20/04/2010

Tempo de podar e lavrar as vinhas

Autor: Luis Pardal.
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Lembro com muita saudade desta época, e dos trabalhos de podar,  lavrar e, arredar as vinhas. Cresci á volta das parreiras. Meu pai dizia que fui encomendado debaixo de uma na nossa vinha da rodela. Não duvido disso.
Alem dele, meu avó Antonio plantou vinhas nas figueirinhas, vale de viado, prado de carriçais, e no boboedo. Em todas tinha uvas de boas e variadas castas. Na nossa casa sempre tivemos vinho muito bom.
Nossa região e distrito, está sujeita  a geadas fortes todos os anos que põem em risco as rebentações temporãs. Assim meu avó e pai e a maioria dos conterraneos só podavam as vinhas pelos fins de fevereiro ou começo Março.
Depois da poda, era hora da lavra. Meu pai sempre fez estes trabalhos  com uma junta de machos, não gostava da lentidão dos bois ou vacas. Era enérgico e gostava de fazer as coisas de forma rápida e eficaz. Como sabem na lavra das vinhas tinham que ser postos em um jugo mais estreito para poder entrar nos valados e chegar com a charrua o mais perto possível das cepas.
Os valados eram estreitos e lavrados por inteiro de ponta a ponta. Por melhor que fosse o lavrador sempre sobrava trabalho para fazer á mão com os ganchos ou sachos. A charrua e o arado não iam muito perto das parreiras pois tinha risco de as arrancar ou danificar os rebentos. Nisto sempre ficava uma boa porção de terra entre as parreiras que obrigava a cavar para tirar a erva. Este trabalho era feito nos ganchos para arredar a terra, tirar ervas daninhas, e deixar as cepas arejadas e livres de plantas que pudessem disputar a água e mantimentos.
Era lida para alguns dias. Normalmente as férias da páscoa caiam sempre nesta época e eu voltava todos os anos para o seminário com as mãos cheias de calos que me faziam lembrar durante um bom tempo dos dias na aldeia a arredar as parreiras. Minha mãe dizia que era para me agarrar com mais ganas aos livros a estudar. Um santo remédio…
Apesar do trabalho duro, sempre lembrava e, lembro ainda, com muitas saudades, das merendas que comiamos juntos, sentados á sombra de alguma oliveira. Minha mãe dizia que a hora de comer era sagrada. Uma toalha estendida no chão e todos sentados à volta dela.
No farnel da merenda quase sempre havia um pouco do fular que sobrara da páscoa, pão, azeitonas, presunto, queijo, alguma chouriça e alem disso nunca podia faltar uma cantara de barro com água fresca colhida de alguma fontaela localizada perto da vinha. Para os adultos sempre tinha a “bota” do vinho, que refrescava a goela e enchia com novo alento e força os ânimos para continuar os trabalhos.
A poda tem seus segredos e arte. Poucos tinham na mão e nos olhos o dom de saber ver com propriedade por onde começar e como fazer.
folhas das parreiras Lembro com saudades destes gestos feitos vezes sem fim,  do inicio ao fim do dia pelo meu pai e avo. Estes podadores ficavam parados a olhar a parreira em silêncio no mesmo jeito de quem estuda um mapa. Olhos espertos e atentos olhavam primeiro para a vide e a estudavam para entender como foi a rebentação e desenvolvimento do ano anterior. A grossura e a saúde das vara diziam quais seriam ou não mantidas e em quais valia a pena apostar para uma boa frutificação.
Depois desta análise experiente era a hora do corte das vides. A tesoura de poda era guardada como um tesouro de um ano para o outro e por mais que eu tentasse não me deixavam chegar perto dela para brincar por nada deste mundo. Tinha que estar bem afiada para cortar bem, com um "golpe" só, sem deixar rebarbas. Por isso a mantinham fora do meu alcance.
parreias a chorar Sempre me impressionou muito o choro das parreiras. Meu pai dizia que elas choravam por lhes cortarem os braços mas que era um choro de alegria pois não teriam uvas se não as podássemos. Confesso que algumas vezes eu cheguei a beber da seiva que corria solta das vides cortadas, para ver que gosto tinha. Um gosto adocicado com sabor de terra e vide que em nada lembrava o vinho. Fiquei decepcionado. Na verdade tinha gosto de lágrimas, lagrimas de parreira.
folha_nova_02 Mas a poda continuava e ela é na verdade o tratamento da vara que vai dar a próxima rebentação. Lembro que tanto meu pai como meu avó deixavam pelo menos dois "ôlhos"  ou mais dependendo do estado da videira, e que por vezes tabem se deixavam alem da vara o cepo, ou serroteavam parte da cepa para fazer com que ela rejuvenescesse.
As demais vides eram cortadas rentes para fazer a limpeza da base. No fim do dia recolhiam-nas em molhos e eram amarradas com vencilhos de centeio e amontoados em um canto da vinha para secarem e depois serem levadas para casa e servirem de lenha para o forno ou aquecer a lareira. Na aldeia nada se perdia tudo tinha um uso ou serventia.
Mas o que mais gostava de ver e ouvir eram as sentenças que tanto meu pai quanto meu avo gostavam de dar do serviço da poda alheia. Sabem do que falo: Ao andar pelos caminhos que passam perto das vinhas pode-se observar o trabalho feito. Quem passava sempre ficava a reparar se a poda estava ou não bem feita. Quem sabe, nota o bom serviço e antevê o resultado para bem ou para mal. E como eles diziam: “Ele há lá podadores e os outros que se dizem, mas na verdade só cortam uma vides, e o pior de tudo é que acreditam que mesmo assim podem esperar que o ano seja propício.”
Tempos bons que foram embora. Nos anos 60 a vinha constituía depois da cultura do centeio e trigo a maior das extensões cultivadas. Nesta década ocorreu o grande surto emigratório que despovoou nossas aldeias.
Assim as vinhas de valados estreitos ficaram cada vez mais difíceis de manter pela falta de mão de obra que as cultivasse. A lavra com as vacas, machos ou mulas feitas de forma artesanal e muitas voltas que a terra levava eram feitas no arado charrua, nos ganchos e sacho por muitos jornaleiros que com isso ganhavam a vida, o pão e o vinho. Um dia inteiro para ganhar alguns escudos. Para os mais novos, o equivalente a aproximadamente dez cêntimos.
Assim chegamos aos anos 80 e a falta de mão de obra ficou cada vez mais notada. Começa então um arranque parcial: valado sim, valada não para que se pudessem lavrar as vinhas com os tractores. A partir de 1986, chegaram os subsídios da CEE para arranque da vinha. De forma desenfreada estes fundos e os donos afoitos ao dinheiro enganador, agiram sem perdão e sem remorsos, piores que a mais destruidora das molestias e liquidaram a tradição de séculos, e as vinhas uma após outra, foram sendo quase todas arrancadas e extintas.
As cepas que antes se enchiam de cachos maduros de malvasia, verdelho, ou touriga agora serviam de lenha nas lareiras. Quero crer que é por isso que as pareiras choravam e choram por tanto desleixo e insensibilidade.
A paisagem mudou quando foram retiradas as enormes manchas de verde, o vazio dos campos deixou a paisagem mais árida. O pior é que não voltaremos a ver o verde das parreiras, nem o vinho excelente que sabemos que estas terras davam.

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