16/07/2011

A SAÚDE QUE A MENTE DÁ

Autor: Isaias Cordeiro

Era fim de semana. A missa tinha sido um pouco mais cedo e o senhor abade dissera ter de se deslocar para um mini concílio na Vila. A época não exigia grandes trabalhos, o verão das azáfamas já terminara e tudo o que restava de colheitas permitia já um pouco de sossego, sem cansaços ou grandes dores de cabeça. O tempo arrefecera mas mesmo assim convidava a sair de casa. Depois do almoço aos poucos vinham aparecendo uns e outros e não faltou o senhor Padre que a pretexto de um cafezinho contrariou a pressa que antes dizia ter juntando-se aos demais na Praça, local de encontro e convivência por excelência há muito escolhido. Fora-o no passado e selo-á por certo no futuro. A história repete-se porque se acredita nos ciclos de vida e na forma de viver.

Não admira a Praça foi ao longo dos anos palco de eventos de toda a índole. Festas e arraias, projecção de filmes, Teatro, triteiros, comédias e até apresentação pública de um Rancho Folclórico desta Aldeia que infelizmente teve morte precoce.

As Tabernas os Sotos, sapateiro e talho na zona davam-lhe vida que transportando-nos ao tempo era o centro de comércio como de uma metrópole se tratasse. Lembramos as histórias que por ali se contavam e os planos orquestrados para as brincadeiras e apostas nem sempre por todos bem aceites. Por exemplo ir ao cemitério á meia noite e trazer a cruz da campa deste ou aquele falecido. As apostas eram quase sempre a cântaros de vinho mas também a cerveja e até a dinheiro.

Sentados nas escadas do senhor Antoninho Paçó o pequeno grupo em tom de desabafo comentava a pouca saúde de cada um. Não admirava que os mais velhos o fizessem ou não estivessem eles já sobejamente gastos e calejados pelo clima agreste do Nordeste Trasmontano cuja definição desde que me conheço se ajusta perfeitamente, nove meses de inverno e três de inferno. Confesso hoje não partilhar desta velha máxima por razões várias. Factores comportamentais de todos nós, agressões constantes ao nosso ambiente e a utilização desmedida de muitos produtos da era moderna têm arrastado consigo consequências nefastas. As estações do ano baralhadas vão-se confundindo e com alguma frequência os invernos passam a Primavera ou a um verão menos temperado.

Nos degraus da casa do senhor Pardal algumas pessoas cavaqueavam sobre o que lhes vinha á cabeça. O Padre deu as boas horas e ali ficou um pouco conversando com os demais presentes e sem que alguém se tenha apercebido da razão começou a falar da construção do mundo e nos capítulos da Bíblia que a isso se referem em forma mais parecer de um sermão não encomendado. Aproximava-se um pequeno grupo de mulheres uma das quais com uma leve blusa de alças um pouco mais ousada para os gostos eclesiásticos. Na passagem olhou e não se coibiu de fazer uma forte crítica.

Palavra de honra, é preciso ter pouca vergonha para vestir aquela peça de roupa!! Na igreja não entrava ela, retorquiu!

Ouviram-se alguns risos e pelo facto o Padre mudou de assunto trazendo então há tona uma questão que já dias antes tinha sido tema de conversa com um dos presentes. Falava que eram esquecidos pelos nossos governadores. O Estado também não lhes prestava os cuidados de saúde necessários e mesmo não sendo eles contribuintes pagantes eram cidadãos iguais aos outros, os acordos e protocolos assinados pelo estado e Santa Sé eram sobejamente condição fundamental para que não restassem quaisquer dúvidas quanto a essa assistência. Um dos presentes respondeu, na verdade os padres deviam ser funcionários do Estado com vencimento como os demais e igualmente beneficiarem dos direitos que lhe são devidos bem como assumir os seus deveres e obrigações. Desta forma não haveria razão para dizerem que são maltratados. Queixava-se que andava cansado e doente não fosse um ou outro médico amigo a tratar dele não saberia o que fazer.

