24/02/2010

Pitas, raposas e assombrações

Autor: Arlindo Parreira
pitas e raposas

Mais um capitulo das crónicas do ultimo Regedor de Castelo Branco

Então lá vai!
No tempo dos lampiões, a vida em Castelo Branco era bem triste.
Ainda não tínhamos televisão, pois que a luz elétrica ainda não chegara lá. Diziam os antigos e, eu juro que muitos morreram de tanto pensar na resposta certa desta pergunta: Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Pois então, quero que entendam o que lhes digo: sem luz sem televisão, veio a luz primeiro e depois a televisão. Uma levou a outra pra dentro das casas e, de lá nunca mais saíram. Tomaram conta da vida das pessoas! Acredito que a internet vai fazer estrago pior. Mas disso falo outro dia...
Verdade seja dita! Por aqueles dias havia tempo de sobre para muitas coisas, e então, para matar ou ocupar o tempo, passávamos as noites na taberna ou casa dos amigos a beber  uns copos.
Comiamos pão, presunto, queijo e azeitonas, regados por uns copos do nacional. Falavamos da vida alheia e das coisas do dia a dia.
Eramos felizes assim. Muito felizes, diriam alguns. Claro que ao nosso modo!

Ás vezes, em certos dias...
Isto porque ninguém é de ferro, preparávamos um fado com uma galinha gamada do poleiro de alguém. As raposas eram ladinas nesses tempos...
Pois bem, quero contar esta história porque ela é de se relembrar.
Nem todas as galinhas tinham o mesmo destino gastronômico. Esta de que lhes vou falar teve um muito diferente do da grelha ou da panela.
Certa vez, os meus dois delegados...
- Já lhes falei de quem eles eram lembram?
Estavam, tarde da noite, a caminho da casa de um deles. Ao descer por uma rua, lá para os lados do vale repararam, que a porta da casa, onde só vivia um casal, estava meia aberta. Desconfiaram, de que alguma coisa estava errada, pois o marido estava fora. Para tirar as dúvidas e, garantir que a paz e o sossego da aldeia fossem preservados, resolveram entrar para examinar o interior da casa. Com uma pilha na mão, vistoriaram os comodos.
Tudo estava no seu devido lugar. Os gatos dormiam, perto das cinzas da lareira. A dona de casa, acompanhada pela cunhada dela de 12 anos que lhe fazia companhia, dormia o sono dos justos no quarto do casal. No mais, tudo o resto estava na perfeita ordem.
Tudo muito certo e sem problemas, não fosse o facto, de que debaixo do braço dos delegados do regedor estava uma galinha pedresa, que tinham gamado em um certo poleiro, famoso pelas aves bem tratadas e da melhor qualidade. A galinha estava, imobilizada com a cabeça presa debaixo da asa.
Como lhes falei ninguém era de ferro e até mesmo os delegados do regedor eram seres humanos. A dita galinha, serviria minutos depois para fazer um fado, e já tinha receita certa: assada escarranchada na grelha com piri-piri e outros temperos.
Cientes do dever de autoridades e, contritos pelo ato praticado, resolveram fazer uma obra de caridade. Se o pensaram melhor o fizeram. Resolveram deixar a galinha ali mesmo, na entrada do quarto. Um presente para as donas da casa que seriviria para  uma canja para a família ao acordarem.
De boas intenções...
- Conhecem o ditado, nem sempre se faz a melhor caridade.
Deixaram a galinha e saíram sem fazer barulho porta a fora.  Trancaram a porta da entrada para garantir que a  ave não se escapulisse e acabasse com a canja.
Atordoada pelas voltas da cabeça debaixo da asa, a pobre, ficou alguns minutos sem se mexer, quieta e parada, dentro do quarto.
Mas, certa hora...
Assim que se viu sozinha, começou a esticar as penas, asas,  a andarilhar e a fazer o canto caracteristico: Cró-cró-cró, cró-có, cró-có, Cró-cró-cró, cró-có, cró-có. Não demorou muito acordou as pessoas. O barulho era muito grande , devem imaginar.
Ao acordar com o estardalhaço da galinha e, sem saberem do que se tratava, saíram a fugir pelas ruas a gritar: acudam, ardaguarda, que tem um diabo ou um espírito dentro de nossa casa.
Não tardou muito e o povo todo acordou em sobressalto.
Mesmo sem saber do que havia, teve gente que correu para a igreja a tocar os sinos a rebate.
Minutos depois estava a aldeia inteira parada á porta da casa.
Algo digno de ser visto:
As senhoras de idade, de olhos arregalados, pragejavam e diziam carvalhos e sobreiros para todos os lados. Uma coisa digna de cena pronta para os filmes mais terríveis de horror.
Os garotos em idade de escola escorripiavam por entre as pernas dos maiores para chegar perto e ver porque os adultos faziam tanta algazarra.
- Cruz, credo, Maria Santissima...
Mais ao fundo, discretas e comprenetadas, as beatas, rezavam e presignavam-se. Faziam o gestual com tanta gana, que os lenços não paravam em cima das cabeças. Cabelos despenteados, olhos cheios de remelas do sono perdido e o corpo trêmulo por ter sido jogado para fora da cama para acudir ao chamado do repique do sino.
A aldeia inteira estava ali não faltou ninguém!
Apesar da muita gente que veio para ver, demorou para ajuntar uns quatro ou cinco que fossem corajosos de verdade para entrar na casa e ver o que lá havia.
Teve até quem quisesse mandar o taxista ao Urrós para buscar o bruxo. E dizia que isto era coisa para ele, e decerto havia de saber o que fazer para espantar esta coisa.
- A salvação chegou logo…
Sempre teve valentes em Castelo Branco, porque se fosse por estas pessoas ainda lá estavam até hoje á discutir na porta o que era melhor fazer.
Uns rapazes mais corajosos, que estavam de folga da recruta nos pára-quedistas, resolveram salvar a população albicastrense.
Por falta de fuzil ou G3, armaram-se de umas varas das chouriças que estavam encostadas á porta da casa. De mão empunhada,com este armamento tão perigoso,  entraram em formação e manobra de ataque, como aprenderam nos exercícios de guerra dos pára-quedistas. Uma ação digna da força Delta.
De novo parecia, que Castelo Branco, estava em um filme...
Abriram a porta da casa. Entraram e sem que desse tempo de piscar os olhos, sumiram da vista de todos, na escuridão.
O povo, parado na rua ficou calado e em silencio, embasbacado, pelo medo, na espera e tensão do que iria acontecer.
Dava para pesar o medo em arrobas e medir o cagaço em alqueires. A maioria nem piscava os olhos. As caras estavam pálidas como as pedras da calçada a refletir a luz branca e gélida da lua cheia que subia a pique no ceu. Só de olhar as caras dava medo...
O silencio foi interrompido por chiados estridentes, no alto dos telhados. Teve gente que estremeceu e caiu no chão.
Felizmente eram só duas corujas que coitadas e distraídas do mal alheio andavam na labuta diária de pegar uns ratos para a ceia dos corujinhos. As inocentes e dedicadas aves, quase matam de susto meia dúzia de velhinhas.
Não há duvidas que é coisa do outro mundo!
Diziam... E troca a presignarem-se com mais vontade e força.

