04/06/2010

Tardes de junho

Autor: Albano Solheira
Sentados no tanque das eiras estão á espera de o dia acabar.
Ficam a olhar a marca do por do sol a crescer no céu.Um resto de luz a escorrer do cimo das nuvens e dos montes evapora no ar e troca o dia por um manto de noite que desce dos montes com pressa de trazer a noite.
Os olhos esbugalhados pela ansiedade e pela repentina escuridão ficam atordoados com a vista turva. Os corpos aproximam-se, ombros, braços e mãos, mais vivos que nunca, atraem-se, num entrelaçar de dedos e abraços desencontrados, com ânsia de sentir o outro, de viver o momento tão esperado.
A escuridão, doce aliada, escudo protetor dos olhares alheios, deixa-os livres dos olhares de rapina que ao longe controlam cada movimento. Vão lá agora as beatas ver do lugar de onde estão, as mãos a percorrer o rosto, os afagos no cabelo, o encontro dos lábios, os beijos, os murmúrios, as juras de amor, o momento dos dois. Tudo foi tão bem planejado e funcionou tão certo, que parece mentira.
Minutos antes, convenceram finalmente a irmã mais nova para ir comprar cigarros e chiclas no café do Peres que ficava perto na entrada da aldeia.
A moça que, não era boba nem nada, desconfiada do perigo, reclamou que não podia, que a mãe não deixava, que eles não podiam ficar ali sozinhos. Mas, os dois foram convincentes. E, o argumento que fez a moça ceder foi que dali de onde estavam, as mulheres sentadas á porta da casa da tia Souza, viam tudo. Eles estavam bem guardados pelos olhos das rendeiras de soalheiro. Nisto ela foi convencida por tão forte argumento e aceitou ir ao café. Mas quase tudo se perdeu. Ao pegar a nota de vinte escudos ficou a olhar meio que a resmungar e antes de sair ameaçou ficar ali: -Só vou se puder tomar uma seven up no café. Ele sem querer dar nas vistas tentou disfarçar a satisfação com um ar de bravo e arrematou com voz firme: - Vai mas não demores. E não te acostumes mal, que eu não sou teu pai. Deu mais 10 escudos e disse: - Não gastes tudo e trata de me trazer o troco.
Ela saiu em passos rápidos e a fazer caretas estouvadas e gargalhadas de contentamento.
Calados e incrédulos, os dois ficaram parados, imóveis, respiração contida meio que sem acreditar.
Contaram os passos, os minutos, até que ela virou na curva do fim da reta das eiras e sumiu.
Suspiros... O espaço entre os dois ficou de repente, menor, cada vez menor.
O sol já se punha, mas tão lentamente que nunca um por do sol, demorou tanto. Interminável...
Demorou uma eternidade para ficarem sozinhos.
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