Caminhando devagar acabara de chegar o ti Avelino. No seu rosto viam-se sinais de que algo não estava bem. Embora com alguma idade não havia razão que justificasse o estar tão abatido. Andava muito doente, a saúde retirara-lhe a força que sempre teve. Mesmo assim juntou-se ao grupo. Uns e outros iam perguntando, então como vai, está melhor senhor Avelino? Com um sorriso ia respondendo,

vamos como Deus quer e por certo não será mal de morte. Temos de morrer um dia mas não tenho pressa nenhuma.

Não tardou a ali aparecer o seu genro que sem muitas delongas se foi sentar no degrau da porta do senhor Luis Pardal, outrora porta principal da taberna onde anos a fio se bebeu, jogou sueca, chincalhão, sete e meio ou mesmo fósforos com uma boina cuja técnica era cruzar os fósforos de madeira ou de cera. No fundo tudo servia para passar o tempo. È certo que nesta altura havia ainda o cheiro a um bom cervejão feito no cântaro de zinco, meio almude composto de vinho, cerveja Sagres, (esta, na altura em tara bem redondinha que fez furor nesta receita) , ovos batidos e açúcar quanto bastasse. Ainda hoje recordo bons frequentadores desta e de outras tabernas e até de alguns que sendo donos de um bigode bem farfalhudo se consolavam passar a língua e dele retirar a espuma resultante do batido saboroso. Denso e fresco consolava as almas, diziam os apreciadores.

Já lá vai o tempo em que as festas ali se faziam. Hoje Praça de Santa Cruz, outrora somente “ Praça” foi palco de festas e outro eventos tais como projecção de slides ou filmes da vida Missionária sobretudo neste caso nos meses quentes do verão.

Não deixava de ser interessante ver nos dias festivos nas ditas escadas o Toninho Ingueira com o jogo das argolas e armas de pressão de ar, as garrafinhas de Licor, laranjadas e gasosas para os prémios. Ganhar ou perder não era muito importante, era sim um gesto de participação ou mesmo de exibição das moedinhas que cada um recebia da família, dos padrinhos ou a remuneração de ajudar á Missa.

Sentei-me junto do meu amigo, o tio Avelino. Trocamos algumas impressões do nosso estado de saúde, das dores e de aquilo que mais afligia. Também eu me encontrava num estado bem debilitado e as ida aos médicos por aqui existentes não tiveram o sucesso desejado, por isso não deixei de perguntar se já tinha sido visto por algum deles. Ainda não, mas vamos na próxima semana a Vilar Formoso, o meu genro tem conhecimento de ali haver um médico muito bom equipado com boas máquinas modernas que nos vêm tudo cá por dentro, já por muitos gabado mesmo que por lá não tenham passado. Porque não falas com o meu genro e vais connosco? Não sei se ainda cabes no carro, vai mais gente mas não custa perguntar. Aproveitando o conselho fui ter com o seu genro.

Viva, como está tudo bem? Diz-me o seu sogro que breve vai a Vilar Formoso ao Médico, é verdade? Sim, porquê? Se por acaso houvesse lugar, pagando como é natural ia também convosco. Dizem maravilhas do médico e das máquinas que possui, não é verdade?

Pode ser que se arranje, vai o meu sogro, o Ernesto Silva e o ti Mendes, este o que mais queixas apresentava num quadro clínico ainda por avaliar. Se não for mais ninguém de casa cabemos os cinco. Vou perguntar e depois digo alguma coisa. Já liguei para lá. Não fazem marcação, todos os dias tem muita gente vinda dos mais variados pontos do nosso país e também de Espanha. A vez ganha-se na bicha, de carro ou a pé e por isso para sermos atendidos temos de lá estar bem cedo ou melhor bem de madrugada. Amanhã já te digo se podes ir ou não connosco.