Nisto ouvem-se os passos dos rapazes a voltar para a rua.
Suspense e nervosismo...
Um roçar de roupas e arremedos das mães a puxar os filhos para debaixo das saias em ato de proteção maternal. Vai que sai de lá de dentro da casa um bicho feio e fedorento!
Os homens levantaram as espalhadouras, machadas, calagouças e outras peças que tinham nas mãos  caso fosse preciso entrar em  guerra, prontos para avançar em reforço dos valentes e corajosos paraquedistas que entraram nesse covil do desconhecido para salvar a todos.
Surpresa geral…
Na mão dos rapazes, uma galinha pedreza. Gorda e muito bonita.  Daquelas que são engordadas do fim do verão até ao natal para encher as alheiras.
Decepção geral...
Reclamam todos!
Que frustração!
Voltam-se uns contra os outros a dizer:
-Sai o povo todo em alvoroço, para salvar uma galinha?
-Isto  lá é coisa que se faça?
As más línguas já tricotavam as costas das donas de casa por terem sido tão fracas e por terem tirado a todos do sossego do lar.
- Como poderam fazer isto?
- Carvalho, daqui
- Sobreiro de lá,
Mas eis que chega o dono da galinha.
Ao ver a criatura ali exposta grita.
- Esta galinha é minha.
Garante a todos que ela foi pessoalmente fechada no galinheiro e que a ave ficara lá bem guardada ao cair da noite.
Se estava ali na casa da vizinha, alguma obra tinha que ter!
Por se tratar de um homem de bem, gente de respeito, desfez-se o ajuntamento e voltaram todos para casa.
Dia seguinte, pelo sim pelo não, que o caso ainda estava mal resolvido, chamaram o padre para benzer a casa.
O pior de tudo e para a infelicidade de alguns ajudantes do regedor, a partir daquele dia os galinheiros passaram a ter mais uma tranca nas portas.
Muita fama as raposas levaram naqueles anos de invernos longos sem televisão e nem luz elétrica.

Coitadas das raposas tinham a fama.
Mas era de outros o proveito!
E não foi sempre assim?

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