09/05/2010

À Barbara o que é de Barbara, e a Bernardino cerejas.

Autor: Luis Pardal
Já lá vai o tempo do inverno. As folhagens sucederam às flores que agora encobrem cachos verdes de pinções de cerejas ainda a amadurar.
O dia do São Bernardino está próximo. O Santo das cerejas, do começo do verão, das ceifas, das colheitas e das hortas pra regar com a água dos ribeiros, que depois disso como que a dizer, tarefa cumprida, secam por inteiro até as chuvas do final do outono.
Fotografia da festa de São Bernardino, tirada no carrascal. Um padroeiro muito interessante, São Bernardino, que divide na nossa terra, com Sta. Barbara, a difícil tarefa de serem os protetores das trovoadas. Apesar de dividirem a responsabilidade de mandar as trovoadas embora do espaço aéreo albicastrense, é Santa Barbara que leva a melhor, e que fica com os louros, pois nunca ouvi alguém dizer pelo povo: “só te lembras de São Bernardino quando troveja”. Mas, à Barbara o que é de Barbara, e a Bernardino às cerejas e festa de maio. Eles que estão lá no alto do céu não devem dar muita importância pra estes títulos carinhosos com que nosso povo os apelidou.
A devoção e as crenças populares estão cada vez mais distantes e perdidas na memória do povo. Mudam-se os tempos, e as necessidades. O bom santo perdeu a função, poucos ainda se lembram dele quando troveja. Eu confesso minha fé, mesmo longe da terra quando as chuvas, trovões e relâmpagos ameaçam, é para ele que elevo minha prece, meu rico São Bernardino.
Isto porque me ficaram no coração e na mente as memórias e imagens guardadas da infância, que me trazem de volta o sentimento de angústia e aflição que nosso povo vivia com a ameaça das trovoadas.
O sustento das almas e dos corpos vinha da terra. A vida e a subsistência estavam nos campos de trigo, centeio, cevada e nas hortas plantadas com batatas, cebolas, feijões, couves, pimentos e alfaces. As trovoadas ameaçavam e punham tudo isto a perder. A fartura e o resultado de um ano inteiro de trabalhos eram perdidos em minutos de tempestade.
A vida tinha prioridades e valores diferentes das de hoje em dia, as pessoas eram mais solidárias, compartilhavam das mesmas alegrias e dores, viviam juntas os mesmos destinos e sinas.
Assim quando as nuvens ameaçavam trazer a trovoada, lá estavam as mulheres da nossa terra, a correr para a igreja a pedir a São Bernardino a proteção. Normalmente, eram preces desesperadas e sentidas. Vindas do mais fundo do coração das mães que anteviam a falta do pão nas mesas. Mães que sentiam por antecipação na própria carne a fome dos filhos ou o frio do terrível inverno que teriam que passar com a tulha vazia.
Mulheres atentas, que tinham a missão de zelar pela vida que corria perigo com a chegada dessas forças terríveis da natureza.
Mulheres sábias que, ao verem que a ameaça era maior que a força delas, apelavam para o divino, por se sentirem pequenas perante a enormidade da natureza, que se preparava para descarregar um dilúvio por cima da aldeia. Ninguém melhor que São Bernardino e Santa Barbara para interceder.
Acudiam a igreja com uma escada para descer os santos do altar. Depois, em contrita procissão, subiam à torre da Igreja e lá ficavam a rezar, e a repetir ladainhas entrecortadas por Ave Marias e padre nossos, abraçadas aos santos padroeiros.
A fé move montanhas. Foram muitas trovoadas que as mulheres de Castelo branco fizeram dispersar a olhos vistos por cima dos cabeços e montes da nossa terra.
Nem sempre a fé foi suficiente para evitar tragédias, e nem os santos tiveram tal poder. Houve uma trovoada que ficou famosa em nossa aldeia pela desgraça que criou. Quem me lembrou dela foi o nosso amigo Arlindo. Muito em breve estará aqui esta história pra relembrar do acontecimento e da solidariedade das gentes albicastrenses.
Luis Pardal
Sino
Foto Guilherme Sanches

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