Bem cedo passara por nossa casa. Confirmara sim haver ainda lugar para mais um e avisou que na próxima quarta feira pela noite dentro ou já na madrugada de quinta sairíamos, estradas estreitinhas e de fraca qualidade, curvas sem fim e pouco conhecidas tornavam imperioso o partir bem cedo como salvaguarda de um lugar na consulta.

Cerca da uma da manhã juntamo-nos no largo da Casa Grande. A Toyota previamente preparada chegara. Nele já o Ti Avelino bem aconchegado no seu lugar amparado por almofadas que cuidadosamente as filhas colocaram.

Chama aí o Ernesto e o ti Mendes temos de ir embora, dormimos lá enquanto ganhamos a nossa vez na fila.

Com a noite bem escura e queixas dos mais doentes partimos para Vilar Formoso. O percurso de cerca de cento e vinte e cinco quilómetros adivinhava -se difícil tendo em linha de conta não só a distância, o estado da estrada mas também o contexto clínico de cada passageiro.

Na verdade nem foi necessário andar muito para confirmar o que se pensava pois de Castelo Branco até Barca de Alva não fosse o condutor cuidadoso e atento ás sucessivas curvas e seria por certo uma desgraça para os mais queixosos. Já a partir de Escalhão e com um traçado mais plano tornou a viagem menos sofredora só interrompida aqui e ali para satisfação de necessidades fisiológicas.

vilar formoso

Cerca das três da manhã chegamos. Tal como era previsível ocupamos já um lugar na bicha de automóveis a uns metros do consultório. Estava fria a madrugada e por isso quase toda a gente se mantinha dentro das viaturas. A porta do consultório seria aberta apenas ás oito da manhã e até lá apenas a estação dos Caminhos de Ferro tinham a sala de espera aberta.

Numa rápida saída pude constatar algumas curiosidades bem demonstrativas do prestigioso nome do Médico ao qual nos dirigíamos facto que nos dava alguma esperança. Nas viaturas da fila, algumas das quais táxis, destacavam-se matrículas diversificadas, além de Portuguesas que no caso em menor número viam-se matrículas Francesas, Belgas, Alemãs e de várias regiões desses países. É obvio que não seriam necessariamente todos pertença de Estrangeiros, esta região tem uma vasta comunidade emigrante e não se poupam esforços em prol de melhor saúde dos seus familiares e amigos.

Aparecera uma funcionária, supostamente a mulher da limpeza. Num ápice abrem-se as porta dos carros e mais ou menos respeitando a ordem foram-se encostando á entrada do consultório. A senhora educadamente pediu um pouco de paciência avisando que abriria a porta como de costume ás sete e meia da manhã para que os mais velhos e carenciados aguardassem sentados na sala de espera. Instada sobre a hora da chegada do médico lembrou que ás oito iniciaria as consultas. Oxalá assim seja, pensei, sabia bem da pouca pontualidade da maioria dos médicos.

Aberta a porta, um a um foram entrando. Em cima da mesa no centro da sala uma folha de papel, um rapaz que acabara de sentar uma senhora liderou o registo dos presentes para que a ordem fosse respeitada.

Pouco a pouco a sala ficou repleta. Na verdade não eram tantos os doentes como a chegada nos parecera. De grosso modo todas as viaturas traziam acompanhantes fossem familiares ou não.

Lá bem ao canto sentados estava o Ti Avelino e o Ti Mendes ladeados por mim e Ernesto, encostado há ombreira da porta o nosso condutor que com a paciência que lhe era peculiar aguardava o desenrolar dos acontecimentos.

Aproveitei para dar uma contadela aos que me pareciam enfermos e a curiosidade levou-me a consultar a listagem exposta em cima da mesa. De facto confirmara que nem todos iam a ser consultados. Comecei a fazer contas e pela ordem em que nos encontrávamos vaticinava-se uma ultima consulta do nosso grupo talvez pelas dez horas da manhã.

O tempo ia passando e as oito aproximavam-se. Com a naturalidade da circunstância aumentavam as queixas e gemidos. Uns e outros comentam entre si os males que os afligia e não deixava de haver os que num acto de desespero pediam que Deus os levasse, já não estamos cá a fazer nada dizia um deles.

