07/08/2010

O garoto da água.

Autor: Isaias CordeiroDSC01144  
O verão estava no seu esplendor. O sol queimava e o ar era quase irrespirável em todo o lado, mantinha-se a máxima de nove meses de inverno e três de inferno.
As ceifas estavam quase terminadas, aqui e ali os “ Rilheiros” esperavam pelos carros de bois que já de madrugada chiavam por todo o lado originando o som característico bem refinado capaz de destruir os tímpanos mais afinados.
Nas eiras novas as medas de muitas ou poucas pousadas cresciam a bom ritmo outras exibiam já o seu cone de encerramento prontas para a fase seguinte. No corredor deixado para facilitar o trabalho já o velhinho Ferguson movia a não menos idosa Tramagal. Muita gente em redor cada um desempenhando uma função, umas melhores outras nem por isso mas que no fundo todas se complementavam tornando possível levar para a tulha o fruto do ano de trabalho, o tão precioso trigo e centeio.
DSC01864Nos Adis, na eira particular da Casa Grande, moinho e até na cortinha do senhor Manuel Rodrigues onde já motor e malhadeira esperavam o término da acarreja e dar inicio á debulha do pão. Quase sempre num ritual de entreajuda, com muito trabalho, suor, sacrifício mas também com alegria e camaradagem bem vincada principalmente quando se comia o bacalhau frito, as sardinhas albardadas, as pataniscas, azeitonas queijo duro sempre bem regadas com o bom vinho desta terra que á data havia com muita fartura. Nem cosco ou moinha retirava apetite e não faltava uma boa pitada de humor.
O personagem deste artigo participou como quase todos o faziam nestas colheitas anos a fio mas curiosamente no ano a que este relato se refere não o fez com a assiduidade habitual.
Terminadas as ceifas na nossa terra quase sempre se organizava um grupo de homens sempre designados por “segadores” que seguia para os lados de Miranda onde por norma as ceifas se faziam um pouco mais tarde. Alguns deles tinham já patrão certo e estes com muito trigo para ceifar e pouco pessoal havia sempre trabalho para muita gente, quanto maior fosse o grupo melhor.
Num desses dias o Senhor Amadeu abordou o garoto e perguntou, queres ir comigo? Vamos segar para Duas igrejas e são mais ou menos quinze dias. Vão também o Zé Çãncio o Ti Fidalgo e o Mudo (Moises).Havia mais um que hoje se desconhece.
O garoto não se fez rogado e sem consultar a família deu um sim bem vinculativo desconhecendo por completo o que o ia esperar. Ceifar já ele o fazia pois tinha já justo e ceifado dezasseis alqueires de semente algures ao cimo da Rodela nesse mesmo ano. No entanto e sendo o mesmo cereal era bem mais forte no planalto Mirandês.
Chegado a casa, dado conhecimento á família e obtida autorização era hora de preparar a sarapilheira e nela colocar alguma roupa a foice e uns dedais. Cerca das dezasseis horas do dia seguinte lá estava a equipa a apanhar a carreira do Cabanelas essa que fazia o trajecto Barca Dalva- Miranda do Douro. Pelo caminho iam contando ao garoto que para ali é que havia trigo forte e alto e em certas poças quando dobrados não se via ninguém a segar.
Cerca de duas horas depois estávamos em Duas igrejas terra onde o Amadeu era sobejamente conhecido e dispunha de patrão por serviço prestado em anos anteriores. Saímos e uns metros á frente um velhote bem castiço vem ter com o Amadeu, cumprimentou-o e disse vamos andando para casa! Assim foi, não ficava muito longe da paragem, abriu a porta e disse para se sentarem. O Amadeu que a partir daquele momento já tratava o velhote por patrão dada a confiança e pelo jeito em tom de brincadeira que usava na lide com as pessoas dizia-lhe que eram poucos mas lá na terra não tinha mais gente para ir segar.
Até aqui nada de anormal, possivelmente o velhote nem sequer tinha reparado num pormenor só que uma outra porta foi aberta da qual saiu a velhota dona da casa cumprimentou o Amadeu e ao olhar para o rapaz em tom de admiração disse bem alto “”Oh Amadeu trazes o garoto para a água? Podia até ter ficado atrapalhado mas não, como sempre o fazia na brincadeira respondeu. A patroa não se preocupe só paga o que ele merecer e a propósito, onde vamos começar amanhã? A velhota olhou para o marido e como este não disse nada respondeu ela, na Cortinha Grande Amadeu, já sabes onde é não sabes? Sim aquela que tem uma grande poça não é? Sim, sim. Olhou para o garoto de soslaio e entre dentes disse-lhe, tiveste azar para começar, se tiver o pão como o ano passado é muito mais alto do que nós.
O patrão tirou o relógio do bolso, deu uma espreitadela e disse, será melhor comer alguma coisa e depois descansar. Assim foi, pôs na mesa um pão, presunto ,bacalhau a cortar da peça e um grande jarro de vinho, sim porque todos bebiam incluindo os patrões. A patroa entregou umas mantas e disse ao Amadeu para irem dormir á curralada. Na manhã seguinte ,bem cedo já todos estavam na dita cortinha incluindo o patrão. Ao ser de dia iniciaram a ceifa. O garoto foi colocado no meio e as ordens do mais velho eram, uma foiçada aqui outra ali para ajudar o garoto.
Já o sol ia alto quando ao longe o Amadeu viu uma mulher sentada no burro com os alforges. Rápido a conheceu e disse, é rapazes vem ali a patroa nova, a filha do casal
que no dia anterior não se mostrou. Trazia o almoço e á medida que se aproximava já todos a olhavam com curiosidade. O avo mandou pôr a burra na ponta da assucada e o Amadeu foi ajudar a menina a descer numa brincadeira inofensiva dizendo, desça, desça, pode pôr o pé no meu estribo. Até o avo se ria. Já no chão a neta perguntou ao avo, quantos cá tem? Lá do alto via pão a cair e não via lá nenhum segador. Explicada questão, comido o almoço o dia continuou na sua rotina normal.
Assim se passaram quase quinze longos dias de trabalho difícil, normal para os mais velhos mas quase incomportáveis para o garoto que só com muita ajuda do resto da equipa foi possível resistir. No último dia de trabalho foram fazer as contas, mais uma questão tinha de ser resolvida. A geira do garoto! Na mesma mesa onde á chegada comemos conferiam-se os dias de trabalho e pequenos pormenores.
O patrão perguntou, Amadeu quanto devemos pagar ao garoto? Olhe, para lhe ser franco não sei apenas posso dizer que ele se esforçou para fazer o melhor que podia honrando-nos a todos. Se eu lhe pagasse a geira igual á vossa ficavam zangados? Em defesa do garoto responderam, não nos importamos e também não íamos receber mais por isso .Todos ficaram contentes, premiaram o esforço e o espírito de sacrifício. Dos intervenientes só o Moisés e o personagem estão vivos. É certo que o garoto lhes estará grato para o resto da vida. Aos que já não estão entre nós paz á sua alma e um até breve.
OBS: O episódio supra foi passado com a família de José Francisco Matos (Também este já falecido) filho do casal referido neste texto. Esta família tem continuidade. A sua neta de nome Fernanda é casada com um rapaz de nome Raul pessoas com quem tive muitas transacções comerciais enquanto responsável pela empresa onde trabalhei. A eles também um cumprimento especial.
Isaías Cordeiro

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