26/06/2011

O Ciclo da Natividade em Trás-os-Montes

Autor: David Luís Casimiro

cartaz_Representacao[1]

No mundo cristão, o Ciclo da Natividade expressa-se de forma vibrante, numa convivialidade que evidencia um sentimento comunitário, seja através do culto da mesa, da abundância, após o ciclo das colheitas, seja através do início do ciclo cristológico, da renovação espiritual, materializado pela teatralidade das festas solesticiais, das facécias dos «caretos», mas também pelas representações teatrais religiosas, os venerados Presépios, em que não faltam as facetas profanas de índole popular, os jocosos colóquios de pastores. Às festividades acorre o povo, ávido de divertimento e de celebrações, num tempo em que diminui a actividade rural, e a quem se aproveita para ilustrar, directa e visualmente, com pequenos «entremezes», páginas de moralidade edificadora, para que seja possível viver a fé, através das ingénuas representações da teatralidade cristã. O grau de analfabetismo popular não obsta que as representações sejam entendidas na perfeição; elas são uma catequese de fácil apreensão, um «deixai vir a mim os pequeninos», em que não cabe a abordagem de questões teológicas profundas, tanto mais que o tempo é de celebrar um Deus Menino. É à sensibilidade inocente de cada um que se faz o apelo da fé, da crença sem limites na realidade revelada pelas passagens bíblicas do Antigo e do Novo Testamento, revisitadas em narrativas ficcionadas, «mistérios» vivenciados por empenhados actores amadores locais.

Trás-os-Montes não ficou alheia a estas representações populares, quer se realizassem dentro da Igreja, ou fora da mesma, no adro, ou mesmo nas Eiras. Um pouco por toda a parte os autos da Natividade ou da Paixão de Cristo surgem como manifestação de uma crença na força divina do ser humano, que revê na figura do filho de Deus feito homem, o penoso trajecto do seu viver e da possibilidade de transfiguração; o sentimento que une o povo é comum, e as manifestações também. Não importa a diferença na representação teatral, já que a partilha do ideal é comum; os autos assemelham-se, tornam-se expressões individuais da Verdade que se proclama.

Um dos autos do ciclo da Natividade transmontana foi recuperado na sua quase totalidade através de Cascos, ainda existentes em algumas localidades, mas também através do registo da memória de diversos participantes que, em tempos, desempenharam algum papel na representação do Auto da Criação do Mundo ou Princípio do Mundo, também denominado Ramo. Partindo das representações de 1924, 1935 e 1949 em Urrós, no concelho de Mogadouro, a partir da qual se elaborou uma Dissertação de Mestrado, apresentada na Faculdade de Letras de Lisboa, surge, agora, a necessidade de proceder a uma investigação mais aprofundada sobre os diversos textos existentes em Trás-os-Montes, que será a base de uma Tese de Doutoramento, a apresentar futuramente à mesma faculdade.

Reconhecendo o valor plural existente no teatro popular, não só como elemento de divertimento, mas também, no caso do teatro religioso, de catequismo, servindo de pedra basilar de conhecimento e aprendizagem popular, a Câmara Municipal de Mogadouro, a Faculdade de Letras de Lisboa, o Centro de Tradições Populares Manuel Viegas Guerreiro e o Centro de Estudos de Teatro da mesma Faculdade uniram-se de forma a elaborar, no dia 18 de Agosto de 2011, um Ciclo de Conferências sobre Teatro Popular Transmontano, e recriar o acontecimento da representação do Auto da criação do Mundo ou Princípio do Mundo, em Urrós, no dia 19 de Agosto.

David Luís Casimiro

Doutorando do Centro de Tradições Populares

Faculdade de Letras de Lisboa

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