberta, pelas mulheres que ali acorreram para invocar Sta. Barbara e pedir proteção preocupadas com a forte trovoada que estava a chegar. O dia escureceu e apesar de serem umas duas da tarde, e estarmos o inicio do mês de junho parecia ser o anoitecer.

A maioria das searas ainda estavam nos campos a espera de serem segadas. As famílias trabalhavam de sol para colher o pão. A ameaça de temporal punha em risco as vidas e os trabalhos de muitos dias, canseiras, e esperanças.

Nesta escuridão os relâmpagos faiscavam e riscavam o céu rompendo as nuvens. O vento soprava forte e passeava feroz pelas ruas montado em redemoinhos de poeira. Era o fim do mundo, ou parecia ser pelo menos.

As mulheres tiravam os brincos das orelhas e cobriam as cabeças com os lenços. ficavam a ajeitar os cabelos continuamente para acalmar.

- Ave Maria, Santa Maria...
- Ai meu Deus, gritavam
- Oh valha-nos Santa Barba, São Bernardino...
Esconjuravam a trovoada...
- Vai pra serra do marão onde não ha vinha nem pão.

A imagem da Santa foi colocada na porta da capela em um altar improvisado, virada para a rua.

E começaram o responso da Santa.

Santa barbara,
que sois mais forte que as torres das fortalezas
e a violência dos trovões,
Fazei que os raios
Não nos atinjam...
Os trovões não nos assustem
Nem abalem a coragem e a bravura.
Ficai sempre ao nosso lado,
Para enfrentarmos de fronte erguida
E rosto sereno todas as tempestades
E batalhas da nossa vida...

As nuvens baixas em cima da aldeia, relâmpagos e trovões ecoavam pelo céu e dentro da capela cheia de mulheres e crianças. As orações estremeciam com a violência da tempestade e as vozes vacilavam temerosas da falta de fé. Mas pelo menos daquela vez a tempestade passou e foi para a serra do Marão.

01/09/2013

Nossa Senhora da Vila Velha

Mes de setembro, quase fim do verão. Trabalhos passados da ceifa e colheita. Os corpos cansados do calor tórrido de agosto agradecem os dias mais amenos. As vinhas ainda estão pra terminar de amadurecer os cachos de uvas.  Outono á porta. 

A aldeia começava os preparativos para a festa da padroeira. 

Os mordomos para recolher a oferta para a festa, fazem as ultimas visitas nas casas . Da serra vem os pinhos para as bandeiras na porta dos mordomos e para enfeitar de fitas coloridas e bandeiras o pátio da casa grande.

Ja foi Escolhido o borrego e a posta de vitela para o almoço do dia de festa. Os parentes são esperados com alegria e felicidade. A festa é também o momento de reencontro e regresso  ás origens. Filhos e netos, amigos, parentes, todos reunidos nesta romaria tão albicastrense.

A banda filarmônica chega cedo e faz a primeira volta pelas ruas. Os andores estão coloridos a espera da procissão. Um tom de festa vai dando voz a tudo pelas ruas e casas. Roupas de festa. Crianças arrumadas correm pelas ruas atrás dos músicos. 

Enfim tocam os sinos para a missa e procissão. Vamos a capela... E de hoje em um ano voltamos

Foto: Arlindo Parreira

31/08/2013

Setembro


Diga lá meu bom amigo? Ja e tempo de arrancar as batatas? E de plantar as couves tronchas?

Sim, vai no tempo, é agora a hora. Mas se quiser ter um bom nabal, tem que arar as chãs em maio. Setembro e o mês do cabreiro. 

As ribeiras vão secas e as terras cansadas, nos restolhos do pão as chibas ainda comem do trigo que caiu das espigas. Mas falta pasto. 

Logo as vinhas darão a rama para engordar o gado antes das chuvas do outono e das primeiras ervas nos montes.


02/06/2013

O IMIGRANTES de 1975 a 2013



Deixei a minha Aldeia
E minha Mae a chorar
Deixei tambem meus Amigos
As estrelas e o luar

Mas quando o Imigrante volta
E a todos vai saudar
A pergunta é sempre a mesma
Saber quando vai voltar

Esse dia està chegando
Que alegria so em pensar
Voltar para a minha aldeia 
E minha Mae abraçar

Aos meus Amigos eu quero
Dizer como estou contente
Voltar para a nossa Aldeia
E o sonho de muita gente.

Sara Ingueira


12/05/2013

Cada vez mais

Cada vez mais,
Cada vez melhor.

Assim, na luz do dia.
Revejo o sonho
Que me mantinha
Preso a ti.

Minha paixão
Fez de mim teu servo
Em minha ilusão
Fulgor dos olhos
Relampejo da alma
O amor que te tenho
Dá-me vida...

Nasce a cada dia
O fruto de nosso amor
Nas palavras que dizemos
No vinho dos teus beijos
Na doçura de teus lábios

Amor, amor, amor,

Amor que um dia
Tão gigante
Imenso e profundo
Nascido de teu olhar
Crescido no peito.
Arrebatou minha vida.



30/03/2013

Feliz Pascoa



Amêndoas e folar.
Ruas de alecrim,
Papoulas e malmequer,
enfeitam o chão.
Vai sair a procissão,
Do adro pelo eiró,
desce pelo vale,
sobe ate a praça
para chegar na estrada.

E páscoa, aleluia,

Os campos de trigo
Verdejam floridos,
As vinhas rebentam
As amendoeiras
Floresceram sem geada.

Cantamos, aleluia.

As famílias reunidas
Vieram pelo folar.