Na sala era visível um quadro de sofrimento e dor através dos sucessivos gemidos e alguns gritos pelo meio, momentaneamente alterado pelos bons dias dados pelo Médico que acabara de entrar. Olhei para o relógio, na verdade ainda faltavam uns minutos para as oito e houve quem comentasse, olha, este ao menos é diferente dos outros, pelo menos chega a horas..

Olhou em volta, endereçou uma saudação aos presentes manifestando o desejo de um bom dia. Pegou na folha de registo deu uma olhadela e disse, bom, vamos lá, não se preocupem, todos serão atendidos.

Uns mais outros menos tempo as consultas estavam e efectuar-se a bom ritmo. De receitas na mão vinham de cara bem diferente da que levaram. O registo do nosso grupo teve em linha de conta o respeito pelos mais velhos. Na devida vez lá foi chamado o ti Avelino, auxiliado pelo seu genro foi para o consultório. Não foi muito demorada a sua consulta e á saída olhou para o canto e um pouco alto disse, anda, vai lá tu, António.

Trémulo levantou-se e lá foi para o consultório. Na verdade a sua consulta estava a ser um pouco mais demorada, entretanto acabara de abrir a porta e veio juntar-se a nós. Levantei-me da cadeira que ele ocupara cedendo-lhe o lugar, sentou-se.

Olhei para ele, pareceu-me mais calmo, conformado e por ser notório perguntei-lhe,

ENTÃO TI MENDES QUE TAL, COMO SE SENTE?

JÁ ESTOU MELHOR, OBRIGADO!!

Curiosa resposta. Na realidade a saúde física depende em muito da saúde mental..

Terminara a consulta do grupo. Com alguns realces pelo meio todos foram unânimes na apreciação do bom atendimento havido. Os gemidos foram dando lugar a uma boa disposição de tal forma que o nosso companheiro mais doente quis manifestar esse sentimento.

Vamos tomar um café ,hoje pago eu! Um pouco ao lado havia um pequeno Café. Balcão comprido e nele sandes, bolos e algumas garrafas de bebidas diversas. A atender um homem já um pouco idoso mas simpático ia dando conta do recado. Muito bom dia ! O que desejam se faz favor? É café para todos respondeu o ti Mendes que de imediato meteu a mão há algibeira tirou a carteira e colocou umas medas em cima do balcão dando assim cumprimento ao prometido. Bebeu o café e passou a colher pelo fundo da chávena retirando algum do açúcar não derretido, olhou para nós e em tom de critica exclamou, isto não é nada, fiquei na mesma, podia-o ter posto numa caneca!!!

Estar em Vilar Formoso, fronteira com Espanha e não ir ao “Nuestros Irmanos” comprar uns caramelos até parecia mal. Uma passagem pela farmácia aviar as receitas e lá fomos nós a pé ao outro lado.

Ali sim um grande café que mais parecia uma grande superfície comercial, se alguma coisa faltava seria apenas dinheiro porque de resto havia muita coisa incluindo os ditos caramelos que se agarravam aos dentes como dizia o amigo Ernesto. Fizemos umas pequenas compras, uns chocolates, rebuçados e claro os caramelos que ali nos levara. Não me lembra quem convidou para tomar qualquer coisa mais. Ao meu lado o Ernesto olhava para dentro do balcão tentando descobrir o que havia de tomar quando de repente o ti Mendes lhe puxa o braço e diz, Já vistes Ernesto, aquele Espanhol pediu um café e deram-lhe uma malga dele.?! Assim vale a pena!!

De regresso a casa, contando algumas anedotas especialmente sobre os espanhóis e o contrabando que ainda se fazia nessa altura todos pareciam também ter comprado a saúde que todos desejávamos.

( Dedico este texto aos companheiros de viagem já falecidos. Paz á sua alma e um até breve amigos. Encontrar-nos-emos quando Deus quiser)

Saudações Albicastrenses.

Isaías Cordeiro

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