E aleluia, aleluia
Vamos cantar.


Papoulas



Campos de trigo
verdes de espigas,
Vermelhos de descobertas
Pão e sonhos,
Trabalhos e esperanças.

No mesmo campo,
O lavrador semeou os grãos,
Sustento do corpo.
E o Criador derramou as sementes,
Alento da alma.



09/03/2013

Ribeira



No fim do povo, à entrada da aldeia, corre a ribeira.
A mesma, sempre, de passagem.
Como as gentes, como o tempo.
Passageiros...

Cada geração de um novo jeito
Repete e esgota
De uma estação a outra sua existência
Primavera, verão, outono e inverno.
Fim e recomeço

Eterna é a vida.


28/12/2012

Canto das Janeiras


Juntem  todos os rapazes, vamos cantar as janeiras!
Começamos no carrascal, pelo eiró, vale e nas eiras.
Iremos de casa em casa pra louvar ao Deus menino,
Rabanadas, amêndoas, nozes, figos, e o vinho  fino.

Senhoras esperem, botem mais lenha no lume a lareira
Vamos a todas as casas sem faltar a alegria costumeira
Cantamos a Virgem Maria, Jose, pastores e reis magos
Ponham vinho a mesa, econômicos, uvas, alguns bagos

"Senhora que esta la dentro
sentada no seu banquinho
Venha-nos dar as janeiras
em louvor do Deus menino"

Moças solteiras esperai para ouvir os versos acordadas
Com cabelos soltos, lindos, com madeixas iluminadas,
Brindai com jerupiga ao ano novo cantigas de janeiras
Cantai as rimas com alegria, como nas antigas maneiras

Ainda agora aqui cheguei
pus o pé nesta escada.
Logo meu coração disse,
amora gente honrada!

Porque sempre vive quem vive a tradição de seus pais
Cantai cantai cantai com os gestos rimas e tudo mais
Cantai, nas casas, pelas ruas, de porta em porta, cantai
Um ano novo que chega com novas oportunidades cantai






09/10/2012

As vindimas na minha aldeia

Autor:Marina Craveiro

clip_image002Quando eu era rapariga e ainda estava solteira,

Era uma alegria cortar as uvas mas também no fim receber a“geira”!

Havia mais mocidade que agora há, na verdade,

Andávamos muito contentes,

Éramos grupos de muita gente.

Os dias passavam depressa,nem nos sentíamos cansados, para nós era uma festa!!!

Tractores ainda havia poucos!

Mas tínhamos os carros de madeira com juntas de bestas a puxar!

Levávamos os cestos na padiola para os carros carregar!

clip_image004Havia muita gente que não podia pagar!

Por vezes juntavam-se grupos que iam ajudar…

Outros ainda faziam a torna “geira”,

Assim não era tão grande a canseira!!

Faziam-se boas merendas e da hora estávamos atentos!

Ficávamos muito contentes ao ver pataniscas e chouriça,

Ou a galinha estufada com bastante cebolada,

Para saciar a fome a todo o camarada!

As uvas transportavam-se durante o dia para o lagar,

Pois com os carros de bestas levavam mais tempo a chegar.

Depois seriam pisadas mais á noite, a seguir ao jantar.

Seguia-se o vinho a ferver e o cango a levantar…

Está pronto o vinho mosto e já se pode incubar

Que é para todo o ano nas pipas se poder conservar.

Agora, basta esperar até o S. Martinho chegar,

Iremos á nossa adega o bom vinho provar,

Dizem mesmo,os entendidos, que no mundo não háigual!

Aqui na nossa Aldeia já há pouco para vindimar.

As vinhas dão muito trabalho e já ninguém quer plantar!

Apenas paraconsumo próprioo lavrador faz o cultivo,

Com a despesa que há não compensa em quantidade cultivar!

Acabei a minha prosa, pensando no que a minha mãesempre diz:

“Se o novo quisesse e o velho pudesse, não haveria coisa que não se fizesse!”

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Marina Craveiro,26 de Setembro de 2012

02/09/2012

Orgulho albicastrense. Convite!

Autor: Luís Pardal
Na quarta feira, 12/09/2012, dia nossa Senhora da Vila Velha,  a Albicastrense Maria da Conceição Quinteiro lança, o livro “Viver a dois em tempos de incerteza” pela editora Nova Delphi, na Universidade Nova de Lisboa.
Segue convite.
Convite_Lanamento_-_Viver_a_Dois
Maria Quinteiro nasceu em Castelo Branco, aldeia de Trás-os-Montes, concelho de Mogadouro, distrito de Bragança, Portugal. Luso-brasileira migrante em São Paulo, estudou Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde defendeu mestrado e doutoramento na área de Sociologia. Foi investigadora visitante no Center for Cross Cultural Research on Women, University of Oxford, no Instituto de Ciências Sociais — ICS, da Universidade de Lisboa e no mestrado de Estudos sobre as Mulheres, na Universidade Aberta, Lisboa. Atualmente é investigadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo e investigadora convidada do Centro de Investigação em Ciências Sociais da Universidade do Minho. É coordenadora do grupo de Estudos Género, Mulheres e Temas Transnacionais — GEMTTRA.
Leia artigo da autora aqui no blog: “Portuguesas para o Brasil o Sonho Sonhado      … “Para minhas tias Isabel, Luísa, Dorotéia e Ilda, Pardal. Teresa, minha mãe. Que nasceram e viveram nessas aldeias.”(Clique para seguir o link e ler o restante do texto)
Forte abraço albicastrense.
Luís Pardal


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